Implodindo o país

1 de março de 2020

 

 

 

“Implodi o Inmetro. Mandei todo mundo embora”. Foi assim que o presidente anunciou o afastamento sumário – sem nem consultar o ministro responsável, um certo Paulo Guedes – da diretoria do órgão encarregado de análises técnicas, certificações e fiscalização de normas para toda a indústria do país. Dias antes, ele já havia demitido a presidente da autarquia, nomeada em janeiro do ano passado.

Eis aí um exemplo acabado do que chamei, no post anterior, de “bravatas”. São medidas e declarações intempestivas que causam ruído e não resolvem coisa alguma. No caso, sob pressão de taxistas e caminhoneiros, a justificativa era o “excesso de zelo” do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia), que pretende adotar medidores digitais de velocidade, em lugar dos tradicionais taxímetros e tacógrafos. “Vai ter de implodir, cortar a cabeça de todo mundo”, foi como terminou a fala presidencial. 

Faz lembrar a velha piada: Se a lâmpada elétrica tivesse sido inventada no Brasil, seria proibida pelo lobby dos fabricantes de velas. Como tantos outros órgãos da administração federal, o Inmetro vem sendo esvaziado e desmontado nos últimos meses. Angela Flores Furtado, a presidente nomeada no início do governo, não tinha qualquer familiaridade com tecnologia, pesquisas científicas nem normas técnicas – exercia antes um cargo burocrático na Federação das Indústrias de Minas Gerais. 

O novo presidente é Marcos Heleno Guerson de Oliveira Junior, coronel do Exército, que pelo menos é engenheiro civil e vinha ocupando uma diretoria técnica no Ministério da Saúde. Anunciou que pretende ter no Inmetro “estrutura mais flexível, mas sem perder nosso referencial de qualidade”. 

Há quem lembre que o Inmetro, entre outras coisas, aprovou anos atrás o malfadado plugue de três pinos, que acabou virando símbolo das administrações petistas, exemplo da interferência indevida do Estado na vida dos cidadãos (na verdade, a iniciativa nasceu na ABNT, cabendo ao Inmetro cumpri-la). Outros até defendem que o órgão poderia ser privatizado, o que revela profundo desconhecimento. Mas, tudo bem. São temas que podem, sim, ser discutidos. Mas, com argumentos técnicos, não com mais bravatas.

Por enquanto, a portaria para adoção dos equipamentos digitais em carros e caminhões continua valendo.

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