Direita e esquerda, volver!

1 de fevereiro de 2016

A esta altura do campeonato mundial, parece haver pouca dúvida de que, no campo das ideias, o planeta está perdido, não? Que me lembre, a última – digamos assim – grande causa que inventaram foi a do meio ambiente. Isso lá pelos anos 60, mas aí veio o pessoal do marketing e empacotou tudo para consumo rápido. OK, o ser humano nunca foi mesmo de olhar em torno e notar o estrago que vem fazendo há séculos. Só que passaram-se 50 anos e o máximo que se constata é que existe mais comida orgânica (já li que faz mal, ou não faz tão bem quanto se dizia).

Agora, quando se fala em ideias, difícil pensar em dois conceitos mais desacreditados do que “direita” e “esquerda”? Saí do cinema pensando nisso após assistir a Trumbo, o filme sobre a vida de um dos maiores roteiristas do cinema americano. Além de ótimos roteiros (alguns geniais: Spartacus, Johnny Vai à Guerra, Papillon, O Homem de Kiev), Dalton Trumbo entrou para a história como principal perseguido pelo macarthismo, campanha que assolou Hollywood no final da década de 1940.

Joseph McCarthy, senador que liderou o movimento e acabou lhe dando o nome, acusava os comunistas de querer “destruir a América”. Trumbo, que pertenceu ao Partido Comunista americano, criticava abertamente o sistema capitalista, embora se beneficiasse dele cobrando caro por seus roteiros. O filme é ótimo e, dizem, o livro é melhor ainda. Brian Cranston, aquele do Breaking Bad, está magistral no papel-título, e seus coadjuvantes idem, especialmente Helen Mirren no papel da jornalista Hedda Hopper, que enxerga esquerdistas até debaixo da cama.

Naqueles tempos, sabia-se muito bem: “comunista” era de esquerda, e “capitalista”, obrigatoriamente, de direita. Hoje, será? Fidel Castro, o ditador que está há mais tempo no poder, será mesmo “de esquerda”? Lula, após tantas mutretas, também? Mas a esquerda não surgiu, com Marx, justamente para libertar os pobres e oprimidos? E Putin, o ex-agente da KGB que manda envenenar desafetos: direita ou esquerda? Obama, que reatou relações com Cuba e com o Irã e retirou as tropas do Iraque e do Afeganistão: de que lado está? E o Mandela, que liderou a reconstrução (capitalista) do país mais rico da África? A lista é enorme.

Quando ouço ou leio alguém se dizer “de direita”, e vociferar contra o PT, só não caio na gargalhada porque temo que esse pessoal volte a ter os poderes que teve no passado. Mas, diante de quem se define como “esquerdista, por uma questão de convicção”, só consigo pensar em trambique.

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