Contrabando: quem quer correr o risco?

Por Osvaldo Brito

Volta e meia a imprensa divulga casos de apreensões de produtos contrabandeados aqui e ali. E, invariavelmente, os aparelhos eletrônicos destacam-se na paisagem. Nos últimos meses, a importação ilegal – antes restrita a algumas marcas – passou a englobar até mesmo grifes do mercado, incluindo produtos de padrão high-end. Um problema sério, que as autoridades tentam, mas não conseguem eliminar.

        “Já desisti de brigar contra isso”, diz um lojista especializado que – por motivos óbvios – não quer se identificar. “Tenho concorrentes que só trabalham com produtos contrabandeados e ganham muito mais dinheiro do que eu. É o preço que se paga por querer trabalhar seriamente. Mas qualquer dia desses eles podem ser pegos”.

        A queixa não é isolada. Vários revendedores que procuram se credenciar junto a fabricantes e distribuidores oficiais enfrentam o mesmo tipo de situação. Os principais distribuidores (Disac, Som Maior, Syncrotape, Suonare e Tecsul) mantêm a política de prestigiar suas revendas mais fiéis – algumas, inclusive, dando exclusividade a determinadas marcas. Mas, entre os fabricantes, o relacionamento é mais complicado. Com exceção da Philips, nenhuma das grandes empresas do mercado oferece atendimento diferenciado aos lojistas especializados, o que acaba resultando em atritos e, pior, falta de produtos.

        Num encontro promovido em julho último pela revista HOME THEATER&CASA DIGITAL, a Sony indicou um de seus gerentes para atender um grupo de revendedores, que participaram do 4o. Digital Home Workshop, em São Paulo. Alguns deles até se exaltaram. Itagiba Souza, que atua na área de marketing da empresa, prometeu empenho para criar novos canais de comunicação com o setor, que se sente desprestigiado diante da maior atenção dada às grandes redes de varejo.

        O problema é antigo. Para os fabricantes, o maior faturamento vem justamente das redes, como Casas Bahia, Ponto Frio e FastShop, entre outras. Um consultor do varejo calcula que hoje as redes respondem por mais de 60% das vendas de eletrônicos. Some-se a isso a importância crescente da internet, onde lojas virtuais como Submarino e Americanas movimentam altos volumes. Nesse quadro, a tendência natural dos fabricantes é ignorar os lojistas especializados, que proporcionalmente compram bem menos.

        “É um erro”, diz um desses lojistas. “Somos formadores de opinião e oferecemos ao usuário final um tipo de atendimento que as redes não têm como proporcionar. Deveríamos ser mais bem tratados”. 

Como evitar o perigo:

· Evite comprar marcas desconhecidas ou sem maiores referências.

· Ao receber uma oferta com preço muito baixo, desconfie. Faça uma pesquisa sobre a idoneidade da loja e a procedência do produto.

· Antes de comprar numa loja, verifique se é credenciada de um ou mais distribuidores oficiais. Em caso de dúvida, telefone para a empresa.

· Ao comprar um aparelho, verifique o número de série. Este não deve ter marcas nem rasuras. Na dúvida, melhor anotar o número e checar com o fabricante ou distribuidor oficial.

· Caso encontre um produto contrabandeado, ligue para o distribuidor e denuncie; muitos lojistas já foram descredenciados por esse motivo, e alguns foram até presos (pela lei brasileira, quem compra um produto ilegal é conivente com o crime).

· Cuidado com as compras pela internet: certifique-se de que o vendedor existe de verdade e é capaz de entregar o que promete.

· Exija sempre a documentação do aparelho: nota fiscal, garantia por escrito (com timbre do fabricante ou distribuidor) e manual de instruções em português.


        O fato é que esses desentendimentos acabam levando, entre outras coisas, à tentação de vender produtos adquiridos informalmente. As grandes marcas são justamente as mais visadas. E quando o aparelho não é adquirido diretamente do fabricante, ou de um distribuidor oficial, o lojista pode até oferecer preço mais baixo, mas não tem como dar garantia. Quando o usuário enfrenta problemas com seu aparelho, acaba não tendo a quem recorrer.

        Os distribuidores, que não vendem volumes tão altos quanto os fabricantes, trabalham de modo diferente. Possuem representantes nas principais praças, promovem eventos e treinamentos regulares para os lojistas especializados e dirigem toda a sua comunicação a esse setor. Além disso, quase todos têm flexibilidade de crédito e concedem benefícios baseados na fidelidade da loja a suas marcas. Também possuem sites atualizados, onde o consumidor pode checar a procedência dos equipamentos, a seriedade da marca e – em alguns casos – até uma lista de revendas autorizadas onde é mais seguro comprar.

        Pode parecer pouco, mas esses detalhes fazem uma bela diferença. Na hora de comprar um aparelho, principalmente de alto valor, garantia e suporte técnico são fatores decisivos. Não são poucos os relatos de revendas que, diante de uma falha técnica, simplesmente vão à casa do cliente e trocam o produto, enquanto providenciam o conserto do original. Algo que dificilmente irá acontecer no caso de uma rede de varejo.

        Outra vantagem do lojista especializado é o relacionamento que mantém com os fabricantes, através dos distribuidores oficiais. Como se sabe, home theater não é apenas um aparelho que se liga na tomada e pronto. Este é um setor em que a prestação de serviço é crucial: quase todo revendedor especializado mantém equipes de instalação, treinadas para dar todo suporte ao usuário em sua casa.

        Geralmente empresas pequenas ou micro, com pouco capital de giro, as revendas especializadas fazem um trabalho que, em outros países, é reconhecido como fundamental para a orientação do consumidor. Tudo isso, é claro, tem seu custo. Boa parte dos problemas surge quando o usuário não quer pagar por esse serviço, argumentando que já está pagando (caro) pelos equipamentos. “Os profissionais brasileiros têm que aprender a cobrar por seu trabalho altamente especializado”, recomenda Utz Baldwin, presidente da CEDIA, principal entidade internacional do setor.

        Em vez disso, muitos lojistas preferem a via mais fácil: baixar seus preços, reduzindo as margens de lucro e colocando em risco seu negócio. Os que agem assim invariavelmente acabam tendo que recorrer a contrabandistas, que conseguem vender mais barato porque não pagam impostos, não têm custo fixo e não oferecem qualquer garantia. O consumidor que compra equipamentos dessas lojas cai então numa armadilha fatal: acha que está fazendo um grande negócio, quando na verdade está sendo enganado.

* Texto publicado originalmente na Revista HOME THEATER & CASA DIGITAL em 22/10/08.

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