
“Você nunca pode desistir. Vencedores nunca desistem. E quem desiste nunca vence”.
Não, Ted Turner, que morreu na última quarta-feira aos 87 anos, nunca desistiu. Mas teve que se conformar quando o mundo dos negócios de mídia desistiu dele, após uma série de fracassos. Nada disso, no entanto, encobre o fato de que Turner foi um dos grandes visionários dos últimos 50 anos, capaz de mudar os rumos de um mercado (a televisão) em todo o mundo.
Fiz questão de incluir Turner em meu livro “Os Visionários – Homens que Mudaram o Mundo através da Tecnologia”, de 2011, após dois anos de pesquisa. Poucos na História mereceram ser chamados de “visionários” com tanta propriedade – alguém que enxerga um fenômeno ou tendência de mercado com anos, às vezes décadas, de antecedência.
Desafiando as grandes redes
Mereceu também a alcunha (um tanto maldosa) de “magnata”, que geralmente se dá a empresários ambiciosos, que crescem rapidamente e se mantêm no topo por muito tempo. A partir de uma pequena operadora de satélites em Atlanta, em 1970, Turner desafiou as grandes redes de TV americanas (ABC, NBC e CBS) espalhando redes via cabo e inaugurando a era da TV paga. Hoje, o cabo domina 90% das residências do país.
A operadora de Turner, chamada WTBS, tornou-se a primeira do mundo a adotar o conceito “superstation”, fornecendo conteúdos de vários canais ou produtoras independentes para as operadoras que, no final dos anos 70, começaram a se multiplicar pela América do Norte. Talvez seja difícil imaginar hoje, mas naquela época o sinal da TV aberta era de péssima qualidade – as afiliadas de uma rede sofriam com frequentes quedas no serviço.
Turner foi o primeiro que acreditou na TV por assinatura, com sinal estável e programação variada, o que deixou irados os donos das redes de então. Ele pregava que cada telespectador deveria poder escolher a “sua” programação, com serviços que depois viraram rotina, como VoD (video-on-demand), pay-per-view e outros acionados pelo controle remoto.
Um canal após o outro
Em poucos anos – além da HBO, que foi a primeira cable TV do mundo – havia dezenas de serviços similares. Alguns cresceram tanto que foram se fundindo com as próprias redes de TV aberta, caso de ABC Paramount, Fox e a maior de todas, Time-Warner. Em larga medida, o conceito criado por Turner foi replicado por marcas que se sustentam no mercado até hoje, como ESPN, HBO, Discovery e outras.
Turner foi criando um canal após o outro, quase todos com sucesso mediano: TBS (Turner Broadcasting Systems), TNT (Turner Network Television), Cartoon Network… até surgir, em 1980, o primeiro canal a cabo totalmente dedicado ao Jornalismo (sim, com “J” maiúsculo). Claro, estou falando da CNN (Cable News Network), um dos maiores cases de mídia da História. Transcrevo aqui um trecho do livro:
“Os primeiros cinco anos da CNN foram difíceis, com prejuízos seguidos e uma programação que nem de longe ameaçava as grandes redes. Em 1985, quando tentou comprar a CBS, então em grave crise financeira, Turner foi ridicularizado pela mídia em geral. O fracasso da tentativa pode ser atribuído, em grande parte, ao preconceito dos próprios jornalistas, especialmente os veteranos, que consideravam a CNN uma mera aventura”.
Duas paixões: tecnologia e jornalismo
Turner também era apaixonado por tecnologia e foi mestre em aproveitar inovações como o cabo coaxial, as câmeras com acesso à internet e as antenas miniparabólicas (dish) para espalhar seu império. Em 1986, a CNN foi a única emissora a transmitir ao vivo a decolagem e a explosão da nave Challenger, com imagens que até as grandes redes tiveram que reproduzir (exibindo o famoso logotipo CNN).
Empolgado, ele investiu em milhares de antenas e transmissores portáteis, empregando uma rede de jornalistas espalhados pelo mundo. Havia uma equipe da CNN em Pequim em 1989, na histórica manifestação de estudantes na Praça da Paz Celestial (foto). E outra no Kuwait, em 1991, quando o país foi invadido pelo exército de Saddam Hussein detonando a Guerra do Golfo.
Com proezas desse porte, a emissora de Turner alcançou algo que se pensava impossível: roubar audiência e prestígio das redes abertas, consolidando o mercado de cabo. Em paralelo, ele investia em cinema (comprou os estúdios da MGM em Hollywood) e em negócios voltados ao esporte, à defesa do meio ambiente e contra o uso da energia nuclear.
Se arrependimento matasse…
Foi o período de seu casamento com a atriz e ativista Jane Fonda, que durou 10 anos, quando fazia doações bilionárias, inclusive para programas sociais da ONU. Mas tudo começou a mudar quando ele fez o negócio que mais lhe causou arrependimento: a fusão com a Time-Warner, em 1996. Sua convivência com os executivos do grupo nunca foi amigável, mesmo ele ocupando o cargo de vice-chairman e sendo seu maior acionista.
Turner deixou a Time-Warner em 2006, com um prejuízo estimado em US$ 7 bilhões. Além de ter brigado com quase todo o mercado de mídia, ele ficou famoso ainda por sua oposição ferrenha ao Partido Republicano, a Israel e aos presidentes do período 1980-2008 (Reagan e os Bush, pai e filho). Apesar disso, fez questão de manter a CNN livre de interferências políticas.
E teve vários episódios de mau comportamento, como quando tentou agredir Rupert Murdoch, dono da rede Fox, sua concorrente, e até o desafiou para uma luta de MMA diante das câmeras! Veja aqui seu histórico divulgado pela CNN.
Além de tantas façanhas como empreendedor, esse visionário era também um grande frasista. Aqui, algumas de suas pérolas:
“É bom fixar metas que não estão ao nosso alcance. Assim, sempre temos algo para dedicar a vida”.
“Sei bem o que quero escrito no meu túmulo: ‘Não tenho mais nada a dizer'”.
“Precisamos fazer mais do que simplesmente impedir o gigantismo dos grupos de mídia. Precisamos de leis para desmembrar essas gigantes”.
“Quando comecei, em 1970, eu já sabia que a televisão tinha efeitos negativos sobre nossa sociedade”.
“Só porque sua audiência é maior não significa que você seja melhor”
“A guerra tem sido ótima para mim como negócio, mas não quero ganhar dinheiro dessa forma. Não quero dinheiro de sangue”.
“Os iranianos não se intimidam. São como os vietnamitas e os iraquianos. Você quer começar uma guerra contra eles? Daqui a 50 anos eles ainda continuarão lutando”.
“Os Estados Unidos possuem algumas das pessoas mais estúpidas do mundo”
“Mesmo que não existisse o efeito estufa, seria preciso fugir dos combustíveis fósseis. Eles são finitos, enquanto sol e vento são infinitos”.
“A mídia é muito concentrada. São apenas cinco grupos controlando 90% do que lemos, vemos e ouvimos. Isso não é saudável”.
“No dia em que o mundo acabar, nós da CNN estaremos fazendo a transmissão final. E ao vivo, para o mundo inteiro”.
E talvez a melhor de todas: “Se eu tivesse só um pouquinho de humildade, eu seria perfeito”.
