O maior concorrente do Netflix não é o sono – é o YouTube

 Por Manish Singh*

 

         Todo dia em Nova Déli, capital da Índia, centenas de milhares de pessoas pegam o metrô cruzando subúrbios amontoados para chegar ao trabalho. Quando o trem chega a uma estação, um monte de pessoas se empurram para encontrar um assento; segundos depois, voltam suas atenções para as telas de seus celulares e continuam a assistir o vídeo de comédia que estavam vendo no YouTube.

         A mais de 12.000km dali, executivos da Netflix estão bolando estratégias para atender seu público. No começo deste ano, o CEO Reed Hastings, que identificou o sono como seu maior concorrente, notou que os próximos 100 milhões de assinantes estão na Índia. Provavelmente estão, mas o YouTube não dorme e já se apossou deles.

         Mesmo investindo bilhões de dólares em conteúdo original, Netflix e Amazon estão com dificuldades para entrar em mercados como esse. Já o YouTube está crescendo rápido e virando um hábito diário até para os novos usuários da internet.

 

A PEGADA DO YOUTUBE 

         Na Índia, o YouTube chega a 245 milhões de usuários únicos a cada mês, ou 85% de todos os usuários, segundo o site VentureBeat. E apenas 40% de todo o tráfego do YouTube vem das seis maiores cidades no país.

         Na Indonésia, são 74 milhões de usuários a cada mês, um aumento de 50% de um ano para outro. Na Tailândia, são 92% dos usuários rurais e 93% dos residentes urbanos. “Acho que umas das maiores razões do sucesso do YouTube nos mercados emergentes é que ele é mais focado em aparelhos móveis”, analisa Michael Goodman, diretor da Television & Media Strategies, consultoria de mercado. “Vídeos atraem mais as pessoas com celulares do que vídeos longos”.  

         Com o consumo crescente, os criadores também descobrem públicos interessantes. Só na Índia o YouTube tem mais de 600 canais com mais de 1 milhão de inscritos, e eram apenas 20 em 2016. Globalmente, o YouTube diz que o número de canais com mais de 1 milhão de inscritos cresceu 75% este ano.

         Para manter crescimento e alcance global, o Google faz acordos com provedores de internet para darem prioridade ao tráfego do YouTube. Como parte do contrato, várias operadoras de telecom e banda larga não contam o consumo dos usuários em seus planos de dados. Além disso, o YouTube também se beneficia com os vários aplicativos que o chip pré-instala na maioria dos aparelhos Android.

 

ALCANCE MASSIVO

         É claro que o YouTube, logado por 1.9 bilhão de usuários a cada mês, não se limita aos mercados em desenvolvimento. De todos os usuários que assistem a qualquer serviço de streaming nos EUA, 96.1% consomem o YouTube e 73.8% vêem Netflix. A empresa informou ao VentureBeat que 75% do tempo assistido nas plataformas é num aparelho movel.

         Normalmente, essas pessoas vêem vídeos no celular em média 60 minutos por dia, ou seja, este é o tempo que elas poderiam estar assistindo filmes ou séries no Netflix. A empresa não revela seus números, mas estimativas da consultoria eMarketer indicam que um usuário médio gastou no ano passado 86 minutos por dia assistindo a vídeos online.

         Algumas medidas recentes do YouTube podem melhorar ainda mais sua base de usuários e consumo. Em novembro último, o site começou a adicionar filmes de Hollywood.

         Mas talvez a maior vantagem do YouTube sobre a Netflix é a vastidão de seu catálogo e a varidade de conteúdos gratuitos, sejam protestos numa cidade, cobertura de eventos do governo ou talk-shows diários. A plataforma cumpre diversas necessidades.

         Goodman comenta que, mesmo com os concorrentes investindo para produzir programas originais e exibir filmes licenciados pelos estúdios, isso representa apenas uma pequena parcela da biblioteca do YouTube. “A quantidade de conteúdos e filmes vistos é apenas uma gota num balde comparada com o que é consumido no YouTube”, ele disse. Em outras palavras, a Netflix e a Amazon e outros 100 serviços de OTT não estão lutando contra uma entidade no YouTube, mas sim contra milhões de criadores de conteúdo.

         Ainda que a Netflix não coloque o YouTube como uma ameaça, é evidente que ela sabe. Se você frequenta o YouTube, com certeza já encontrou propagandas da Netflix lá. Esta também conta com o YouTube para ajudá-la a encontrar novas audiências. Quer um exemplo? A nova série semanal Patriotic Act with Hasan Minhaj, da Netflix. No YouTube, já é possível assistir todos os episódios de graça.

 

*Artigo publicado no site VentureBeat. Clique aqui para ler o original na íntegra.

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