O nascimento da ‘geração Lost’

Por Gustavo Miller e Filipe Serrano*
Em 6 de julho de 2004, a contadora Simone Miletic estava em casa, colada à TV. Naquela noite ia ao ar no Brasil o episódio final da série mais famosa da época: Friends. Fazia dois meses que o seriado tinha acabado nos EUA. No intervalo de 60 dias, ela se blindou contra spoilers. O Ross e a Rachel ficariam juntos? Ela não queria saber.
A blindagem não foi tão difícil, afinal só quem morava nos EUA viu antes o season finale. Não havia Twitter, nem troca de arquivos P2P, nem YouTube. A banda larga não era tão larga e as redes sociais não eram do tamanho do Facebook. “Foi fácil ficar sem notícias. Hoje você recebe spoiler mesmo sem querer”, ri.
Hoje, 6 de julho de 2009, a contadora Simone Miletic está em casa, colada ao notebook e com um iPhone na mão. Ela não vê mais seriados na TV por dois motivos: sua filha de 6 anos assiste a desenhos no televisor até às 21h e ela não tem mais paciência de esperar para ver no Brasil algo que foi ao ar na TV norte-americana há meses. “Todas as sextas-feiras eu baixo meus programas prediletos. As comédias eu passo para o iPhone e vejo na academia. Já os dramas policiais assisto quando quero no computador.”
Há 5 anos, ela era parte da geração Friends; agora integra a geração Lost. São duas maneiras distintas de ver TV. Antes era algo passivo, o telespectador era refém da programação. O controle remoto só permitia mudar de canal e escolher o que assistir naquele exato momento. Hoje, o hábito tornou-se ativo. O mouse dá ao internauta a escolha do que ver na hora que melhor lhe convém.
Lost puxa essa nova geração. Se nas quatro primeiras temporadas da série ficou notório que os fãs assistiam a um novo episódio da trama apenas quatro horas depois de ele ser exibido nos EUA (com legendas em português feitas pelos internautas, diga-se), este ano marcou a força do live streaming: americanos retransmitiam a atração pela internet e o mundo inteiro pode vê-la ao mesmo tempo.
A relação da TV com os espectadores muda sempre que a tecnologia avança. Lost foi pioneiro ao perceber que as pessoas queriam interagir com a história. Por isso criou sites, blogs, podcasts e até games de realidade alternativa (ARGs) para que ele não fosse um mero show de TV – e sim um universo.
Aos poucos, a TV brasileira se mostra (muito) disposta a conversar com a geração Lost. O Twitter está presente em programas jornalísticos e de entretenimento. Internautas são instigados a mandar vídeos, de videocassetadas a protestos (a ESPN Brasil publica até gols feitos em videogames). Emissoras lançam portais em que liberam grande parte daquilo que é exibido na televisão aberta e fechada. Já dá até para assistir a um ou outro evento ao vivo pela tela do computador.
As maneiras ilegais de assistir televisão ainda predominam. Mas alternativas oficiais começam a aparecer. A TV do século 21 – que não precisa necessariamente passar por downloads ilegais e não exige conhecimento técnico – já tem seus adeptos. Os serviços legais ainda são menos ágeis do que a massa de colaboradores que disponibiliza os downloads ilegais. De qualquer maneira, é certo que caberá ao novo telespectador decidir como será a televisão daqui para frente.
*Publicado no Caderno Link, do Estadão, em 06/07/09.

Por Gustavo Miller e Filipe Serrano*

Em 6 de julho de 2004, a contadora Simone Miletic estava em casa, colada à TV. Naquela noite ia ao ar no Brasil o episódio final da série mais famosa da época: Friends. Fazia dois meses que o seriado tinha acabado nos EUA. No intervalo de 60 dias, ela se blindou contra spoilers. O Ross e a Rachel ficariam juntos? Ela não queria saber.

A blindagem não foi tão difícil, afinal só quem morava nos EUA viu antes o season finale. Não havia Twitter, nem troca de arquivos P2P, nem YouTube. A banda larga não era tão larga e as redes sociais não eram do tamanho do Facebook. “Foi fácil ficar sem notícias. Hoje você recebe spoiler mesmo sem querer”, ri.

Hoje, 6 de julho de 2009, a contadora Simone Miletic está em casa, colada ao notebook e com um iPhone na mão. Ela não vê mais seriados na TV por dois motivos: sua filha de 6 anos assiste a desenhos no televisor até às 21h e ela não tem mais paciência de esperar para ver no Brasil algo que foi ao ar na TV norte-americana há meses. “Todas as sextas-feiras eu baixo meus programas prediletos. As comédias eu passo para o iPhone e vejo na academia. Já os dramas policiais assisto quando quero no computador.”

Há 5 anos, ela era parte da geração Friends; agora integra a geração Lost. São duas maneiras distintas de ver TV. Antes era algo passivo, o telespectador era refém da programação. O controle remoto só permitia mudar de canal e escolher o que assistir naquele exato momento. Hoje, o hábito tornou-se ativo. O mouse dá ao internauta a escolha do que ver na hora que melhor lhe convém.

Lost puxa essa nova geração. Se nas quatro primeiras temporadas da série ficou notório que os fãs assistiam a um novo episódio da trama apenas quatro horas depois de ele ser exibido nos EUA (com legendas em português feitas pelos internautas, diga-se), este ano marcou a força do live streaming: americanos retransmitiam a atração pela internet e o mundo inteiro pode vê-la ao mesmo tempo.

A relação da TV com os espectadores muda sempre que a tecnologia avança. Lost foi pioneiro ao perceber que as pessoas queriam interagir com a história. Por isso criou sites, blogs, podcasts e até games de realidade alternativa (ARGs) para que ele não fosse um mero show de TV – e sim um universo.

Aos poucos, a TV brasileira se mostra (muito) disposta a conversar com a geração Lost. O Twitter está presente em programas jornalísticos e de entretenimento. Internautas são instigados a mandar vídeos, de videocassetadas a protestos (a ESPN Brasil publica até gols feitos em videogames). Emissoras lançam portais em que liberam grande parte daquilo que é exibido na televisão aberta e fechada. Já dá até para assistir a um ou outro evento ao vivo pela tela do computador.

As maneiras ilegais de assistir televisão ainda predominam. Mas alternativas oficiais começam a aparecer. A TV do século 21 – que não precisa necessariamente passar por downloads ilegais e não exige conhecimento técnico – já tem seus adeptos. Os serviços legais ainda são menos ágeis do que a massa de colaboradores que disponibiliza os downloads ilegais. De qualquer maneira, é certo que caberá ao novo telespectador decidir como será a televisão daqui para frente.

*Publicado no Caderno Link, do Estadão, em 06/07/09.

Deixe uma resposta