No mundo dos privilégios

2 de setembro de 2015

Como já se sabia, a crise econômica pegou forte no segmento de aparelhos eletrônicos. A disparada do dólar e a queda no varejo colocam as empresas em alerta e ameaçam toda a cadeia produtiva ligada ao setor. Necessitando terrivelmente cortar seus gastos, o governo decidiu acabar com a desoneração seletiva, política adotada nos últimos anos que reduziu impostos sobre alguns produtos. Caso clássico, e muito comentado na época, foi o de tablets, celulares e notebooks, que ganharam fortes incentivos. Não por acaso, o país bateu recordes nas vendas desses produtos entre 2012 e 2014.

Corta agora para a realidade de 2015. E para a reação quase automática de alguns empresários nessas horas: pedir proteção ao governo. Em nota oficial, a Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica Eletrônica) ataca duramente a decisão de retirar a isenção de 9,25% no PIS/Cofins para esses itens. A chamada “Lei do Bem”, criada ainda no governo Lula, premia as empresas que produzem os aparelhos no Brasil; ao retirá-la, claro, incentiva-se o contrabando (a importação oficial também fica prejudicada pela cotação do dólar).

Coisas de um país em crise. No texto, a Abinee apela para o Congresso, que poderá derrubar a decisão, usando argumentos como “inclusão digital” e “condenar o país ao atraso”. Como tantos outros segmentos da economia, o de eletrônicos é atingido pela tentativa do governo de corrigir, aos trancos, os erros da política econômica que vêm sendo cometidos pelo menos desde 2008, e contra os quais raros foram os empresários que se manifestaram. Foi um tempo de privilégios estendidos aos amigos do poder, alguns deles (só alguns) hoje presos pela Operação Lava Jato. Tempo que espera-se tenha passado.

Ilustro o raciocínio com uma frase que ouvi de José Félix, presidente da América Móvil, dona das operadoras Net, Embratel e Claro (vale lembrar que esse setor também está criticando o governo pelo ajuste fiscal mal ajambrado). “Querem que a gente venda TV por assinatura a famílias que mal conseguem sobreviver. Deveriam se preocupar em dar educação, saúde e saneamento a essas pessoas.”

Em tempo: Félix, que se saiba, não pediu nenhum privilégio ao governo.

 

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