Em março, foram iniciados oficialmente os testes da tecnologia 5G Broadcast no Brasil. Coube à rede de TV CNT, do Paraná, os primeiros testes de transmissão/recepção, inclusive com a presença do ministro das Comunicações (aqui, mais detalhes). Embora não seja uma tecnologia propriamente nova, seu potencial é tão grande (assim como suas implicações políticas e mercadológicas) que merece ser analisado com cuidado.

O 5G Broadcast chega exatamente no momento em que o país está introduzindo a TV 3.0, considerada a maior mudança tecnológica da década. Mas talvez possamos afirmar que o potencial revolucionário seja ainda maior. Afinal, essa é a tecnologia que permite levar o sinal da TV aberta (broadcast) para receptores móveis – sem fio e gratuitamente. Ou seja, um sinal que pode ser captado a qualquer hora em qualquer ponto do país.

Os leitores devem se lembrar do 1-Seg, tecnologia que propunha algo semelhante na década passada (recordando aqui). Em trânsito com seus celulares, as pessoas assistiam TV como se estivessem em casa – o sinal era precário e instável, comprometendo totalmente a experiência.

 

Acesso rápido e estável aos canais

5G Broadcast se baseia em protocolos muito mais eficientes e  robustos. O 5G que usamos hoje para chamadas de vídeo e acesso mais rápido à internet é o que tecnicamente se conhece como “unicast”: cada usuário recebe um fluxo de dados único, individual para cada aparelho (desculpem a redundância).

Se esse fluxo for compartilhado entre vários usuários, o sistema não está preparado para atendê-los. É o que acontece num grande evento ao vivo. Imagine uma final de campeonato: milhões de pessoas querem assistir ao mesmo tempo, o que exige milhões de fluxos separados. Essa sobrecarga consome muito espectro e derruba o sinal.

A solução está numa tecnologia broadcast/multicast: sinal de TV aberta, transmitido pelo ar e recebido em milhares ou milhões de aparelhos. O fluxo é único, e todos recebem simultaneamente e com a mesma qualidade. Esse é o princípio do 5G Broadcast, baseado numa tecnologia relativamente recente (foi introduzida na Coreia do Sul em 2013) chamada FeMBMS (Further evolved Multimedia Broadcast Multicast Service).

 

Smartphones atuais não são compatíveis.

Serão lançados modelos com antena, firmware

e sistema operacional diferentes.

 

Entre outras vantagens, o 5G Broadcast dispensa o uso de cartões ou chips do tipo SIM e não exige plano de dados com a operadora. Foi pensado originalmente para serviços públicos de emergência e aplicações de rádio digital, sendo depois incorporado a transmissões de TV. A Coreia do Sul é o país onde essa tecnologia vem se desenvolvendo mais rapidamente.

Smartphones atuais, mesmo os compatíveis com 5G, não são capazes de receber o sinal 5G Broadcast porque não têm suporte a FeMBMS. Com outras emissoras seguindo o exemplo da CNT e acelerando os testes de campo, a indústria de telecom irá lançar smartphones com antena, firmware e sistema operacional compatíveis. E certamente surgirão apps que rodam nesse sistema.

Neste ponto, preciso me estender no texto para explicar a polêmica que envolve fabricantes, operadoras e emissoras em torno dessa tecnologia. Não é tão simples quanto pode parecer. Na verdade, o 5G Broadcast chegou a ser cotado para fazer parte do DTV+, a TV 3.0 brasileira, mas foi descartado em 2023. Não houve consenso entre as partes, já que seu potencial êxito pode mexer com todo o mercado.

 

5G “concorrente” da TV?

Ficou para ser rediscutido e, quem sabe, regulamentado depois que o DTV+ estiver funcionando pra valer. A questão é que, para algumas emissoras, 5G Broadcast é um “concorrente” da TV 3.0. Se milhões de pessoas puderem acessar o sinal da TV aberta (gratuita) no celular, o que acontecerá com a audiência? E como reagirá o mercado publicitário, que é, em última análise, quem irá pagar essa conta?

Não foi por acaso que nos EUA, maior mercado do mundo, a ação das emissoras travou a implantação dessa tecnologia. A alegação é que o sinal 5G Broadcast pode causar interferências nas transmissões, algo que ainda não foi confirmado pelos testes.

Já na Coreia, primeiro país a lançar comercialmente a TV 3.0, 5G Broadcast é encarado como “complemento”, e não concorrente. Lá, operadoras e emissoras, incentivadas pelo governo, trabalham juntas para desenvolver uma arquitetura combinando redes móveis (5G) com ATSC 3.0. Seu desafio é reduzir a latência (atraso) na transmissão do sinal para celulares, algo que a própria tecnologia deverá resolver ao longo do tempo.

Daqui a alguns meses (ou semanas) saberemos os resultados dos testes realizados no Paraná, que confirmarão se o 5G Broadcast é mesmo viável no Brasil. Pode estar vindo aí uma outra revolução.

 

Orlando Barrozo é jornalista especializado em tecnologia desde 1982. Foi editor de publicações como VIDEO NEWS e AUDIO NEWS, além de colunista do JORNAL DA TARDE (SP). Fundou as revistas VER VIDEO, SPOT, AUDITÓRIO&CIA, BUSINESS TECH e AUDIO PLUS. Atualmente, dirige o site HT & CASA DIGITAL. Gosta também de dar seus palpites em assuntos como política, economia, esportes e artes em geral.

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