Como será o futuro da TV por Assinatura?

Por Orlando Barrozo

A transmissão ao vivo de alguns shows do Rock in Rio, em setembro, pelo canal Multishow pode ser considerada um marco na evolução da televisão brasileira. Foi a primeira vez no mundo em que se conseguiu transportar áudio e vídeo de altíssima resolução a partir de um evento aberto para ser captado, em tempo real, via receptores de TV comuns.

Poucos acreditavam que desse certo. Todos os especialistas reconhecem as dificuldades de trafegar vídeo gravado em Ultra HD (3.840 x 2.160 pixels), um tipo de sinal que consome enormes pacotes de frequência. Mais ainda quando se sabe que os shows foram captados em áudio surround, depois codificado em Dolby Atmos, padrão de processamento que amplia significativamente a sensação de envolvimento, seja numa sala de cinema ou num ambiente doméstico.

A iniciativa foi da Globosat em parceria com a Dolby Labs, que atualmente busca convencer os fabricantes a embutir o software Atmos nos equipamentos de uso residencial – ao mesmo tempo em que procura atrair o segmento de cinemas digitais. Infelizmente, as operadoras de TV por assinatura ainda não estão devidamente equipadas para processar e distribuir vídeo 4K nem áudio Atmos. Por isso, poucos felizardos puderam assistir às transmissões experimentais do Rock in Rio com esse padrão de qualidade.

Grande passo

Detalhes sobre o esforço conjunto das duas empresas podem ser vistos aqui, mas o mais importante é que se deu mais um passo em direção ao futuro da televisão no domínio digital. Hoje, quando se fala em transmissão 4K, não se pensa tanto na TV aberta, que enfrenta uma série de obstáculos – inclusive do ponto de vista regulatório – para adotar essa tecnologia. Já para provedores de internet, o 4K é uma realidade cada vez mais palpável.

O primeiro contato dos brasileiros com os conteúdos 4K aconteceu durante aCopa de 2014: em parceria com várias operadoras, a Globosat (através do canal SporTV) colocou no ar imagens de três partidas com aquela resolução. Quem tinha em casa um TV 4K pôde assistir aos jogos com muito maior nitidez, incluindo detalhes dos rostos dos torcedores no alto das arquibancadas.

Em 2015, aproveitando a infraestrutura que montou para a Copa, a Globosat começou a produzir programas e séries com equipamento 4K. “Não temos dúvida de que essa é uma tendência”, disse André Nava, gerente de Novas Mídias da Globosat. “Cada vez mais as pessoas querem acessar conteúdos premium em suas telas. E nós temos produção ideal para ser visualizada em TVs de tela grande com a máxima resolução possível.”

Como as operadoras de TV por assinatura não podem (ainda) acompanhar essa inovação no mesmo ritmo, os produtores de conteúdo vivem um momento de“experimentar” a internet. A própria Globosat lançou uma versão 4K do aplicativo Globosat Play (vejam neste vídeo), e outras programadoras anunciam serviços semelhantes. A principal vantagem para quem já é assinante de alguma operadora, é que o acesso é gratuito.

TV vs streaming

Na prática, essa oferta responde à “ameaça” que representam os serviços de streaming em 4K. No Brasil, hoje, há somente dois: Netflix e YouTube podem ser acessados em determinados modelos de TV 4K (não todos), desde que o usuário possua uma conexão a partir de 30Mbps; menos do que isso, é quase certa a frustração com travamentos e interrupções no fluxo do sinal.

Mas parece ser questão de tempo. Segundo a consultoria britânica Futuresource, em maio de 2015 havia oito serviços internacionais focados na distribuição crescente de conteúdos 4K. “Já vemos sinais de que a indústria de televisão irá se unir de alguma forma a esses serviços”, diz Sarah Carroll, diretora da Futuresource. Segundo ela, todos estão acompanhando com interesse o aumento progressivo nas vendas de TVs 4K, que entre outros recursos oferecem acesso direto à internet. “Devem ter sido vendidos 11,6 milhões de TVs desse tipo em 2014”, estima Sarah. “Seria um aumento de 699% sobre o ano anterior”.

A pesquisa aponta que até 2018 a média mundial de vendas de TVs UHD estará na casa dos 100 milhões de aparelhos por ano. Em junho passado, aconteceu no Principado de Luxemburgo, localizado entre a França e a Alemanha, a primeira demonstração de TV 4K ao vivo utilizando o código HDR (High Dynamic Range). A façanha foi da operadora de satélites SES, hoje a maior da Europa, em parceria com a Samsung e a BBC.

Foi outro marco nessa evolução. HDR é padrão de processamento de vídeo para a distribuição de conteúdos em 4K, seja via televisão ou internet (Netflix e Amazon já o utilizam). Comparativamente ao sinal 4K convencional, a principal diferença está na amplitude do brilho: consegue-se captar pretos e brancos com maior profundidade, resultando em imagens mais contrastadas.

Para explorar esse maior detalhamento, é preciso que o TV ou projetor de vídeo possua também um decodificador HEVC (High-Efficiency Video Codec), que faz a descompressão do sinal. Além dessas duas especificações, os aparelhos sóconseguem reproduzir imagens 4K através da conexão HDMI em sua versão 2.0 (ou a mais recente, 2.0a) com frequência de 60 quadros por segundo (60P). Para prevenir cópias não autorizadas, os estúdios de Hollywood impuseram um código de proteção, o HDCP (High-Definition Copy Protection). Como a ação da piratariaé contínua, esse código vem sendo atualizado praticamente a cada ano – estamos na versão HDCP 2.2.

 

Qual será o padrão?

Ninguém duvida que as imagens 4K dominarão a paisagem do cinema e da televisão nos próximos anos. A questão é que, para que isso funcione na prática,é necessária uma padronização: os conteúdos devem ser produzidos sob determinadas normas, a ser obedecidas tanto pelos exibidores (nos equipamentos de cinema) quanto pelas emissoras e operadoras (ao entregarem a seus telespectadores e assinantes), assim como pelos serviços de internet. Players, TVs e projetores terão de ser fabricados segundo as mesmas normas.

Seja como for, o atrativo das imagens 4K – com suas telas de até 110 polegadas – é inegável. Veja aqui um guia de canais ativados em diversos países, todos ainda em caráter experimental e operando via satélite. Nos EUA, Netflix, Amazon, Hulu e outros serviços semelhantes estão aumentando a oferta de conteúdos 4K. É a “TV do futuro” chegando.

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