Quem topa defender bandidos?

29 de janeiro de 2016

“A democracia é um péssimo sistema político. Mas todos os outros são piores”, dizia Winston Churchill, líder político britânico durante a 2a. Guerra e um dos maiores frasistas de todos os tempos. Lembrei da frase ao ler, durante as férias, o artigo reproduzido abaixo, de autoria do cineasta José Padilha, autor de Tropa de Elite, Narcos e outros sucessos polêmicos. Saiu publicado na Folha de São Paulo em novembro e, como tantos outros, estava guardado aqui no meu computador.

Em mais uma semana repleta de denúncias de corrupção, é difícil fugir do tema. Já se passaram dez anos que o país vive essa tormenta, e pela primeira vez as pesquisas apontam que a maioria da população se preocupa. Parece que, finalmente, está percebendo a relação existente entre os desvios de dinheiro (que todo mundo sempre achou tão “normais, fazer o quê?”) e os problemas econômicos. Afinal, não é fácil perder o emprego, ou ter que cortar comida da mesa dos filhos, enquanto se assiste pela TV às barbaridades que esses políticos vêm cometendo.

Tenho amigos de diversas crenças políticas, e alguns se dizem “decepcionados” com o PT, que supostamente teria surgido para combater essas práticas (a propósito, leiam este outro artigo, do escritor Luiz Ruffato); outros amigos simplesmente fogem do assunto; e há aqueles, acreditem, que ainda se dispõem a defender os bandidos do PT, sob a alegação de que os bandidos dos outros partidos são piores. Lamento por todos!

E aí é que, a meu ver, entra José Padilha para lembrar que democracia não significa apenas voto. Não importa em quem você vota, ou votou. Democracia precisa ir muito além, tem que ser praticada no dia a dia. Sua importância deve ser ressaltada e repetida milhares de vezes, quantas forem necessárias, principalmente para jovens e crianças que nunca viveram sob uma ditadura, para que as pessoas a incorporem. Em tempo: esses infelizes que vão às ruas pedir a volta dos militares também não caberiam na definição de bandidos? Enfim, com a palavra o Padilha:

“A maioria das pessoas acredita que a democracia é a melhor forma de se escolher um governante. A maioria está errada, posto que alguns facínoras, como Hitler, foram eleitos democraticamente. A democracia não se justifica como um processo de escolha, mas sim como uma forma pacífica de se promover alternâncias no poder.

“Como observou o filósofo Karl Popper, onde não há democracia os maus governantes ficam no trono até serem afastados de forma violenta, a um enorme custo social. Assim, a democracia é fundamental.

“Além disso, a democracia incorpora a metodologia da ciência à atividade política. Nos países com partidos de ideologias claras, a população pode avaliar os resultados práticos das políticas públicas e votar ou não pela permanência desta ou daquela ideologia no poder. A repetição desse processo tende a selecionar a forma de governo mais adequada para determinada sociedade.

“Em suma, a democracia confere vantagens competitivas significativas para quem sabe aplicá-la, e não é à toa que as sociedades mais desenvolvidas têm aparatos legais destinados a preservar seu bom funcionamento. Monopólios, oligopólios e leis inadequadas para o financiamento de campanhas desvirtuam o processo democrático. Concentração de mídia e riqueza promove distorções nas campanhas eleitorais.

“A corrupção é especialmente danosa. Nos países em que grupos políticos hegemônicos a praticam de forma sistêmica, cria-se um círculo vicioso. O sucesso eleitoral garante o vilipêndio dos recursos públicos e o vilipêndio dos recursos públicos garante o sucesso eleitoral.

“Nesses países ocorrem dois fenômenos. Em primeiro lugar, há pouca alternância de poder. Em segundo, as alternâncias acontecem depois de crises econômicas agudas, quando o estrago da corrupção chega a tal ponto que nem as vantagens conferidas por ela garantem mais as próximas eleições.

“O custo social e institucional desse processo é elevado. Político que rouba para financiar campanha comete crime ainda mais grave do que o político que embolsa “pixuleco”. Fraude à democracia não é atenuante, é agravante.

“Existem ainda formas indiretas de fraudar a democracia. Um governante que frauda a Lei de Responsabilidade Fiscal de um país, seja pela emissão descontrolada de moeda ou por artifícios contábeis, para ganhar eleições imputa o custo de sua campanha a toda a população.

“Além de viciar o processo eleitoral e de gerar crises econômicas agudas, a impede que a democracia promova a correta avaliação das políticas públicas.

“Por exemplo: ao votar no PT, os brasileiros escolheram manter a estatização da exploração do petróleo. Hoje, apesar de monopolista, a Petrobras tem uma dívida de R$ 500 bilhões e suas ações se desvalorizaram incrivelmente. Isso significa que o petróleo não pode ser estatizado? Não necessariamente, posto que o PT promoveu um tal nível de corrupção na Petrobras que é difícil separar os efeitos da estatização dos efeitos negativos da corrupção.

“Quando uma democracia se torna extremamente corrupta, como aconteceu no Brasil, o melhor que os agentes sociais podem fazer é colocar suas divergências ideológicas temporariamente de lado e unir forças para punir exemplarmente quem corrompeu o país e o processo eleitoral.

“Defender políticos sabidamente corruptos por questões ideológicas, –ou para não dar o braço a torcer– é trabalhar contra a democracia. Aqueles que não têm a grandeza de espírito para colocar a lisura do jogo democrático à frente das preferências ideológicas lutam pela escravidão pensando estar lutando pela liberdade.”

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