O que a guerra EUA x China tem a ver com tecnologia

1 de dezembro de 2018

Já não se fazem mais guerras como antigamente. Embora muitos fatalistas antecipem que haverá uma Terceira Guerra Mundial qualquer dia destes, a guerra verdadeira já está acontecendo – e não tem muito a ver com armas de fogo. Para desespero de muitas empresas americanas, o governo Trump decretou uma guerra comercial à China, que vem a ser justamente o seu maior parceiro de negócios. Uma decisão polêmica, que deve afetar não apenas os dois países mas, claro, toda a economia do planeta. 

É inescapável a analogia com os tempos da Guerra Fria, que logo após a Segunda Guerra colocou em lados opostos as duas maiores potências militares, EUA e União Soviética. Naqueles anos, quase todas as nações se viram diante do dilema de escolher um dos lados para apoiar. Quem se alinhava com os EUA (capitalista) era visto como adversário da URSS (comunista). E os amigos desta só poderiam ser inimigos dos “ianques”, termo que, aliás, com o tempo se tornou pejorativo.

A dicotomia ajudou a fortalecer a indústria bélica, com o financiamento de guerras ao redor do mundo. Coréia, Vietnam, América Central, Afeganistão, incontáveis regiões da África e da Ásia (sem falar no eterno conflito do Oriente Médio) registraram uma quantidade de vítimas que, embora não haja estatísticas oficiais, talvez tenha superado os mortos da própria Segunda Guerra. 

Só que o mundo evolui. Como dizem os pesquisadores Steven Levitsky e Daniel Ziblatt no brilhante livro Por Que as Democracias Morrem, os custos envolvidos numa operação de guerra hoje são tão altos que desestimulam ditadores, e aloprados em geral, a tomar a iniciativa. Sai mais barato, e é menos escandaloso, financiar guerras comerciais, o que agora pode ser feito com a preciosa ajuda da tecnologia.

Ouso afirmar que é apenas devido a seu fantástico avanço tecnológico que os EUA continuam sendo o país mais poderoso do mundo. Isso fica claro, mais uma vez, ao ler uma extensa reportagem multimídia publicada pelo site do New York Times (vejam aqui, em inglês) sobre o fenômeno que é a China pós Mao Tsé Tung. Para refrescar a memória, durante os anos Mao (1949-1976) o país manteve-se totalmente isolado, mais até do que hoje vemos a Coréia do Norte, só para citar um exemplo. Com a morte de Mao, assumiu o poder um ex-assessor, Deng Xiao Ping, que implantou uma política de abertura econômica e modernização, cujos resultados são conhecidos de todos.

O NYT enviou uma equipe de jornalistas para percorrer a China durante dois meses, visitando várias regiões e entrevistando tanto especialistas quanto pessoas comuns. O trabalho é útil para entender melhor aquela que pode ser considerada a maior revolução econômica protagonizada por uma nação em toda a história, num espaço de tempo inacreditavelmente curto (40 anos).

A reportagem se divide em três grandes partes: “O Mundo Construído pela China”, sobre as mudanças no relacionamento com outros países; “Como a China Está Reescrevendo seu Próprio Roteiro”, sobre as reformas internas sociais e econômicas; e “Como a China Tomou Conta da sua TV”, tratando especificamente da questão tecnológica. Traduzo aqui alguns trechos, mas super recomendo a visita ao link acima para acompanhar os gráficos e imagens que, em alguns casos, valem sim muito mais do que milhões de palavras.

“Não se trata apenas de ter mais poder. Tem a ver com segurança nacional e auto-suficiência. A China quer construir empresas campeãs feitas em casa, inclusive em setores de ponta que enfrentem gigantes ocidentais como Apple e Qualcomm. Embora tenha um longo caminho pela frente, o Partido Comunista está utilizando para isso todo o peso financeiro do Estado e forçando outras nações a ficar na defensiva.

“Com essa atitude, a China está forjando um novo modelo industrial. Os livros de Economia costumam desenhar uma trajetória comum das nações desenvolvidas. Primeiro, elas produzem sapatos, depois aço. Em seguida, passam a fabricar carros, computadores e celulares. Mais tarde, as economias mais avançadas entram nas áreas de automação e semicondutores. Conforme ascendem na escala industrial, abandonam alguns itens mais baratos ao longo do caminho.

“Foi isso que fizeram os Estados Unidos, o Japão e a Coréia do Sul. Mas a China contradiz a história econômica ao tentar fazer tudo ao mesmo tempo. Basta observar a evolução dos produtos que o país vem exportando. Quando acelerou sua máquina industrial em 2000, o país era bom em itens como brinquedos e guarda-chuvas. Em 2016, já tinha evoluído para itens mais caros, como celulares e computadores, ao mesmo tempo em que continuava a produzir bugigangas, só que em quantidades maiores.

“A próxima fase, que inclui os produtos mais caros do mundo, será mais difícil. A China não é capaz de produzir chips tão minúsculos, e num ritmo tão veloz, quanto os EUA. Seus carros são na maioria vendidos no mercado interno. Sua capacidade de manufatura se baseia no uso de engenharia e expertise ocidentais.

“Tanto o iPhone da Apple quanto o Mate 10 da Huawei são montados em fábricas chinesas. Ambos dependem de componentes trazidos de fora. A peça mais cara e complexa do Mate 10 – sua placa-mãe – tem processador chinês, mas este é feito com chips importados dos EUA, Coréia do Sul e Japão. Essa placa, com 2.8 polegadas, responde por 52% do custo do aparelho.

“A menos que consiga se adaptar rapidamente, a China continuará vulnerável nesse ponto. Uma das maiores empresas chinesas de telecom, a ZTE, quase fechou quando foi proibida pelo governo americano de importar peças dos EUA. O Presidente Xi Jinping teve que pedir pessoalmente uma autorização especial a Trump. 

“A China sabe que tem um problema. Está investindo pesadamente em carros elétricos, semicondutores e tecnologias móveis, como parte de sua política industrial. E, na verdade, a guerra comercial serve até como um incentivo, como diz Liu Rui, professor de Economia na Universidade Renmin, em Pequim: “O efeito inicial da guerra comercial foi fazer a China parecer mais fraca. Mas é justamente essa posição que faz o país acordar, forçando-nos a uma mudança de atitude”.

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