O passarinho voa alto há 100 anos

28 de agosto de 2020

 

 

Neste sábado, todo verdadeiro fã de jazz pelo mundo afora irá reservar alguns minutos, no mínimo, de seu dia para reverenciar Charlie “Bird” Parker. Foi em 29 de agosto de 1920 que veio ao mundo essa espécie de Mozart moderno, uma estrela que esteve por aqui durante menos de 35 anos, iluminou tantos caminhos e se foi. Para marcar a data, um grupo de músicos brasileiros teve uma grande sacada: organizar uma “live musical”, direto do palco do Teatro Amazonas, em Manaus, para tocar algumas maravilhadas criadas por Bird. O Tributo será transmitido neste sábado a partir das 21h (20h em Manaus) – vejam o cartaz abaixo – e poderá ser assistido neste link.

 

 

Vários eventos como esse estão sendo realizados entre hoje e domingo pelo mundo, pois Parker é um dos músicos mais cultuados da história. Qualquer saxofonista que você ouça, em qualquer gênero, terá sido influenciado por ele, cofundador do bebop, nos anos 1940, ao lado de Dizzy Gillespie. Um gênio que teve dezenas de imitadores sem que nenhum tenha chegado perto de sua capacidade de improviso – embora haja grandes registros em estúdio, onde o “passarinho” voava mesmo era nos shows e apresentações de rádio ao vivo. 

Como todo artista desse calibre, há inúmeras histórias envolvendo a figura de Parker, nem todas 100% confirmadas. Seu início com as drogas, por exemplo, é atribuído a um acidente de carro em 1936, com apenas 16 anos, que lhe rendeu fraturas inclusive na coluna; na recuperação, começou a tomar morfina e depois heroína para suportar as dores.

O menino Charlie, filho de um pianista, cresceu em Kansas City, cidade com longa tradição musical (são de lá também Count Basie, Ben Webster e Lester Young). Aos 11 anos, já tocava saxofone influenciado pelas big bands de swing. Mas uma série de incidentes acabou redirecionando sua vida. Aos 14, largou a escola; casou-se com apenas 16, quando decidiu que queria ser músico. Mas insistia em longos improvisos que às vezes irritavam os colegas. Numa apresentação em 1936, perdeu-se nas notas e foi recriminado em público pelo baterista Joe Jones (da orquestra de Basie). Resolveu então se confinar em casa e praticar até 15 horas por dia, o que fez até 1939, quando mudou-se com a esposa para Nova York.

O grande achado de Parker, algo que todos consideram instintivo e sem nenhuma lógica, era conseguir improvisar sobre canções conhecidas durante longos minutos e sempre voltar à melodia original. Esses improvisos lhe eram “soprados” por dois músicos em particular: o saxofonista Buster Smith (1904-1991), espécie de seu mentor na adolescência; e Art Tatum (1910-1956), ídolo de dez entre dez pianistas, que Parker quis ver ao vivo quando chegou a NYC. 

 

Quando conheceu Dizzy Gillespie, em 1940, foi o início não só de uma longa amizade, mas de uma revolução que viria a ficar conhecida como Bebop. Embora tocassem com big bands – estiveram juntos nas de Earl Hines e Billy Eckstine – Bird e Dizzy achavam que deveriam romper com aquela estrutura musical em que os músicos eram obrigados a seguir à risca os arranjos e andamentos determinados pelo band-leader. Entre 1945 e 1951, pode-se dizer que os dois atingiram seu objetivo: o jazz e a música americana em geral nunca mais foram os mesmos.

Tome qualquer standard de Ellington, Gershwin, Cole Porter e compare as versões convencionais dos anos 30/40 com as de Parker. Note como ele consegue “sair e entrar” na melodia inúmeras vezes, em altíssima velocidade, explorando até o fundo harmonias que talvez nem os próprios compositores houvessem percebido. Uma boa pedida para tentar entender como Bird fazia é o disco Ballads (BMG, 2003), coletânea desses standards: Embraceable You, Laura, Summertime, How Deep is the Ocean e por aí vai. 

 

 

 

Em estúdio ou concerto, com quinteto (como na foto ao lado, com Miles Davis em 1947) ou orquestra, Parker hipnotizava todos com a rapidez de seus dedos e as ideias que não paravam de fluir quando ele começava a soprar. Infelizmente, como em tantos outros casos no jazz, ele não conseguiu vencer a batalha contra as drogas, que a partir de 1949 foram tomando conta de seu corpo e sua mente (tentou o suicídio duas vezes, uma delas já em 1954, quando recebeu a notícia da morte de sua filha Pre, de apenas 3 anos). 

Foi como um tiro de misericórdia. Meses depois, em 12 de março de 1955, faltando pouco para completar 35 anos, Charlie Parker voou pela última vez. No atestado de óbito, o médico anotou: “idade aproximada: entre 50 e 60 anos”. 

Homenagens – Dezenas de eventos estão acontecendo este ano, principalmente em Nova York, Los Angeles e Kansas City, cidades onde Parker viveu, como tributo ao seu centenário. Este link é um bom guia para acompanhar, até porque, com a quarentena, muitas dessas atividades acontecem online.

Discoteca – Sites como Amazon e Discogs oferecem muitos títulos de Parker, entre CD e vinil, dos quais destacamos:

The Cole Porter Songbook (Verve), 1991

Diz ‘n Bird at Carnegie Hall (Roost) – Concerto com D.Gillespie, 1997

Ornithology – Classic Recordings 1945-1947 (Naxos), 2001

Charlie Parker With Strings (Verve), edição Deluxe, 2015 

The Savoy 10-inch LP Collection (Savoy), 2020

Jazz at Massey Hall (Prestige/Universal) – Já editado em inúmeras versões, inclusive com o apropriado título de “The Greatest Jazz Concert Ever”; Parker toca com Dizzy Gillpesie, Charlie Mingus, Bud Powell e Max Roach.

Streaming – E, para quem preferir ouvir música em formato digital, o Spotify traz todos esses e muitos mais de Parker com vários acompanhantes, inclusive um certo Miles Davis, que começou com ele em 1945 (pode ser ouvido no disco Savoy acima). Há ainda o que se pode chamar de “coletânea das coletâneas”: Charlie Parker Bird 100. São exatamente 100 faixas que resumem essa fantástica carreira. Clique aqui para ouvir: https://open.spotify.com/artist/4Ww5mwS7BWYjoZTUIrMHfC?si=AB29L0ndSpGD75mDK0UMpg 

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