Trump e as empresas de tecnologia

10 de janeiro de 2021

 

 

A virada na política americana com a eleição de Joe Biden foi saudada na maior parte das empresas do Vale do Silício. Já no início de seu mandato, em 2017, Donald Trump criava atritos com o setor, que, no entanto, pouco tinha a fazer para combatê-lo. Agora que o presidente derrotado extrapola todos os limites de ataque à maior democracia do planeta, essa conta começa a ser paga.

Depois de ser banido do Facebook e do Twitter (neste, por tempo indeterminado, quiçá para sempre), Trump segue acumulando derrotas. A lamentável invasão do Capitólio, no último dia 6, está levando as empresas de internet a tentarem, literalmente, tirá-lo do mapa digital. Como se sabe, as redes sociais, especialmente Twitter, foram a mídia mais utilizada por Trump em seus quatro anos de Casa Branca, numa demonstração clara de desprezo às regras democráticas. Ali, ele dizia o que bem entendesse, fugindo à responsabilidade básica de todo governante, que é prestar contas de seus atos à população. Bem, não mais.

Ao ser excluído de sua rede preferencial, Trump perdeu poderosa arma de comunicação com seus seguidores – ele que, entre outros delitos, havia usado as redes até para arrecadar doações que supostamente serviriam para “cobrir custos da campanha eleitoral”; até se descobrir que o dinheiro serviria para custear seus advogados, pois estes terão muito trabalho, a partir do dia 20, para defendê-lo nos inúmeros processos a que terá de responder. Segundo uma denúncia à Justiça americana, parte do dinheiro também estava sendo alegremente repartida entre os colaboradores de Trump, incluindo o deletério Steve Bannon, articulador de suas estratégias digitais (vejam aqui os detalhes).

Para tentar se reconectar com pelo menos parte dos adoradores, Trump apelou ao Parler, plataforma de rede social financiada por empresários ligados à ala mais conservadora do Partido Republicano. Lançado no primeiro semestre de 2020, o Parler ganhou notoriedade por abrir espaço a grupos extremistas e racistas e não atendeu as recomendações dos provedores para moderar seus vídeos e posts. Atuou, aliás, fortemente na articulação dos ataques do dia 6 ao Capitólio. Ainda na sexta-feira, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro ecoou manifestações de Trump, incentivando seus seguidores a entrar no Parler.

Neste sábado, Google e Apple anunciaram que o aplicativo foi excluído de suas app stores, enquanto a Amazon Web Services decidiu que não fornecerá mais ao Parler a estrutura de nuvem, sem a qual nenhuma plataforma pode funcionar. Foi o troco, ainda que tardio.

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