Quando todo mundo é testemunha, para quê serve o jornalista?

Por Mark Little*

Pensei muito sobre um dos meus heróis jornalísticos na semana passada. Na verdade, penso em Ernie Pyle toda vez que preciso reconquistar a confiança no Jornalismo. Seus relatos na cobertura da 2a. Guerra são lições de humildade e humanidade. Pyle entendeu a sua responsabilidade como testemunha. Não escrevia apenas palavras, sintetizava imagens que tornavam o sofrimento algo íntimo para uma plateia distante. O leitor não estava lá, mas Ernie o fazia sentir como se estivesse.

“Era um lindo dia para caminhar pela praia”, escreveu ele um dia depois da invasão da Normandia. “Homens estavam dormindo na areia, alguns deles dormindo para sempre.”

Pyle notou águas-vivas flutuando entre os corpos no mar. “Cada uma delas tinha no centro um desenho verde, exatamente como um trevo de quatro folhas. Símbolo da boa sorte. Claro. Que diabo, sim.”

Fico me perguntando o que Ernie Pyle faria hoje com Twitter e Reddit. O que ele pensaria de um mundo onde cada pessoa é uma testemunha ocular, onde repórteres não controlam mais o primeiro rascunho da reportagem? Como ele veria os eventos de Boston e a cruel série de julgamentos instantâneos, na primeira pessoa, que os definiram?

Segui a tragédia de Boston apenas pelo prisma das redes sociais. Fiquei particularmente impressionado com uma série de vídeos amadores selecionados pelo site Storyful para a página Spotlight, do YouTube. Me espantou o indescritível intimismo desses vídeos. Tinham uma qualidade visceral que falta naqueles que são editados e narrados pelos jornalistas de televisão.

Uma câmera GoPro presa na testa de um maratonista grava os momentos tensos na Boylston Street e o ruído da primeira bomba. A reação assustada de uma mulher saindo de uma loja da Walgreen (“Alguma coisa explodiu”) é interrompida bruscamente pelo som da segunda bomba. Um vídeo-jornalista deixa sua câmera rodar em meio aos destroços na linha de largada, seu desespero é audível e o sangue, visível.

Como ex-correspondente internacional, vi a guerra e a tragédia bem de perto. Sei como é difícil comunicar imagens chocantes a um público distante sem diminuir a realidade que você está tentando descrever (por isso admiro tanto Pyle). E, no entanto, do ponto de vista das mídias sociais, parece que não havia necessidade de uma terceira pessoa para mediar. No mundo da primeira-pessoa que são YouTube e Twitter, cabe a nós decidir o que significam imagens como essas.

Esse conceito traz medo aos corações daqueles que acreditam existir um valor eterno no jornalismo. Mesmo aqueles de nós que aprenderam a dominar as ferramentas da era social sentem uma profunda ambiguidade sobre aonde tudo isso está nos levando.

Na noite das explosões de Boston, minha linha do tempo no Twitter ficou cheia dos gritos ambivalentes daqueles que viam perigo e oportunidade ao mesmo tempo. Nas palavras de um tuiteiro: “O dia de hoje me faz lembrar como o Twitter se tornou uma das melhores ferramentas, e também uma das maiores ameaças ao verdadeiro jornalismo.”

Compartilho desse sentimento. Mas também me desespero diante do fracasso dos guardiães do “Verdadeiro Jornalismo”, que não conseguem produzir uma resposta coerente a essa contradição. Talvez o problema seja que muitos jornalistas ainda acreditam serem os ‘donos’ das notícias urgentes.

Tantos fracassos nessa semana foram provocados pela mentalidade do ‘furo’, uma perigosa relíquia do passado. Nem precisamos ir muito longe. Basta procurar o New York Post, com sua informação de que foram 12 os mortos (completamente sem base nos fatos), e a ‘barriga’ da CNN, que colocou no ar uma reportagem falsa sobre a prisão de um suspeito. As falsidades mais perigosas sobre a tragédia de Boston ganharam repercussão porque levavam a assinatura de grandes organizações de mídia lutando por vantagens competitivas. Claramente, as redes sociais foram a fonte para algumas das reportagens mais vergonhosas da semana – sendo o pior exemplo as ameaçadoras fotos divulgadas pelo Reddit, de ‘suspeitos’ de pele escura ou mochilas nas costas.

No entanto, o acalorado debate sobre Boston e as mídias sociais parece ter deixado de lado o ponto mais importante. A maior ameaça ao ‘Verdadeiro Jornalismo’ não está nas redes, mas num ultrapassado conceito de notícia urgente. O usuário anônimo do Twitter apontando apressadamente um suspeito ou o repórter de TV citando fontes não identificadas são pedaços da mesma roupa. Trata-se do jornalismo “primeiro eu”, impulsionado pela vaidade e pela autoimportância.

Debates inuteis sobre a ‘velha’ e a ‘nova’ mídia sugam nossa energia quando mais precisamos dela. Em vez disso, ouçam as vozes da inovação que marcaram presença na semana passada. O que mais me chamou a atenção no Twitter na noite das bombas foi o nível de decibels dos checadores. Como observou Dan Gilmour: “Depois da violência em Boston, foi a primeira vez, que eu me lembre, em que vi uma reação impensada que resultou em algo gratificante: muita cautela, inclusive por parte de pessoas da mídia, na espera por fatos reais em lugar de julgamentos precipitados.”

Não se trata de autoflagelo ou arrogância em relação ao julgamento instantâneo que define a mídia social. Eles também são repórteres profissionais nativos da internet. Seu papel, num caso como esse, não é “possuir” a notícia, mas administrar uma abundância de dados e conteúdos, sendo a maior parte mais oportuna e autêntica do que qualquer coisa que eles pudessem criar por si próprios.

O jornalismo social comemora a noção de autenticidade mais do que velocidade, colaboração mais do que competição. O maior rival de um repórter hoje não é outro repórter, mas a chocante intimidade dos testemunhos e imagens online. Temos que fazer as pazes com isso.

O ‘Verdadeiro Jornalismo’ nunca foi tão valioso. Ainda precisamos de gente como Ernie Pyle, dedicando seu tempo para encontrar o detalhe definidor. Mas também precisamos de uma nova categoria de repórter, responsável por encontrar sinais escondidos em meio aos ruídos. Precisamos desesperadamente de profissionais treinados, que consigam transformar unidades isoladas de conteúdo social em histórias atraentes, que possam moldar a narrativa emergente a partir da cacofonia de conversas que flutuam em meio às redes sociais.

Eis como Jason Fry, do site Poynter, analisou a questão esta semana: “Além de ter os pés no chão, as organizações jornalísticas também precisam ter os olhos no céu – alguém encarregado de coletar informações, decidir o que tem credibilidade ou não, e apresentá-las aos leitores.”

Para praticar o ‘Verdadeiro Jornalismo’ nessa nova era, precisamos de humildade. É preciso entender que não temos mais o monopólio das palavras nem das imagens que definem uma história como a de Boston. Quando todo mundo é uma testemunha em tempo real, acreditar nisso é a postura mais idiota.

Mas também precisamos ter orgulho de nossa profissão e clareza sobre o seu inestimável valor. Ernie Pyle entenderia isso. Claro. Que diabo, sim.

Texto publicado no site Storyful.com; leia o original aqui.

Um comentario para “Quando todo mundo é testemunha, para quê serve o jornalista?”

  1. […] Correto? Inevitável? Como lembrou bem o experiente jornalista Mark Little, no site Story.com (leiam aqui o texto em português), as imagens terríveis que alguém capta (e leva ao ar, via YouTube) ao testemunhar uma tragédia […]

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