Jornalista: como virar celebridade

23 de setembro de 2013

JournalistAlguém de mau gosto já disse que os números, quando bem torturados, confessam qualquer coisa. Pois é, lembrei da frase ao ver, nos últimos dias, uma série de estatísticas sobre empresas de tecnologia. O novo iPhone teria vendido 9 milhões de unidades em apenas três dias, o videogame GTA faturou US$ 1 bi também em três dias. É mais ou menos como nos filmes de Hollywood: a produção custou US$ 200 milhões e faturou US$ 700 milhões. Uau! Como é que calcularam?

O fato de a mídia divulgar esses números assim, sem preocupação com sua veracidade, tem a ver com a superficialidade dos tempos atuais, em que as pessoas replicam como papagaio as informações que recebem, sem sequer pensar que podem ser manipuladas, ou mesmo mentirosas. Se isso é ruim quando se trata de uma conversa entre duas pessoas, mil vezes pior quando sai num jornal ou site, não? Divulgam-se, sem apurar, fatos, estatísticas, previsões, boatos e até declarações. Um velho adágio do jornalismo diz que a objetividade não existe. OK, só que poderiam, pelo menos, nos poupar de perder tempo com bobagens e, pior, mentiras.

Após 40 anos de jornalismo, uma das coisas que aprendi foi que toda notícia traz consigo o interesse (nem sempre claro) de alguém ou de alguma instituição. Da forma como são feitos jornais, revistas, sites e telejornais atualmente, com poucos repórteres (de verdade), muito sensacionalismo e “opinionismo”, recomenda-se ao leitor redobrar a atenção. Quase 100% do que se publica atende a alguma empresa, governante, sindicato, igreja, grupo de pressão, partido político, ou a vários desses segmentos em simultâneo. Sem falar nas facções que, até de modo legítimo, atuam dentro desses organismos. Checagem e apuração detalhada – que são, ou deveriam ser, tão importantes quanto a própria notícia em si – passam longe dessas publicações.

Sim, há muita leviandade nas redações, como de resto em todo lugar. Mas lembro bem que, quando comecei na profissão (e resisto aqui a usar o termo “antigamente”), a grande estrela das redações era o Repórter – assim mesmo com “R” maiúsculo. Convivi com alguns dos melhores. É uma espécie hoje em semi-extinção, em parte pelas necessidades financeiras dos grupos de mídia, mas também pelas facilidades da era digital. Nas redações atuais, as estrelas são os colunistas, promovidos ao status de celebridade, e os assessores de imprensa. Muitos jornalistas que poderiam estar trabalhando como repórteres (conheço alguns excelentes) foram ganhar a vida assessorando empresas, entidades e até políticos. E dali “criam” as notícias que a mídia irá publicar e repercutir.

Na época das grandes reportagens, lutávamos pelos “furos”, as informações exclusivas, obtidas depois de muita batalha nos bastidores. Só para citar um exemplo: na década de 70, o jornalista Caco Barcellos (hoje na TV Globo) trabalhou dois meses como operário na usina nuclear de Angra dos Reis para depois escrever uma brilhante reportagem sobre os perigos ali contidos. Foi a forma que encontrou para investigar, já que a entrada no local era proibida pelo governo militar. Antes da ousadia, porém, Caco muniu-se do máximo possível de informações sobre energia nuclear e sobre a usina. Com seu talento, produziu uma das mais memoráveis peças jornalísticas de todos os tempos.

Se fosse hoje, o “repórter” receberia um press-release da assessoria da Usina, talvez entrevistasse um ou dois diretores e até participasse de uma “visita guiada” às instalações. Se escrevesse sem cometer erros de português, provavelmente ganharia até um prêmio jornalístico, entre tantos que existem.

Pensem nos grandes feitos da imprensa nos últimos anos. O ex-presidente Collor só caiu porque brigou com seu irmão e este, por vingança, decidiu revelar a um jornalista as maracutaias que levaram a família ao poder. O escândalo do mensalão só foi descoberto porque um de seus principais integrantes, o ex-deputado Roberto Jefferson, se desentendeu com José Dirceu e quis se vingar contando tudo a uma jornalista. O recente caso Siemens ia muito bem camuflado até que alguém na empresa (ainda não está claro o motivo) vazou para um repórter detalhes dos trambiques envolvendo funcionários do governo paulista. Alguém que não gosta de Dilma Roussef repassou a um jornalista supostas distorções sobre sua formação universitária, que colocavam em dúvida seu currículo: virou manchete. Uma empresa que perde uma licitação entrega à imprensa documentos confidenciais, apenas para melar o processo, e o jornal publica.

E assim a imprensa vai se desmoralizando. Com as novas tecnologias, os copycats do jornalismo têm as portas abertas. Dá-se mais valor a quem copia um press-release, esconde um gravador no bolso ou instala uma câmera oculta num gabinete do que ao profissional que pesquisa determinado assunto, estuda, compara dados e opiniões, conversa com as pessoas certas e entrevista questionando (não simplesmente transcrevendo). Pelo visto, as teclas CTR+C valem mais do que o cérebro. E, com um pouco de sorte, podem transformar repórter em editor ou colunista, quem sabe até celebridade.

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