Internet das coisas: este é o dono da senha

Da redação do site i3*

A próxima grande onda de inovação virá através da convergência entre pessoas, dados, processos e objetos. Esse é o conceito Internet of Everything (IoE), que em português os especialistas estão chamando “internet das coisas”. Será uma grande oportunidade para as empresas terem lucro, mas ao mesmo tempo será um desafio para os atuais modelos de negócio.

Pelo menos, é assim que pensa o homem que tem a chave para se chegar lá: John Chambers, presidente da Cisco Systems. Fundada em 1984, a empresa em poucos anos se tornou uma das estrelas do Vale do Silício, criando soluções inovadoras para redes que armazenam e transportam os dados de centenas de empresas pelo mundo afora. Há alguns anos, Chambers vem trabalhando sobre o conceito de IoE. Poucas pessoas, hoje em dia, estão mais capacitadas do que ele para explicar como isso será aplicado à vida das pessoas e das empresas.

Na visão do executivo, IoE equivale à soma de três conceitos já em prática atualmente: M2M (machine-to-machine), que envolve a comunicação e as negociações entre empresas; P2M (people-to-machine), que seriam os vários meios das pessoas contactarem as empresas; e P2P (peer-to-peer), relacionado aos contatos e negócios entre indivíduos. Cada uma dessas formas de comunicação é parte de IoE, já que, no mundo atual, todas utilizam extensivamente a internet.

O novo conceito abrange quase todos os aparelhos que as pessoas já utilizam em seu dia a dia, dos smartphones aos eletrodomésticos, dos automóveis aos equipamentos industriais. Num futuro próximo, todos eles serão equipados com sensores que tornarão mais fácil, rápido e barato o ato de se comunicar. É uma quantidade fantástica de dispositivos, que irá produzir dados como jamais se viu.

Na visão de Chambers, adotada por toda a corporação Cisco, os sensores instalados nos aparelhos serão comuns em setores tão diferentes como cuidados com a saúde, controle de tráfego e processos industriais. Residências, fábricas e escritórios mudarão completamente suas rotinas, consumindo menos energia e reduzindo seus custos operacionais.

A Cisco é uma das empresas que sabem como é importante estudar essas tendências e se antecipar às mudanças. Nesta entrevista, John Chambers explica em detalhes essa filosofia e mostra como outras empresas – inclusive de pequeno e médio porte – podem se beneficiar da “internet das coisas”.

P – O que significa exatamente o conceito IoE para o consumidor em geral?

R – Significa um mundo em que o controle da internet estará sempre nas mãos do usuário, em tudo que ele faça e em todos os lugares onde vá. Significa que poderemos gerenciar os cuidados com nossa saúde, com minúsculos sensores instalados em nossas roupas, que se comunicarão com nossos médicos fornecendo dados em tempo real. Significa que nossos despertadores poderão nos acordar 10 minutos antes da hora programada, caso estejam conectados a uma central de informações avisando que o trânsito está complicado. Significa que nossas casas poderão ajustar automaticamente a temperatura interna de acordo com a situação do tempo lá fora.

P – Como o usuário poderá acionar esses controles todos?

R – Definimos IoE como a conexão entre pessoas, processos, dados e objetos – e o ganho exponencial que ocorre quando tudo isso é combinado. As redes e os aplicativos irão trabalhar para facilitar a vida das pessoas, dar-lhes um melhor padrão de saúde e tornar seu trabalho mais eficiente.

P – Quais são os desafios para que tudo isso se torne acessível?

R – A internet das coisas já existe, de certa maneira. Há aplicativos que nos ajudam a chegar mais rápido aos lugares, ou que regulam a quantidade de água irrigada nas lavouras para obter a melhor colheita. Como em toda transição tecnológica, leva algum tempo até que as pessoas processem as informações e as incorporem em sua vida diária. Quando a internet surgiu, levou tempo para se descobrir como seria útil. A mesma coisa vai acontecer agora.

P – O que será feito com tantos dados que serão coletados sobre as pessoas e suas atividades?

R – Os dados são cruciais para o sucesso do IoE e devem ser tratados com muito cuidado. As empresas precisarão dar exemplo no uso e proteção dos dados pessoais, principalmente com o surgimento de novas tecnologias. Todos que oferecerem serviços IoE deverão ser transparentes e mostrar claramente como usarão esses dados. E garantir que, uma vez coletados, eles estejam protegidos.

P – Os consumidores devem se preocupar com a questão da privacidade?

R – Acho que toda vez que se lida com informações pessoais o consumidor quer entender como seus dados estão sendo usados e protegidos. É o que já acontece hoje, e tenho certeza de que continuará acontecendo. Ao mesmo tempo, é preciso estimular aplicativos inovadores que ajudem o consumidor, seja para ter mais saúde, para chegar mais rápido ao seu destino ou para tomar decisões com mais segurança. É bom lembrar que existem contrapartidas nas relações entre consumidores e provedores. Quem oferece um serviço em troca dos dados pessoais tem que garantir ao seu cliente um valor que este considere interessante. Como já disse, todo mundo precisa ser mais transparente, caso contrário não será uma relação justa.

P – Mas, como garantir que todas as empresas sigam esse caminho?

R – Existe um diálogo permanente entre governos, legisladores, desenvolvedores de aplicativos e usuários. Isso é muito positivo, deve continuar e será crucial se a IoE evoluir como estamos prevendo. A Cisco acredita que todas as empresas devem informar seus clientes sobre suas políticas de privacidade e oferecer opções que lhes garantam o controle sobre seu uso. Afinal, a confiança do cliente deve ser conquistada todos os dias.

P – Para que tudo funcione, será necessário ampliar o espectro de frequências?

R – Sim, com certeza. O coração da IoE está na conexão. Na maioria dos casos, essa conexão será sem fio, e isso exige espectro de rádio. Esse é o desafio: já há um esgotamento causado pelo uso intensivo de aparelhos móveis e pelo alto consumo de vídeo. A quantidade de dados circulando pelas redes irá aumentar 67 vezes entre 2007 e 2017! Com o desenvolvimento da IoE, esses números só vão crescer. Portanto, os governos precisarão aumentar as licenças para banda larga e também o espectro não licenciado para Wi-Fi. A indústria está trabalhando duro para entregar tecnologias sem fio novas e mais eficientes, tentando explorar ao máximo cada megahertz disponível. Mas só isso não basta. Terá de haver mais espectro. Se os governos não agirem, o espectro ficará mais congestionado, criando um gargalo que impedirá a evolução da IoE. Com isso, teremos menos inovação e menos empregos.

*Texto distribuído pela CEA (Consumer Electronics Association

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