Tentando explicar a barbárie

7 de maio de 2014

Homem armado entra numa escola e metralha crianças dentro da sala de aula. Assaltante em fuga é apanhado, espancado e acorrentado a um poste. Pessoas se reúnem na madrugada para apreciar (e aplaudir) motoristas que disputam um racha, até que um deles perde o controle da direção e atropela a plateia na calçada. Estudantes de Medicina organizam trote em que os calouros são forçados a se arrastar, nus, sobre poças de lama, enquanto alguns veteranos urinam sobre suas cabeças. Mulher é linchada por quase duas horas por cerca de 100 pessoas, que a confundiram com outra cujo retrato falado havia sido divulgado em um site.

São cenas brasileiras, tiradas do noticiário das últimas semanas. Sempre que acontecem, surgem as mais diversas teorias para explicar as possíveis motivações. Há tempos deixou de ser adotado o surrado paradigma de que miséria e pobreza é que são responsáveis pelas tragédias urbanas. E a ladainha da ausência do Estado, de tão antiga e repetida, aparece conforme as conveniências político-eleitorais de quem fala ou escreve. Uma das teses da hora é culpar a mídia: segundo uma pesquisadora da USP, na maioria das vezes a violência acontece após a imprensa explorar exageradamente um caso desses.

Nas entrelinhas, está dito que bastaria a mídia não dar tanta importância a tiroteios, linchamentos e trotes violentos para que caísse a frequência de tais barbaridades. É um argumento oportuno para quem enxerga inimigos em todo jornal, revista, site ou emissora que não lhe seja favorável. Políticos corruptos, por exemplo, têm aí um belo ponto a defender: é a mídia, em sua insaciável busca de sensacionalismo, que faz crescerem os índices de violência.

Faz lembrar as teses de um passado nem tão distante, quando se atribuía aos filmes – depois aos desenhos e aos videogames – a culpa pela violência entre os jovens. Roy Rogers, Stallone e até o Picapau foram irremediavelmente condenados. Surgiram teses, tratados e livros sem fim para dizer aos pais que seus filhos iriam se transformar em raivosos bandidos se continuassem expostos à sanha maligna de seus super-heróis. Pois é, escapamos por pouco.

Que presidentes, governadores, prefeitos e parlamentares, ou mesmo juízes, combatam o “excesso de liberdade” da mídia, é até compreensível. Afinal, eles e seus financiadores só têm a perder quando as notícias circulam sem travas. A tragédia se configura quando filósofos, sociólogos, educadores e até jornalistas adotam o mesmo discurso, o que tristemente vem se tornando cada vez mais comum.

Sim, é triste, mas não surpreendente. Revela que há mais laços do que parece entre esses “intelectuais” (lamento, as aspas aqui são mais do que necessárias) e a elite política que tomou conta do país. A barbárie verdadeira está neles.

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