O novo padrão brasileiro de TV 3.0 (DTV+) poderá servir de modelo para o mundo, sentenciou em dezembro o site americano TV Tech, leitura obrigatória para profissionais da área em diversos países. Nem mesmo os EUA, com seu poderio econômico, ousaram pensar num processo de integração TV+Internet tão amplo, que abre inúmeras possibilidades de acesso.

Segundo a publicação, o padrão SBTVD em vigor atualmente foi pensado sobre as bases da TV analógica existente até o início do século – apenas agregando a alta definição. Agora, a proposta é ampliar a experiência de consumir informação, entretenimento e serviços através da tela de TV, adicionando recursos da internet a que muitos brasileiros já estão acostumados (ou se acostumando).

O site entrevistou o presidente do Fórum SBTVD, Raymundo Barros, que é também o principal executivo da Globo na área de tecnologia. E lembrou que o Brasil decidiu aproveitar parte do padrão americano ATSC 3.0, adotado também pela Coreia do Sul, hoje o país mais avançado nessa transição. Só que o projeto brasileiro é mais ambicioso.

 

Nos EUA, o governo não dá palpite

Uma das principais diferenças em relação ao padrão americano é que, nos EUA, tudo está sendo conduzido pela iniciativa privada. O governo não se envolve em questões como modalidades de acesso, cobertura e modelos comerciais. Na Coreia, o governo compareceu com apoio financeiro e de regulação, mas apenas no início do processo.

No Brasil, como sabemos, nada se faz sem a participação do Estado. Além das questões burocráticas e de legislação (o DTV+ só foi oficializado após um decreto presidencial), é o governo quem lidera as ações de fomento, determinando que os bancos públicos financiem as emissoras (veja aqui).

Além disso, diplomatas e servidores federais fazem a ponte com organismos internacionais, como BID e Banco Mundial, para complementar os recursos necessários (o total é estimado entre R$ 10 e 15 bilhões).

Outra diferença importante é que o DTV+ nasce com um conceito de “inclusão digital”, por mais que esse termo esteja desgastado e seja muitas vezes distorcido. A ideia é facilitar o acesso para o maior número possível de famílias brasileiras, independente dos dispositivos que utilizem.

 

Após mais de 9 anos, apenas 20% de acessos

Nos EUA, onde a chamada Next-Gen TV começou a ser implantada em 2017, cerca de 75% das cidades já estão cobertas – mas somente 20% das residências têm acesso. Ao contrário do padrão brasileiro, a TV 3.0 americana não é obrigatória. As emissoras podem ou não aderir.

Pelo que se viu até agora, nos EUA essa nova mídia não se tornou atraente a ponto de justificar investimentos das emissoras em transmissores e demais equipamentos. E os anunciantes também não estão dando maior atenção às possibilidades da publicidade segmentada que a tecnologia oferece.

Aparentemente, a prioridade dos americanos é garantir melhor qualidade de sinal, mesmo que poucos tenham acesso. E, na Coreia, país com pouco mais de 50 milhões de habitantes e uma área territorial de 100.000km² (contra 8,5 milhões de km² do Brasil), tudo é mais fácil. O país tem atualmente renda per capita próxima de US$ 40 mil por ano, quase quatro vezes a do Brasil.

Como comentou um leitor recentemente, DTV+ é um ecossistema, enquanto ATSC 3.0 é “apenas” mais um padrão de TV. Se a aposta brasileira vai dar certo? Começaremos a descobrir a partir da Copa do Mundo.

 

 

Orlando Barrozo é jornalista especializado em tecnologia desde 1982. Foi editor de publicações como VIDEO NEWS e AUDIO NEWS, além de colunista do JORNAL DA TARDE (SP). Fundou as revistas VER VIDEO, SPOT, AUDITÓRIO&CIA, BUSINESS TECH e AUDIO PLUS. Atualmente, dirige o site HT & CASA DIGITAL. Gosta também de dar seus palpites em assuntos como política, economia, esportes e artes em geral.

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