O futuro da televisão está nos aplicativos

Por Orlando Barrozo

A frase acima não é minha. Foi dita duas vezes, no mês passado, por Reed Hastings, 53 anos, fundador e presidente da Netflix, hoje a mais badalada empresa de entretenimento online do planeta. Com cerca de 36 milhões de usuários em todo o mundo (29 milhões nos EUA), o serviço compete diretamente com os canais de TV por Assinatura – a ponto de muitos deles estarem perdendo assinantes no mercado americano (fenômeno chamado cord-cutting).

No Brasil, a Netflix também foi eleita recentemente como “a grande inimiga” das operadoras. O diretor de uma delas recusou-se até a pronunciar seu nome durante um debate no congresso da ABTA, no início do mês, em São Paulo. De modo geral, o setor clama junto ao governo para que seja implantada alguma forma de tributação sobre a empresa, para eliminar o que chama de “concorrência desleal”.

Basicamente, a Netflix oferece filmes e séries de televisão pela internet, via assinaturas mensais que custam menos de R$ 20. A maioria do acervo é  de títulos antigos, mas muitos usuários parecem não se importar. Embora não haja estatísticas oficiais, o mercado presume que a audiência seja crescente entre as pessoas que possuem em casa uma boa conexão de banda larga.

Crescente é também o poder da Netflix junto aos estúdios de Hollywood, cada vez mais dependentes das receitas online de seus filmes. Grandes fracassos do cinema acabam tendo uma “ressurreição” na internet, gerando comentários nas redes sociais, que acabam se transformando em publicidade espontânea. Há quem diga que o modelo de negócio da Netflix é insustentável a médio prazo: seu maior custo seria justamente a aquisição de filmes (US$ 2 bilhões por ano), que tende a ficar mais cara com o aumento dos canais de distribuição.

Mas Hastings parece não acreditar em nada disso. Ao contrário, num exteno relatório divulgado em abril, ele se mostrou orgulhoso de sua invenção e previu mais dificuldades para as mídias tradicionais, incluindo TV aberta e TV fechada. Veja a seguir algumas de suas opiniões e previsões:

“Aplicativos são o futuro da televisão. Nos próximos anos, no mundo inteiro, a internet irá substituir a TV linear e os apps irão substituir os canais; as telas vão se multiplicar e o controle remoto irá desaparecer. Empresas como Netflix, HBO e ESPN, com seus serviços online, é que vão liderar essa transformação.”

“Empresas como essas terão cada vez maior valor de mercado. E a melhor prova disso é que as próprias operadoras estão lançando serviços de TV Everywhere para seus assinantes. Se não conseguirem criar plataformas atraentes, via apps, perderão audiência e receitas.”

“Aplicativos sob demanda são fundamentais, porque as pessoas não gostam da experiência linear da televisão. As emissoras exibem os programas em horários pré-definidos e somente na tela do TV, cujo controle remoto é complicado de usar. Encontrar um bom programa não é fácil nem agradável.”

“A única operadora que nos ameaça é a HBO, principalmente depois de lançar seu serviço HBO GO. Eles conseguiram acordos interessantes de longo prazo com Universal e Fox, por exemplo, e disputaram contra nós na compra de projetos originais. Atuam no mundo inteiro e têm alta capacidade tecnológica. Em termos de produção de conteúdo e de alcance internacional, não temps como competir, ainda que possamos ter mais assinantes do que eles.”

“Outro concorrente forte seria a Amazon, que está investindo pesado e contratando conteúdos próprios. Talvez estejam enxergando na interet o mesmo futuro promissor que nós vemos. Muitos consumidores irão assinar vários serviços simultâneos, para ter acesso a conteúdos atraentes.”

“Não acredito muito no fenômeno cord-cutting. A TV paga continua forte, com mais de 100 milhões de assinantes nos EUA. Mesmo com nosso crescimento, a estabilidade desses números mostra que a maioria considera Netflix como complementar, e não substituto, da TV paga. Na verdade, os serviços de vídeo pela internet não são um problema, do ponto de vista estratégico, para o mercado de TV por Assinatura.”

“Avanços técnicos, como streaming em 4K e publicidade personalizada, irão acelerar a transição da TV linear para um sistema sob demanda baseado em aplicativos. A TV Everywhere irá ajudar as operadoras de cabo nessa transição. No futuro, com menos audiência na TV linear, o espectro de frequências que ela hoje consome poderá ser realocado para a expansão das redes de dados. Haverá menos assinantes de satélite, que serão apenas as pessoas residentes em lugares sem internet de alta velocidade (via cabo ou fibra).”

“Nós não queremos competir com o cabo, queremos apenas ser mais um canal para as pessoas escolherem. Não vamos, por exemplo, nos aventurar em conteúdos com publicidade. Não podemos competir com Comcast, Sky, Apple ou Google. Para termos sucesso, precisamos continuar sendo uma marca focada na paixão. Mais para Starbucks do que para 7-Eleven.”

“Nosso método de compra de conteúdo é baseado totalmente em dados. Podemos pagar, por exemplo, US$ 200 mil por um contrato de exclusividade de quatro anos para um único título. Na hora de renovar, avaliamos quantas vezes aquele filme foi assistido, quanto as pessoas pagaram por ele e que outros títulos similares temos disponíveis.”

“Sabe aquelas horas em que a pessoa quer relaxar? Tipo quinta-feira 7h15 da noite, ou segunda 2h40 da manhã? É quando nosso assinante está cansado e só quer ter uma experiência agradável com a família ou os amigos. Pode ser um videogame, uma revista, um filme em pay-per-view ou em DVD, ou na Netflix. Queremos que nesses momentos ele escolha Netflix.” 

Para ler a íntegra do relatório da Netflix, em inglês, clique aqui.

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