Archive | setembro, 2010

Pague pelo que já é seu

Falando em Apple, esqueci de comentar aqui o que testemunhei na semana passada, numa das lojas Apple de São Paulo. Enquanto esperava um amigo, resolvi entrar e perguntar se poderia contar com a ajuda de um dos atendentes para tirar algumas dúvidas sobre meu Mac. A resposta foi: “Claro, é só trazê-lo aqui e se cadastrar no nosso esquema de horas-aula. Você paga R$ 160 por hora de atendimento e a gente tira todas as suas dúvidas. Se precisar de mais tempo, cobramos R$ 70 por hora adicional”.

Lindo, não? Impossível não pensar no contraste com a experiência que tive em duas Apple Stores de Nova York, meses atrás. Os atendentes passaram cerca de 30 minutos ouvindo e respondendo minhas dúvidas. Ninguém falou nada sobre “hora-aula” ou quanto seria cobrado por esse atendimento personalizado.

Qual será a diferença entre a Apple nos EUA e a Apple no Brasil? Deve ser por que aqui somos mais ricos e não nos incomodamos de pagar por informações que, por direito, já nos pertencem, pois pagamos ao adquirir o aparelho. Quer dizer, eu me incomodo.

Apple também adere ao led

Quem é fã da Apple provavelmente vai se tornar, a partir de agora, também um adepto dos displays de led. A empresa anunciou neste fim de semana que começa imediatamente a vender seu primeiro monitor de 27 polegadas, que utiliza tecnologia de leds. Apresentado pela primeira vez em julho, o aparelho tem o mesmo design dos monitores que a empresa utiliza nos seus Macintosh, com a diferença de que é chamado, e não por acaso, de “LED Cinema Display”. Tem resolução de 2.560 x 1.440 pixels (portanto, mais alta que a do Blu-ray), três entradas USB, câmera, microfone e três alto-falantes embutidos e configurados em 2.1; ou seja, um deles é um woofer, específico para realçar os graves. Vai custar inicialmente US$ 999 no mercado americano, substituindo os modelos anteriores, de 24 e de 30 polegadas.

O que isso significa? Meu palpite é que completa a estratégia da empresa de fazer decolar sua AppleTV. Com todos esses recursos, é sério candidato a ser adotado como “central de mídia”, conectado a player, videogame, TV paga etc. E antecipa-se ao GoogleTV que vem aí.

Em outras palavras, TV e computador, cada vez mais juntos.

Caminhando nas nuvens

A chamada computação em nuvem (cloud computing) é uma das bolas da vez entre os experts em tecnologia. Gurus afirmam que é inevitável todos entrarmos na tal nuvem e até dão dicas sobre como fazê-lo. Empresas gastam milhões para pesquisar as possíveis vantagens. Mas, assim como acontece nas redes sociais, ninguém parece ter respostas afirmativas para todas as dúvidas que surgem.

Por exemplo: o excelente site Convergência Digital trouxe esta semana a opinião de advogados sobre o impacto da nuvem na investigação dos crimes cibernéticos, uma das grandes pragas da atualidade. Simplesmente, não há consenso. Ou, se há, é o que de que é preciso continuar estudando a fundo o problema, que tende a crescer conforme ampliam-se as redes virtuais e aumentam as velocidades de conexão.

O mesmo site, aliás, traz entrevista em vídeo com um diretor do Gartner, um dos mais respeitados institutos de pesquisa do mundo, defendendo a criação de uma espécie de “nuvem estatal” para cuidar do problema, já que é impossível compatibilizar os interesses das empresas e dos cidadãos. Não é de causar arrepios? Diante das recentes denúncias sobre invasão de dados sigilosos da Receita Federal, como aceitar que um órgão de governo (qualquer governo) fique responsável pelas informações lançadas “na nuvem” pelas empresas? Se esses bandidos encalacrados no Estado já fazem o que fazem sem nuvem alguma, imaginem o que fariam tendo uma estatal a lhes dar cobertura?

Sim, é de arrepiar!

Banca de revistas do futuro

Venho comentando seguidamente sobre tablets e leitores eletrônicos, duas novas categorias de produto que, tudo indica, terão grande expansão nos próximos meses. Mas, por falta de tempo, esqueci de comentar o que li tempos atrás no blog Vida em Rede: como seria uma livraria ou banca de revistas (ou jornais) em tempos de leitura digital? A empresa americana Cynergy, especializada em novas mídias, tem uma resposta que está neste vídeo. Assistam e comentem.

Faça-me um favor

Se você tem algum parente ou amigo trabalhando no governo, cuide bem dessa amizade. É a mensagem que fica do mais recente escândalo republicano, o da “Quadrilha Guerra”, instalada dentro do Palácio do Planalto. Que combina com aquele outro escândalo, o da quebra do sigilo nos bastidores da Receita Federal, orquestrada por integrantes do PT e amigos. Os mais bem informados sabem exatamente do que estou falando. Mas, como este não é um site sobre política (nem sobre polícia), deixo apenas o link para um brilhante artigo, escrito pelo filósofo e professor da Unicamp, Roberto Romano, uma das mentes mais privilegiadas do País. Leiam e aprendam em que país estamos vivendo: O país dos favores.

Tablet da Samsung está chegando

O vice-presidente da área de celulares da Samsung, Silvio Stagni, afirmou ao repórter Renato Cruz, do Estadão, que a empresa lança no Brasil seu tablet Galaxy Tab – tido como principal concorrente do iPad – em outubro. Vai custar R$ 2.699 – não explicou qual das versões. Ainda depende de homologação da Anatel, mas a empresa já negocia com as principais operadoras. Segundo Stagni, o mercado de tablets vai explodir no País.

A se confirmar esse lançamento, vai explodir mesmo. O iPad já está homologado e só não foi lançado ainda por dois motivos: a Apple está exigindo das operadoras bem mais do que o habitual nessas negociações; e a prioridade agora é o lançamento do iPhone 4, que chegou às lojas ontem e já está esgotado. Há poucas dúvidas de que o mesmo irá acontecer com o iPad, ainda que o preço final seja estimado na casa dos R$ 3.000.

Tive oportunidade de mexer um pouco com o Galaxy (vejam este vídeo), e posso afirmar que a experiência é tão envolvente quanto a do iPad. A diferença está no sistema operacional, é claro, e em alguns recursos cuja utilidade depende de cada usuário. Com o mercado brasileiro aquecido como está, e toda a badalação que já se vê em torno dos tablets, minha aposta é que os dois produtos serão um enorme sucesso.

Vamos ver quem ganha.

Curso para profissionais

Nesta segunda-feira, acontece em São Paulo mais uma “Jornada da Academia Infocomm”, série de cursos promovidos pela entidade americana para profissionais brasileiros do setor de áudio & vídeo. Serão três seminários ao longo do dia, abordando os temas: Tecnologia de LED, Controle de Iluminação e Redes Digitais. À noite, está programada uma mesa redonda para membros da Infocomm e empresários brasileiros, para discutir a situação do mercado na América Latina. E, durante a semana, haverá um curso sobre Princípios de Projetos Audiovisuais, também com especialistas da entidade.

Sempre que acontece esse tipo de evento no Brasil, recomendo que os profissionais do mercado participem. É mais uma oportunidade de aprender e enriquecer o currículo. A Infocomm é o principal órgão internacional de estudos sobre tecnologia voltada para projetos, principalmente nas áreas corporativa, de auditórios e espaços públicos. Seus cursos costumam ser sérios e proveitosos. Para quem quiser saber mais detalhes, o contato é [email protected]. Ou este link.

Como sofre um CEO!

Nesta sexta-feira, o CEO (Chief Executive Officer) da LG Electronics, Nam Yong, renunciou ao cargo. Trata-se de uma das funções mais valorizadas do mundo na atualidade: dirigir um conglomerado que é líder mundial na produção de aparelhos de ar-condicionado, vice-líder em televisores e está entre os cinco primeiros em todos os setores em que atua. Tão importante que foi substituído por Koo Bon-Joon, que vem a ser irmão do maior acionista, Koo Bon-Moo.

Há poucos dias, caiu também o CEO da Nokia, maior fabricante mundial de celulares. E o que há de comum entre os dois casos? Simples: ambas as empresas estão perdendo mercado na área de smartphones, que é hoje estratégica. Culpa do iPhone e do Blackberry, cuja participação não para de crescer. E o que significam essas mudanças para nós, consumidores? Nada, pelo menos no curto prazo. Mas são bons exemplos de como é dura a vida de CEO. Claro, mesmo quando demitidos, eles saem com milhões de dólares na conta bancária – muitos nem precisam mais trabalhar.

Mas têm que carregar para sempre a fama de fracassados.

Qual TV você pode comprar

Como fazemos sempre nesta época do ano, estamos coletando material sobre o mercado de televisores para orientar os leitores da revista HOME THEATER & CASA DIGITAL em suas compras de fim de ano. A cada quatro anos, esse processo é alterado pela Copa do Mundo, quando muita gente antecipa a escolha do seu modelo. Historicamente, as vendas do primeiro semestre superam as do segundo. Mas, desta vez, embora o primeiro semestre tenha sido excelente para a indústria, há fortes indicações de que a temporada de Natal também será. E, entre setembro e outubro, estão chegando às lojas inúmeros lançamentos.

Meu colega Alex dos Santos já se adiantou e fez uma pesquisa sobre os TVs 3D que estão sendo lançados (leia aqui). Mas esse mercado é tão dinâmico que novos produtos estão chegando. Hoje, por exemplo, recebi e-mail promocional da rede Fnac com uma proposta quase inacreditável: plasma Samsung Full-HD de 58″, de R$ 9.799 por R$ 5.999. Não me perguntem se está caro ou barato. O fato é que trata-se de um desconto de quase 40%! E não se trata de um aparelho qualquer: é um dos melhores do mercado.

Vamos continuar de olho.

Debatendo o futuro do 3D

Cerca de 50 mil profissionais de vários países participam esta semana, em Amsterdam (Holanda), do encontro anual da IBC (International Broadcasting Convention). A maioria deles, pensando e discutindo os rumos da tecnologia 3D. Uma exibição especial do filme Tron: Legacy, da Disney, agitou os participantes na noite de segunda-feira (o filme chega aos cinemas no final do ano). A Dolby Labs demonstrou um novo sistema de processamento de áudio, baseado no Dolby Digital Plus, agora adaptado às imagens 3D. E a NHK, emissora estatal japonesa, trouxe a nova versão do sistema Super Hi-Vision (foto), que oferece resolução oito vezes mais alta que a do Blu-ray (7.680 x 4.320 pixels), sobre o qual já falamos aqui.

Enquanto isso, em Los Angeles acontece o 3-D Summit, encontro geral da indústria de cinema com os fabricantes de equipamentos e produtores de software, também para discutir o assunto. Aqui, o enfoque é mais no cinema 3D, que segundo o jornal especializado Variety está bombando de novo, após as boas bilheterias de Toy Story, Alice no País das Maravilhas e Resident Evil em suas versões tridimensionais.

E, por aqui, a Samsung anuncia o lançamento de mais dois players Blu-ray com capacidade de reproduzir imagens 3D – um deles a R$ 799 – e a LG coloca no mercado seu primeiro monitor 3D, de 23″, com a super-placa 3D Vision, da NVidia, voltado ao segmento de videogame. Ou seja, não será por falta de discussão, nem de produto, que o 3D irá deixar de dar certo.

Educação vs. Educação

Mais um primoroso artigo do prof. José Pastore, que recomendo a todos que pensam no Brasil como uma Nação (com “N” maiúsculo) e não como “terra dos espertos” ou dos “amigos do rei”. Desta vez, Pastore analisa os resultados da última PNAD (Pesquisa Nacional por Análise de Domicílio), o censo do IBGE que aponta o estágio atual do País em vários aspectos de seu desenvolvimento.

O artigo, publicado pelo Estadão desta terça-feira, está aqui. Trata da questão educacional e seus reflexos no mercado de trabalho. Destaco apenas dois tópicos. Segundo o censo, aumentou a taxa de crianças e jovens nas escolas brasileiras nos últimos cinco anos – uma ótima notícia. Só que, quando se analisa esse crescimento em comparação com outros países do mesmo porte, descobre-se que continuamos muito defasados. Só um dado: enquanto no Chile 76% da população completou o ensino médio, no Brasil esse índice é de 43%. Quando se vai para os países desenvolvidos, então, é uma goleada humilhante: Canadá, 95%; Alemanha, 97%; Inglaterra, 100%, e por aí vai.

Outro ponto que me chamou a atenção no artigo – e este dado a PNAD não mostra – é que, apesar de freqüentarem mais a escola, os jovens brasileiros chegam à idade adulta sem saber ler e compreender um texto, por exemplo. A política educacional nas últimas décadas tem sido incentivar a multiplicação de escolas particulares, o que dá a muitos a ilusão de estarem aprendendo; na verdade, mal sabem ler e escrever.

O que vai se refletir na hora de encontrar um emprego decente. Como diz o prof. Pastore: “As empresas modernas buscam profissionais que tenham bom senso, lógica de raciocínio, capacidade de se comunicar por escrito e oralmente, tino para transformar informações em soluções práticas e capacidade para trabalhar em grupo. Em suma, as empresas de hoje buscam pessoas que saibam pensar e assim continuarão no futuro”.

Justamente aquilo que os governantes não querem que aconteça.

Mais um de olho no Brasil

Dinesh Paliwal (foto), CEO mundial da Harman, vem ao Brasil na semana que vem para conhecer o mercado onde o grupo pretende investir muito nos próximos anos. Como se sabe, a Harman adquiriu em julho o controle da gaúcha Selenium, um dos principais fabricantes nacionais de alto-falantes e componentes para equipamentos de áudio. Os próximos passos, Paliwal deve revelar numa entrevista marcada para dia 21. Com ele, vêm também os presidentes das divisões de consumo, David Slump, e de áudio profissional, Blake Augsburger, além do brasileiro Rodrigo Kniest, ex-diretor-geral da Selenium e escolhido para dirigir os negócios do grupo no Brasil.

Não é comum executivos de multinacionais virem ao País assim, em comitiva, o que prova a importância do Brasil para a Harman. Dono de marcas mundiais como JBL, Infinity, AKG e Mark Levinson, o grupo quer fazer do País uma plataforma para ampliar seus negócios em toda a América Latina, inclusive com a expansão da fábrica que a Selenium construiu em Manaus, de onde pretende exportar para outros países. Exportar o quê? Todos os produtos de áudio e vídeo que puderem ser fabricados – ou montados – em Manaus, com os devidos incentivos fiscais.

Com todas as dificuldades que o governo atual impõe aos importadores, fica cada vez mais claro que vale mais a pena montar uma fábrica – investimento que em geral demora anos para se pagar – do que “morrer”todo mês com impostos e mais impostos para importar; até porque o dinheiro desses impostos acaba indo parar nas mãos de mensaleiros e fabricantes de dossiês…

Brasil e Russia, muy amigos.

De volta ao Brasil, me deparo com um caderno especial encartado no Estadão desta segunda-feira, com o título “Gazeta Russa”. Sim, oito páginas falando apenas sobre assuntos de interesse dos russos, ou de quem estuda o país, mas escritas em português. Curioso, fui conferir: trata-se de “suplemento comercial”, ou seja, alguém ligado ao país de Dostoievsky pagou para publicar. Como se explica?

Não é tão simples, mas tem sua lógica. Brasil e Rússia fazem parte do chamado BRIC, grupo de potências econômicas emergentes que inclui ainda Índia e China – daí a sigla, com as iniciais de cada país. Ambos vêm se destacando na economia mundial por manterem um nível de consumo acima do chamado Primeiro Mundo, e com perspectivas reais de ampliar esse desempenho. E cada um enxerga no outro oportunidades de expansão comercial – embora uma das matérias do Caderno destaque que o presidente russo considera “prioridade” a cooperação comercial com Estados Unidos e União Europeia. A conclusão é que os russos querem mostrar aos empresários brasileiros que estão de olho em negócios por aqui e, ao mesmo tempo, abertos a investimentos por lá.

A leitura me fez lembrar o taxista que, em Berlim, me levou na quinta-feira ao aeroporto. Era russo. Mais do que isso: comunista convicto e fã incondicional de Lula. Passou a corrida inteira tentando me convencer de que a política do bolsa-família e demais esmolas distribuídas pelo governo brasileiro está correta. E que corrupção, excesso de impostos, miséria, má educação, descaso com a saúde etc. são todos problemas antigos, que não há como resolver. Ou seja, Lula não tem culpa nenhuma em nada disso. Depois de três ou quatro tentativas, desisti de argumentar. Me dei conta de que estava diante de um comunista no velho estilo. Daqueles que acham que alguém precisa proteger o povo, tão oprimido pelas elites. E que esse alguém deve ser uma pessoa com plenos poderes, acima do bem e do mal, como são Lula e Putin, o líder russo do momento. No fundo, duas faces da mesma moeda: o populismo, disfarçado de democracia.

Curioso que o Estadão fez questão de colocar, logo na primeira página do Caderno: “Este suplemento foi produzido… sem envolvimento de O Estado de S. Paulo”. Mais curioso ainda é terem escolhido justamente o Estadão, de sólidas tradições anticomunistas, para publicar esse material. Como o mundo mudou…

Bye Bye Berlim

Enfim, acabou. A IFA fechou suas portas ontem, e hoje estou embarcando de volta ao Brasil. Espero que tenham gostado da cobertura e dos comentários. Para quem é ligado em tecnologia, participar de um evento como esse é sempre uma viagem – literalmente. Só lamento que desta vez não tenha dado tempo de passear por esta cidade espetacular. Fica para uma próxima. Agradeço aos leitores que contribuíram com suas opiniões. E lembro que no hot site IFA 2010 tem muito mais. Apreciem sem moderação.

Apaixonados por som

Na segunda-feira, enquanto aqui em Berlim rolava a IFA, demos uma escapadinha até Leuven, na Bélgica, a convite da Philips. Ali, funciona o centro de pesquisas de áudio da empresa. Pudemos ver de perto como são desenvolvidos os projetos de aparelhos como a caixa acústica SoundSphere (foto), os sistemas Audio 360 (que simula o som propagando-se pelo ambiente em 360 graus) e Ambisound (que equipa os TVs da Philips) e os docks para iPod. Mais interessante até do que ver tudo isso foi poder conversar com os técnicos que concebem os projetos a partir de horas e horas diárias de pesquisa. Claro, a Philips não é fabricante de aparelhos high-end, mas de produtos de massa. Seu desafio é produzir coisas que preservem a máxima qualidade possível a um custo acessível para o grande público. Esses técnicos reconhecem que vivem com um olho na tecnologia e outro nas exigências do marketing.

Nas próximas semanas, vamos detalhar um pouco mais como é esse trabalho.

Inteligência artificial

Ainda sobre o tema dos TVs “inteligentes”, é evidente que exagerei ao dizer que esses aparelhos – vários já lançados no Brasil – simplesmente acessam a internet. Errado. São, na maioria, TVs avançados e preparados para uma série de outras funções. Na verdade, trazem embutido um verdadeiro computador, que o usuário não vê. Isso traz uma série de vantagens, mas também um problema.

Já que se propuseram a colocar um computador dentro do TV, os fabricantes aproveitam para rechear o software que faz funcionar esse computador. Por isso, alguns TVs vêm com a capacidade de receber sinais de várias fontes diferentes ao mesmo tempo, e processar esses sinais numa velocidade semelhante à que estamos acostumados na internet. Você pode ter, por exemplo, o TV conectado a sua rede de banda larga, ao receptor de TV paga, ao videogame, a uma câmera, ao Blu-ray ou DVD player, a um pen-drive e a um servidor doméstico (ou media center) – tudo isso simultaneamente. E, pelo controle remoto, “chamar” o conteúdo que quer ver a qualquer momento.

Mais: boa parte dos novos TVs estão saindo com o protocolo DLNA (Digital Living Network Alliance), que vai se tornando padrão para equipamentos residenciais. Todos os aparelhos com esse protocolo podem “conversar” entre si, permitindo transferir arquivos com relativa facilidade. DLNA é um dos padrões de conexão WiFi (sem fio) e tem se revelado tão eficiente que os principais fabricantes estão adotando. Com isso, você pode ter o TV de uma marca, o Blu-ray de outra, a câmera de outra e assim por diante, sem problemas de incompatibilidade na comunicação entre eles.

Bem se vê que para fazer tudo isso funcionar é preciso um computador – na verdade, um bom processador dentro do TV, que centraliza toda a operação. O detalhe é que essas coisas são incontroláveis: quanto mais aparelhos você tiver conectados, mais vai querer usá-los. E entupi-los de fotos, vídeos, músicas, dados de trabalho, o material escolar do seu filho etc. Fora as dezenas de conteúdos que cada fabricante ou emissora irá oferecer pela internet. Isso pode resultar em dois problemas: a capacidade do processador torna-se pequena para acomodar tudo; e a velocidade de acesso diminui com o tempo. É a hora do chamado upgrade. Os fabricantes vão ter que providenciar atualizações, ou – o mais provável – vai chegar um momento em que você mesmo sentirá necessidade de trocar seu TV por um novo, ainda mais avançado. É assim que se realimenta a roda da tecnologia.

Ah! Sim, falei lá no início sobre um problema de ter um TV com tantos recursos. O computador que está lá dentro é parecido com aquele outro que você já tem em casa. E, como tal, sujeito a travamentos. Quem tem um decoder de TV paga sabe bem do que estou falando: aquilo é um processador, com software e chips que às vezes falham. Nessa hora, não há muito o que fazer – no máximo, xingar a operadora. Mas esta nem sempre é a culpada. Processadores são assim mesmo. Portanto, torça para que o seu excelente TV, equipado com recursos de última geração, não venha a “dar pau” (como se diz na linguagem da informática) bem na hora do jogo do seu time.

Será que tem tradução?

Já dizia Noel Rosa que “samba não tem tradução”. Nesta era globalizada, em que idiomas se misturam alegremente como velhos camaradas, é bom prestar atenção quando se ouvem coisas como esta frase de Eric Schmidt, o chefão da Google, em seu discurso aqui na IFA: “O sistema operacional Android irá traduzir a linguagem do computador, do inglês para o idioma do usuário, qualquer que seja ele”.

Bem, se a tradução for do mesmo padrão da atual proporcionada pelo Google em seus textos, é bom começarmos a rezar. Experimente entrar num site americano e clicar no ícone “translate” do Google; tente em seguida entender o que está escrito, supostamente em português. Interessante que a GoogleTV promete fazer isso não em texto escrito, mas em áudio, com uma voz de computador “lendo” para o usuário a tradução do texto original! Uma ideia como essa pressupõe, primeiro, que o computador conheça os dois idiomas (o original, normalmente inglês, e o do usuário); segundo, que entenda de fato o sentido do texto original; e, terceiro, que o áudio seja inteligível para não causar mais confusão ainda.

Só mesmo vendo (e ouvindo) para crer.

E o homem saiu vivo…

Para alguns setores da sociedade alemã, “Google” passou a ser uma palavra quase proibida nos últimos meses. Um sinônimo de coisas malignas, como “invasão de privacidade”, “espionagem”, “perda de liberdade” etc. Tudo por causa do Street View, aquele serviço associado ao Google Maps em que, além de localizar uma rua, você ainda consegue vê-la no exato momento em que acessa o programa. Em alguns países, não há problema se de repente um carro chega na frente da sua casa e começa a filmar o local, mesmo que o proprietário não tenha autorizado. É exatamente isso que centenas de vans da Google estão fazendo pelo mundo afora. Aqui na Alemanha, a presença desses carros está causando mais protestos do que qualquer outra coisa.

Quando anunciou-se que Eric Schmidt, presidente da Google, viria à Alemanha para o discurso de encerramento da IFA, alguns chegaram a temer pela vida do homem. Felizmente, ele entrou e saiu vivo da Messe Berlin, sede do evento. E deu seu recado: a empresa pretende mesmo dominar o mundo! Não, é claro que ele não usou essas palavras, mas foi quase isso. Vejam: “Vamos lançar a GoogleTV no final deste ano nos EUA e em 2011 pelo mundo afora”. Para os bons entendedores do mercado, isso basta: o projeto GoogleTV pretende ser uma versão ampliada do site de buscas e sua infinidade de serviços adicionais. Instalado dentro de um TV, muitas pessoas que hoje não têm o hábito de usar a internet – sim, existem milhões delas – passará a fazê-lo através do Google.

Segundo Schmidt, ao ligar seu aparelho Sony (há um acordo de exclusividade entre as duas empresas, não se sabe por quanto tempo), o telespectador será apresentado a um menu com uma barra no alto da tela e poderá iniciar a navegação por ali, usando seu controle remoto. Se quiser ver seus programas habituais, tudo bem; mas, se preferir alternativas, poderá simplesmente falar – isso mesmo, um sistema de reconhecimento de voz permitirá procurar os assuntos de seu interesse sem que ele tenha que digitar nada; aliás, se tiver um smartphone com sistema operacional Android, nem precisará do controle remoto: o próprio celular será seu acessório mais importante.

É esse o mundo que a Google nos prepara. Resta saber se tudo irá caminhar, mesmo, conforme os planos.

Quem quer um TV inteligente?

Já ouvi de pessoas da indústria que os TVs com acesso à internet são o maior atrativo da atualidade para o consumidor – mais até do que a imagem 3D, pois esta depende de conteúdo que ainda não existe. Agora, vejam que curioso. Comentei aqui ontem sobre os Smart TVs – que é como Samsung e LG estão chamando seus aparelhos que acessam a web – e eis que leio hoje, no excelente site CNET, uma enquete entre os leitores exatamente sobre esse assunto.

A pergunta é: deixando de lado a questão da qualidade de imagem, você prefere um televisor “inteligente”, com streaming de vídeo e acesso a aplicativos da web, ou apenas um monitor “burro”? Até hoje de manhã, 259 internautas haviam respondido. Vejam o resultado (parcial, pois a enquete continua):

23% querem TVs com todos os recursos possíveis;

19% querem apenas acesso a sites para streaming de vídeo;

5% não querem acesso a nada; querem apenas que o TV se conecte ao seu computador para transferir seus arquivos de vídeo;

9% não estão preocupados com a questão;

e nada menos do que 43% preferem um “TV burro”.

Calma, não tire já suas conclusões. Esses 43% se incluem na categoria dos que já possuem console de videogame que acessa a web, gravador DVR integrado ao seu receptor de TV paga e/ou computador que se comunica com o TV. Portanto, realmente não necessitam de um TV que faça tudo aquilo. Quanto aos outros 57%, vamos ter que esperar para ver até que ponto o fator “inteligência” ou “burrice” irá pesar em sua decisão de compra. Fiquem atentos aos próximos capítulos.