O futuro da inovação está na Ásia

Por Eric Drexler*

A Ásia possui características que a tornam o centro da inovação tecnológica no século 21. São características fundamentais e duradouras, que repousam na própria cultura da região e na herança de suas civilizações. Seu capital humano e sua capacidade de mobilização só reforçam essas vantagens culturais.

O termo “Ásia” é, claro, um rótulo para um grupo de sociedades diversas. Comentarei basicamente sobre a China, que tem várias semelhanças com Taiwan e Cingapura; a Coréia do Sul carrega também algumas similaridades, enquanto Japão e Índia são substancialmente diferentes. Meu foco é a inovação tecnológica, porque esta é capaz de propagar inovações por toda a economia, transformando aquilo que produzimos, usamos e o modo como fazemos. Centros de inovação tecnológica tornam-se centros de inovação numa larga escala econômica, influenciando áreas como a legislação, os investimentos e a cultura empresarial.

Para ser um centro mundial de inovação tecnológica, uma sociedade precisa de três elementos básicos:

*Uma cultura que dê suporte às mudanças e lute por elas;

*Capital humano, ou um conjunto de habilidades que façam parte das pessoas;

*Capacidade de mobilização, que vem a ser o desejo de atingir objetivos ambiciosos.

Esses elementos são mais importantes do que qualquer medição técnica ou tendência econômica, porque são duradouros. A cultura de um país pode variar de uma geração para outra, passando do estímulo à  complacência. Enquanto uma geração se esforça para passar da pobreza à prosperidade, a geração seguinte encara a prosperidade como se fosse um fato natural da vida. O Japão e a maioria das sociedades ocidentais vêm tendo estabilidade e prosperidade há décadas, mas a história recente mostra que a maior parte da Ásia é bem diferente. A arquitetura social da China foi esmagada ao longo do século 20, deixando um saldo de pobreza e desorganização, enquanto o Ocidente avançava na sociedade industrial. No entanto, essa desorganização tinha uma qualidade extraordinária – eram peças soltas de uma altíssima civilização. O estímulo à mudança na China é enorme, por todas as razões que inspiram  os pobres a lutar para sair da pobreza.

Esse processo é amplificado pela convicção, baseada nos acontecimentos recentes, de que  o lugar da China no mundo não é lá embaixo. A experiência da mudança facilita novas mudanças. Pessoas que saíram de vilarejos pobres para viver em arranha-céus, no período de uma única geração, estão preparadas para sonhar ainda mais alto.

As culturas dos países diferem radicalmente em suas atitudes em relação à educação. Nas sociedades emergentes da Ásia, a educação é prioridade máxima – muito acima, por exemplo, do esporte. Na época das provas, descobri que os jornais da Índia publicam passatempos sobre ciências e matemática que seriam difíceis até para universitários americanos. Recentes testes de física feitos com estudantes dos EUA e da China, que cursam universidades da mesma categoria, revelaram resultados praticamente idênticos.

Nas sociedades chinesas, estudantes bem avaliados têm status semelhante ao dos atletas nos EUA. Na Índia, descobri também que os estudantes correm atrás de autógrafos, não de artistas ou celebridades, mas de cientistas. É comum se dizer que a educação asiática se baseia nos exercícios, como se isso invalidasse o pensamento crítico e os hábitos espontâneos de gerar idéias inovadoras. Os próprios governos locais reconhecem esse problema e tentam resolvê-lo. Mas as universidades americanas estão repletas de estudantes e professores asiáticos, e as principais publicações científicas, nos EUA e na Europa, cada vez mais mostram artigos escritos por autores com nomes chineses. Na verdade, os melhores produtos da educação chinesas vêm sendo exportados, e as inovações que eles produzem contam como se fossem do país onde residem.

Essa fuga de talentos, porém, pode estar se revertendo, à medida que a vida e as perspectivas profissionais na China melhoram. Na última década, o país aumento em 20% seus gastos com R&D (Pesquisa & Desenvolvimento); nos EUA, essa expansão ficou em torno de 4%.

O incentivo à inovação e o apoio ao capital humano dependem da organização de um país, seja através de empreendedores, das corporações e dos governos. A Índia, por exemplo, tem enorme incapacidade para implantar reformas políticas e econômicas, mas não interfere nas ações dos empreendedores. Já a China vem demonstrando enorme capacidade de aprender com a experiência, transformando radicalmente sua política de governo e induzindo uma cultura de hiper-empreendedorismo. E, com ciência e tecnologia crescendo em importância, é fundamental que os líderes em geral entendam melhor esses assuntos. Só que, no Congresso dos EUA, são raros os legisladores com algum background nessas duas áreas. Na França, é comum; em Taiwan, muitos políticos são formados em ciências ou engenharia. Na China, dos nove membros atuais do comitê central que dirige o governo, somente um é advogado; os demais são todos engenheiros.

Talvez o melhor indicador de mudança na distribuição mundial do potencial inovador seja a localização dos laboratórios de pesquisa da corporações. Elas estão abrindo seus labs na China com uma incrível velocidade. Na área de eletrônicos, NEC, Hitachi, Sony, IBM e Microsoft estabeleceram centros de P&D; no setor farmacêutico, Roche, Pfizer, AstraZeneca, Novartis e Eli Lilly fizeram o mesmo. Outro dia, li a notícia da inauguração de um centro de pesquisas da ExxonMobil, que custou US$ 70 milhões, em Shangai.

Qualquer sistema pode falhar, e muitas vezes por razões inesperadas. O futuro político e econômico da Ásia pode ser objeto de especulação. No entanto, as tendências, os fundamentos duradouros e os principais indicadores sugerem qued o continente, liderado pela China, será a principal força inovadora do mundo neste século. E quanto maior for a integração global, maiores as chances de que os benefícios atinjam a todos.

*O autor é escritor e pesquisador especializado em tecnologia e inovação. O texto foi publicado originalmente pela consultoria McKinsey, em 06/08/2009

Um comentario para “O futuro da inovação está na Ásia”

  1. Luiz Ayres disse:

    Caro Orlando,
    excelente artigo. como ponto de estímulo a reflexão, entendo que faltou a ponte com o Brasil, que também faz parte dos BRIC.
    Se corremos atrás de jogadores de futebol para colhermos autógrafos, o que será de nós nas próximas décadas?
    Há braços,
    Layres

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