Empresas de energia querem competir com as teles

Por Mariana Mazza*

A regulamentação para a oferta de internet via Power Line Communications (PLC) ainda não está concluída, mas as distribuidoras de energia elétrica já fazem planos para conquistar uma fatia do mercado de banda larga a curtíssimo prazo. Apesar de a implantação do serviço não estar plenamente pacificada no setor elétrico, distribuidoras de energia como a Copel pretendem iniciar a oferta comercial de internet em 2009 e estão confiantes de que têm fôlego para abocanhar uma boa fatia deste mercado. “Temos como oferecer um produto com maiores velocidades e mais acessível”, garantiu o consultor de telecomunicações da Copel, Orlando César de Oliveira.

Para que os planos da Copel decolem, falta apenas a conclusão da regulamentação da oferta do serviço por parte da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A agência fez nesta terça-feira, 13, uma audiência pública para que os interessados no assunto fizessem suas considerações antes da conclusão do regulamento.

Um dos pontos que ainda gera controvérsia é com relação à tarifa que poderá ser cobrada pelas distribuidoras pelo acesso às redes de energia para a transmissão de dados. No setor elétrico existe uma regra que obriga as concessionárias a transferir parte dos ganhos com a locação de suas redes para as tarifas cobradas dos consumidores de energia, em prol da modicidade tarifária. 

Ocorre que essa transferência tem sido vista como um desestímulo por alguns agentes do setor na oferta do PLC. É a interpretação da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), por exemplo. Para o assessor da diretoria da Abradee, José Gabino, a Aneel poderia pensar em alternativas que estimulassem as empresas a prestar o PLC, como o adiamento por algum tempo da regra do repasse. “A regra que tem hoje não faz sentido nenhum. As empresas podiam ficar com toda a tarifa, por exemplo. É preciso encontrar um jeito de estimular a empresa”, afirmou Gabino.

Planos ambiciosos

No Brasil, seis concessionárias já fazem testes com o PLC há alguns anos e apostam que a tecnologia está pronta para permitir uma oferta competitiva de banda larga aos seus consumidores. São elas: Copel (PR), CEB (DF), Cemig (MG), Light (RJ), Celg (GO) e Excelsa (ES). Ao menos uma delas, a Copel, se diz preparada para iniciar sua operação comercial do serviço no próximo ano e planeja a execução de uma oferta-piloto para 10 mil clientes no início de 2010.

Atualmente, a Copel comanda seu teste na localidade de Santo Antônio da Platina, onde cerca de 300 consumidores têm acesso irrestrito e gratuito à banda larga via PLC. Nessa primeira fase, a distribuidora tomou a decisão de não oferecer seus pacotes tendo como parâmetro a velocidade de acesso, como fazem as teles. A empresa quer transportar para as telecomunicações o mesmo método usado na oferta de energia, ou seja, o cliente paga pelo que usar na transmissão de dados, sem restrições prévias a velocidades de download. “Tem gente que nem televisão tinha em casa e hoje vê TVs do mundo todo pelo computador”, conta Oliveira sobre a experiência em Santo Antônio da Platina.

 

O método tem sido chamado pela empresa de “web on demand” e, segundo o consultor da Copel, é bem mais acessível do que o sistema utilizado pelas teles. “Telecom está em um modelo equivocado. Vamos implantar (o PLC) dentro do modelo de energia, onde não somos nós que controlamos o consumo. É o próprio cliente.” Oliveira acredita que, com a capilaridade da rede elétrica, o uso do PLC pode ser uma grande ferramenta para a real inclusão digital do país. “O escopo maior é que ele vem ao encontro da inclusão digital, pois a rede elétrica tem uma penetração de 98%, 99%. O PLC é uma alternativa viável e exequível para a inclusão.”

Sem traffic shaping

Ao defender o uso do PLC, Oliveira também não poupa críticas às teles. Uma das grandes reclamações é a prática do traffic shaping, que a Copel garante que não irá aderir caso confirme sua entrada no mercado de transmissão de dados. “A Copel não aplica controle de tráfego. Isso é um erro, inclusive do governo, que deveria impedir essa prática”, protesta. Garantindo que não limitará o acesso a qualquer tipo de transmissão, a distribuidora alega que as tecnologias PLC disponíveis hoje asseguram conexões com mais velocidade do que as oferecidas pelas teles.

 

Segundo o consultor, os equipamentos existentes permitem conexões com velocidades de até 400Mbps. O plano de atendimento da Copel prevê a oferta de 100Mbps para cada grupo de 50 potenciais clientes. Para viabilizar a oferta comercial do serviço à sua base de consumidores de energia, de 3,5 milhões, a distribuidora estima que será necessário um investimento de US$ 1 bilhão. A parte mais complexa da estrutura de oferta de dados, o cabeamento em fibra da região de atendimento, já está pronta com a implantação de 7 mil quilômetros de cabos OPGW – a fibra passa dentro dos cabos de alta tensão – e mais 7.000km em cabos urbanos. 

 

Segundo Oliveira, sem que a distribuidora precise fazer maiores esforços é possível atingir uma penetração de 33% na oferta de PLC, índice bem mais expressivo do que os obtidos nas ofertas tradicionais de banda larga, via cabo e ADSL. O cálculo é baseado na estimativa de que, para cada três conexões de PLC, uma funciona com eficiência. Considerando a penetração de quase 100% da rede elétrica em sua área de atuação, a distribuidora teria potencial inicial de oferecer banda larga, com bom funcionamento, para um terço de sua clientela atual.

 

Monopólio

Outra questão que ainda precisa de ajustes no modelo de oferta do PLC é a quantidade de empresas que poderão gerenciar essa nova rede de acesso. De acordo com as apresentações feitas na Aneel, apenas uma prestadora poderia ser responsável pelos modens que fazem a modulação da rede elétrica para a oferta do PLC por conta de problemas de interferência. Caso essa hipótese se confirme, o caminho natural seria a distribuidora de energia ter o controle exclusivo dessa rede de acesso.

No entanto, as distribuidoras asseguram que isso não impedirá a competição na oferta final do PLC, caso existam outras empresas interessadas em prestar o serviço. A distribuidora, em uma via, ofereceria o serviço aos seus clientes, mas por outro lado também poderia sublocar os modens para a oferta por terceiros. Mas o futuro dessas relações comerciais pode não ser pacífico. 

Oliveira insinua que as distribuidoras lutarão para manter o controle de suas redes, inclusive na oferta de dados, e que não aceitarão a possibilidade de abrir sua infraestrutura às empresas de telefonia. “Não faz sentido abrir para quem é monopólio”, alfineta o consultor da Copel, lembrando que não só as concessionárias de telefonia fixa mantiveram em rédea curta o acesso às suas redes nos últimos anos. Segundo Oliveira, empresas como a GVT também jamais deixaram as subsidiárias de telecom das distribuidoras entrarem em suas redes. 

*Publicado no Tela Viva em 13/05/2009

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