Por que Sony e Microsoft decidiram se unir nos games

 
Por Orlando Barrozo*
 
Sony (PlayStation) e Microsoft (Xbox) vêm há cerca de 15 anos travando uma dura batalha pela liderança do segmento que mais cresce na indústria eletrônica: games. Por isso, foi com espanto que muitos usuários – e também analistas de mercado – leram em maio a notícia de que as duas empresas estão trabalhando juntas. Oficialmente, trata-se de uma parceria para desenvolver plataformas de jogos na nuvem e por streaming.
Até mesmo integrantes da equipe de desenvolvimento do PS no Japão foram pegos de surpresa pelo acordo. Somente os dois CEOs, Satya Natella e Kenichiro Yoshida, além de alguns assessores próximos, sabiam das negociações. E é natural que tenham mantido segredo, porque as implicações dessa aliança são muitas, com potencial de revolucionar a indústria como um todo. E não estamos falando apenas das próximas versões dos consoles: PS5 e Xbox Scarlett (nome especulado, assim como Lockhart e Anaconda).
 
Jogos ao vivo na nuvem
 
O comunicado distribuído pelas duas empresas no último dia 20 de maio explica apenas em parte os motivos da parceria. A Sony ganha acesso à plataforma Azure, primeira iniciativa da Microsoft no mundo cloud. Com isso, a japonesa pode entrar em data centers espalhados por vários países para configurar os produtos PlayStation aos códigos Azure. Dessa plataforma nasceu o projeto xCloud, que permite aos usuários do Xbox fazer live streaming dos jogos para tablets e smartphones sem necessidade de conectar um PC, nem usar o console.
Para a Sony, a vantagem imediata é ganhar escala com sua plataforma PlayStation Now, que sofre por limitações na própria concepção – você só consegue jogar se tiver um computador ou um console PS. Num outro incrível erro estratégico, a fabricante japonesa criou o serviço PS4 Remote Play, que não pode ser acessado pela nuvem; somente alguns poucos dispositivos conseguem usá-lo. Tudo isso agora poderá ser integrado à cloud da Microsoft; ou, pelo menos, é o que se espera.
Há um consenso entre os especialistas de que os consoles, assim como os players DVD e Blu-ray, estão com os anos contados. Calcula-se que no máximo em uma década serão itens de colecionador. Como já sabem os fãs de música (Spotify) e de filmes (Netflix, Prime etc.), o nome do jogo, sem trocadilho, agora é cloud. Não é à tôa que o Google aposta no Stadia, seu serviço de streaming para games em alta resolução. 
 
Jogando com ou sem console
 
Em comunicado a investidores logo após o anúncio, Kenichiro Yoshida, CEO da Sony, justificou que o acordo com a Microsoft permitirá ampliar significativamente a base de usuários do PlayStation (ele chamou de “comunidade”), que poderão “curtir seus jogos com ou sem console, independente de tempo e lugar”. A empresa só quer ser cautelosa nessa transição porque, afinal de contas, o aparelho e sua biblioteca de jogos continuam sendo a maior fonte de receitas do grupo.
Já a Microsoft parece convencida de que a plataforma xCloud só faz sentido se for aberta a todo tipo de aparelho – e o PS é o console mais vendido do mundo. “Queremos tornar o mais fácil possível para os desenvolvedores disponibilizarem seus jogos para todos os usuários, com suporte para jogos existentes, aqueles atualmente em desenvolvimento e também jogos futuros”, disse o diretor do projeto xCloud, Kareem Choudhry, em entrevista ao site Xbox Wire.
Alguns analistas interpretaram a mudança de postura da empresa fundada por Bill Gates e Paul Allen como “medo de ameaças maiores” do que a Sony, hoje sua principal concorrente. Uma dessas ameaças atende pelo nome de YouTube. Recentemente, o site de vídeos – que, é bom lembrar, pertence à Alphabet, dona do Google – desativou seu canal de games, preparando o terreno para algo bem mais ambicioso: oferecer conteúdos para acesso em todos os tipos de navegadores e todos os modelos de smartphone, provavelmente com cobrança de assinatura.
 
Quem tem a melhor infraestrutura?
 
Outro boato cada vez mais ameaçador é a entrada da Amazon nesse jogo (trocadilho, de novo). A notícia vem circulando com insistência em sites especializados internacionais e, essa sim, não pegaria ninguém de surpresa. A empresa de Jeff Bezos é, de longe, a mais bem preparada para o negócio da nuvem, dona dos famosos mega data centers AWS, que já se contam às dezenas espalhados pelo mundo. Entre seus clientes atuais, destaca-se a Netflix, campeã mundial no quesito satisfação do cliente.
O modelo Netflix – assinatura de baixo valor, facilidade de acesso e biblioteca hiper variada – é o benchmark para todas as empresas que pensam em games como serviço em nuvem. Uma regra de ouro é minimizar a latência, que é o atraso na resposta aos comandos dos jogadores e que, por óbvio, pode comprometer toda a experiência. A solução para isso é manter data centers próximos às principais cidades, onde está a maioria dos gamers. De todas as empresas mencionadas, a Sony é a única que não pretende, nem pode, investir numa infraestrutura própria para isso.
 
FONTES: The Verge, Windows Central e Bloomberg 

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