Fake news, aqui e acolá

4 de abril de 2018

A questão da disseminação de notícias falsas está na ordem do dia. Ninguém ainda inventou uma forma eficiente de combatê-las, do ponto de vista técnico. E se nós, brasileiros, estamos naturalmente preocupados com o impacto das fake news na campanha eleitoral que está começando, é interessante acompanhar o que acontece em outros países. Os EUA, por exemplo. Na semana passada, anunciou-se que o grupo Sinclair Broadcast adquiriu, por US$ 3,9 bilhões, a Tribune Media, dona de 42 emissoras de TV regionais. Com isso, o Sinclair passa a somar 235 estações, tornando-se simplesmente a maior rede do país (o negócio ainda depende de aprovação pela FCC, a Anatel deles).

Um estudo do Pew Research Center, especializado em pesquisas de mídia, revelou no ano passado que 37% das famílias americanas se informam através exatamente das estações locais, que geralmente atendem cidades abaixo de 100 mil habitantes, ou micro-regiões com várias cidades pequenas. Para comparação, o mesmo estudo conta que 45% dos americanos dizem usar o Facebook como sua fonte principal de informação; 33% recorrem a sites e aplicativos de jornais conhecidos (a chamada “grande mídia”), enquanto 28% buscam os canais de notícias da TV paga e 26% mantêm o hábito da TV aberta.

Ou seja, o Sinclair está na linha de frente do telejornalismo por lá, atingindo cerca de 40% do público – aliás, o máximo permitido pela legislação a cada grupo de mídia. E esse é um dos motivos apontados para a vitória de Donald Trump em 2016, já que o grupo apoiou desde sempre as propostas do candidato. Até aí, nada a questionar, num regime democrático. Só que, agora, com as reações generalizadas a Trump, os telespectadores da rede Sinclair estão assistindo a um show de fake news.

Diz o site vox.com – que pelos critérios trumpianos é tão esquerdista quanto a CNN e a NBC – que a Sinclair obriga todas as suas afiliadas a repetirem mensagens acusando os “desvios” da mídia. O motivo seria que grandes jornais e redes de TV estão espalhando fake news sobre o caso de Trump com uma estrela pornô; esta montagem em vídeo, denunciando as pressões sobre as emissoras do grupo, viralizou na semana passada. “A grande mídia perdeu totalmente sua credibilidade”, acusa David Smith, presidente da Sinclair.

Bem, a empresa não pode ser considerada um primor nesse aspecto. Em dezembro último, foi multada em US$ 13 milhões pela FCC por ter levado ao ar nada menos do que 1.700 promos, que são filmes publicitários disfarçados de material jornalístico (sem avisar os distintos telespectadores). Será que falta muito para vermos uma briga como essa por aqui?

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