Já aconteceu com Toshiba (incorporada pela Hisense), Sharp (hoje pertencente ao grupo Foxconn), NEC (controlada pela Lenovo)… agora, parece ter chegado a vez da Sony. Comunicado conjunto divulgado na última 3a feira revela que a icônica marca japonesa assinou acordo para uma joint-venture com o grupo TCL, que terá 51% das ações da nova empresa.

Mais uma vez, os chineses assumem uma grande empresa de tecnologia nipônica, embora o formato desta vez seja diferente das outras citadas. O comunicado (aqui o texto original) não dá muitos detalhes, mas informa que as duas empresas começam a atuar juntas em março próximo e, dependendo ainda de aprovações regulatórias, iniciam a operação em abril de 2027.

 

TCL (ainda não) comprou a Sony

Como em situações parecidas do passado, a simples notícia do acordo já disparou uma infinidade de especulações. “TCL comprou a Sony” é uma das frases da semana. Não é bem assim, pelo menos por enquanto. Numa pesquisa em sites asiáticos de tecnologia, levantei o tom geral das repercussões considerando as visões (que não são idênticas) de cada lado, japonês e chinês.

Vejam este exemplo, extraído do site STCN, órgão oficial da Bolsa de Valores de Shanghai: “Sob a pressão combinada das marcas chinesas e coreanas, o representante japonês da TV, Sony, optou por ‘união para sobreviver’…” (pedi ajuda ao ChatGPT para traduzir).

Na mídia japonesa, o tom é de resignação, o que é compreensível. Afinal, esse não foi um fato isolado, muito menos surpreendente, pois a indústria japonesa não tem condições de competir com os custos chineses. Mas vi também manifestações de um certo orgulho ao registrar que as marcas “Sony” e “Bravia” serão valorizadas na nova joint-venture.

 

Know-how japonês e o poder da marca

O acordo prevê (embora isso possa mudar no futuro) que as duas empresas dividirão o controle sobre todos os processos de pesquisa, produção e distribuição de TVs e aparelhos de áudio da Sony. Como já registramos antes (vejam aqui), existem hoje pouquíssimas fábricas de TV no Japão, onde a mão-de-obra é muito mais cara que na China.

O país fez uma opção por focar em R&D (pesquisa & desenvolvimento), terceirizando o hardware para, claro, fabricantes chineses. Aliás, os próprios coreanos reduziram investimentos em TVs LCD, repassando fábricas à China (detalhes).

O segredo da Sony é que, apesar das perdas em volume de vendas, seus produtos continuam sendo referência de qualidade. O melhor exemplo hoje está nas suas TVs OLED, produzidas com painéis coreanos (LG), mas projetadas e desenvolvidas in Japan. Acima, o modelo Bravia 8 QD-OLED, exibido na CES este ano. Seus processadores da linha XR, que comandam as TVs Bravia de alto padrão, estão entre os melhores do mundo.

Certamente, esse know-how interessa muito à TCL, que como quase todos os fabricantes chineses até agora tem desprezado a tecnologia OLED. Será que isso vai mudar? Outro motivo para a joint-venture é o prestígio das marcas Sony e Bravia, que no Brasil, por exemplo, deixaram saudades em muitos consumidores quando a empresa decidiu sair do país, em 2020 (para lembrar como foi).

Sobre as implicações da união Sony-TCL no mercado brasileiro, falaremos num próximo post.

 

Orlando Barrozo é jornalista especializado em tecnologia desde 1982. Foi editor de publicações como VIDEO NEWS e AUDIO NEWS, além de colunista do JORNAL DA TARDE (SP). Fundou as revistas VER VIDEO, SPOT, AUDITÓRIO&CIA, BUSINESS TECH e AUDIO PLUS. Atualmente, dirige o site HT & CASA DIGITAL. Gosta também de dar seus palpites em assuntos como política, economia, esportes e artes em geral.

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