No país dos avestruzes

20 de março de 2020

 

 

Você deve se lembrar da aula de Biologia: o avestruz é uma ave típica da África, que não se encontra no Brasil (só em pouquíssimos cativeiros). Digo, não se encontra na sua feição original, com penas, bico duro e pernas longas. Os daqui não têm pensas. Uma de suas características seria enfiar o bico no chão e ali ficar horas a fio, à procura de não sei quê, sem ligar para o que acontece a sua volta. Até hoje ninguém filmou essa cena, mas a lenda pegou.

Corta para o Brasil, especialmente este, contemporâneo, e podemos ver milhares de avestruzes por aí, como que desligados do mundo. Preocupados com seu futebol, suas baladas, suas rezas e seus mitos, não deram bola quando ouviram falar de um vírus que estava matando gente na China. Também não ligaram ao saber que o danado viajou até a querida Europa, onde prosseguiu em sua sanha assassina. “Não vai acontecer comigo”, ouviu-se um deles rosnar dia desses.

Como um conhecido que, quando perguntei semana passada se iria trabalhar de casa, saiu-se com esta: “Não, no prédio onde trabalho não teve ninguém infectado”. Tradução: estava esperando alguém apresentar sintomas para, aí sim, tomar as precauções devidas.

Para outro, bastava rezar (de preferência na igreja, todos juntos) que Deus – sempre ele – evitaria o pior. Mais insano foi aquele que ouviu o presidente condenar a “histeria” da imprensa… e acreditou, desdenhando as notícias de milhares de mortos mundo afora.

Esta semana em São Paulo, vimos profissionais de saúde serem agredidos por avestruzes com roupa de gente. Motivo: estariam espalhando o vírus para fora dos hospitais!!! Sem falar nos bípedes que correram às farmácias para estocarem álcool gel, máscaras e a tal hidroxicloroquina, dando bananas para pacientes já hospitalizados que precisam urgentemente do medicamento que falta nos hospitais.

O Avestruzis Brasilis é bicho duro na queda. Como se dizia antigamente, dá um boi para não entrar numa briga – e uma boiada para não perder uma mamata. Defende que tudo deve mudar, desde que ninguém mexa no seu queijo. Jura que respeita o próximo, mas, se puder, fura a fila e estaciona onde é proibido. Detesta fazer a lição de casa, ainda que isso signifique gestos banais como lavar as mãos, só jogar o lixo no lixo, cumprimentar o faxineiro do prédio, pedir licença, dizer “por favor” e “obrigado”.

Acha que Deus é brasileiro e que o Brasil é bonito por natureza. Ultimamente, vem se dedicando nas horas vagas à prática de espalhar fake news só para provocar quem pensa diferente. Na política, mal distingue esquerda de direita, está sempre clamando por um salvador da pátria. Mas dos bons, daqueles que batem no peito, mandam calar a boca e dizem “deixa que eu resolvo”.

 “A maior aspiração do povo é a suprema liberdade de não decidir coisa nenhuma”, disse o sábio Millôr Fernandes. Pois é, viva o avestruz, mas prefiro o africano!

Um comentario para “No país dos avestruzes”

  1. Julio Cohen disse:

    Na mosca, Orlando. Lembrei do excelente livro “O Que Faz O Brasil, Brasil?” do Roberto da Matta. O brasileiro diz “não vai acontecer comigo” e que “Deus não quer” e, por isso, não tem nenhum apreço pela cultura de segurança, de prevenção.

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