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Sobre militantes e foras-da-lei

A palavra “militante” vem do verbo “militar” – do latim militare, derivado de militis, que é como os romanos chamavam seus soldados. Como estes, todo militante se define pela disciplina e obediência a um comandante. E quanto mais disciplinados e obedientes, maiores chances terão na carreira: medalhas, promoções, um emprego público aqui, uma mordomia ali…

Lênin, talvez o maior líder revolucionário da História, costumava chamar os operários e camponeses russos de “soldados”, para fazer contraposição ao sanguinário Exército do czar Nicolau II. Criou a primeira versão moderna de “milícia” (militia: em latim, “a arte da guerra”), grupos armados que já existiam na antiguidade, mas ao longo do século 20 ganharam o sentido de algo fora da lei.

Tudo isso para dizer que militantes político-partidários são aqueles que obedecem quase cegamente. Não importando as razões do chefe, estarão sempre ali, seguindo suas ordens. Citei Lênin de propósito, porque se atribui a ele a adaptação da famosa frase de Maquiavel – “Os fins justificam os meios” – na raiz dos movimentos que levaram à Revolução Russa de 1917. Valia tudo para derrubar o czar.

Não fosse por seus militantes, Lênin não teria chegado nem perto da Praça Vermelha, em Moscou. Como estrategista, não era grande coisa, mas teve o mérito de conquistar a massa literalmente “no grito”, por anos a fio, com voz firme e vibrante (e sem TV nem internet). Contou, claro, com a decadência do regime czarista, que ninguém aguentava mais. Talvez por falar tanto, e tão bem, não percebeu que um colaborador (Stálin) conspirava para tomar o poder, o que acabou se concretizando em 1922, quando Lênin caiu doente (sua morte, dois anos depois, até hoje rende suspeitas).

Mas é justo afirmar que, não fosse por Lênin, aqueles trabalhadores que fizeram a maior revolução do século 20 talvez não chegassem muito longe. É preciso que alguém fale pelos militantes, embora o líder, quase sempre, diga que fala “em nome do povo”. Como se sabe, militantes são apenas uma minoria, cega, embora barulhenta, que exerce o trabalho braçal: carregar cartazes, tomar chuva, repetir palavras de ordem (sempre as mesmas), pendurar retratos do líder nas paredes, essas coisas. Hoje, também ocupam as redes sociais.

Quem estuda a história dos últimos 100 anos percebe que todas as ditaduras tiveram seus militantes e/ou milícias, dispostos a tudo pelo chefe. Mao, Hitler, Franco, Perón, Getulio, Fidel, Khomeini, Chavez… há quem tenha saudade deles. Mas esses grupos não se formam apenas em regimes autoritários. No Brasil democrático, o exemplo mais vivo de militante é o dos petistas renitentes, aqueles que não debandaram após a vergonha que seu líder supremo os fez passar.

Custa a crer que alguém estudou durante anos, com inúmeras chances de compreender a História, e ainda se deixe levar assim, caninamente. Se camponeses e operários humildes costumam cair na conversa de um orador corrupto e inescrupuloso, não há desculpa para intelectuais que o fazem (outra do latim: intelectus, “inteligência”, “entendimento”). O educadíssimo povo alemão paga até hoje os dividendos afetivos de ter apoiado Hitler. E não vamos, por enquanto, falar de Donald Trump, na torcida para que esse seja apenas um hype de temporada.

Na prática, como vem sendo provado, líder e militante se merecem e se necessitam. Um não existiria sem o outro. O que os une não são ideias, mas a própria necessidade de mandar e de obedecer. Na inapetência para discutir e agir democraticamente, o líder dá ordens, entre palavrões, ameaças, mentiras e preconceitos; e os militantes cumprem, pois não conseguem pensar por conta própria.

Quando o líder se for, nada terão para colocar em seu lugar. Talvez não sobrem nem os retratos na parede.

Netflix no Palácio do Planalto

frank-underwood

 

 

As gravações contendo diálogos entre altas figuras do governo, inclusive a presidente, mostram que não estamos muito longe do ambiente de House of Cards. O diabólico Frank Underwood se materializa em personagens reais, talvez até mais maquiavélicos do que o próprio. Não é mera coincidência que a Netflix, para promover a recém-lançada 4a Temporada da série, venha usando teasers referentes ao noticiário político. Nesta quinta-feira, vimos mais um: o perfil da série no Twitter exibe Underwood “assistindo” sorridente à cobertura dos acontecimentos em Brasilia (vejam aqui).

Para não recorrer ao surrado “seria cômico se não fosse trágico”, lembro que algumas das trapalhadas do Planalto têm lá um quê de Brancaleone. Vejo amigos petistas constrangidos como nunca antes neste país, diante de tramoias como essa de arranjar um cargo para Lula no ministério tentando salvá-lo da prisão. E, pior, tentar pateticamente escondê-la!!!

Sim, é dramático, considerando o caos a que esse pessoal nos levou. Mas tenho esperanças de que, quando tudo passar e Dilma estiver bem longe de Brasilia, daremos boas gargalhadas, como fazemos hoje com nosso amigo Frank.

Para quem ainda não ouviu os citados diálogos gravados pela PF, aqui estão alguns deles.

Dia histórico para a democracia

Veterano da luta contra a ditadura militar e de eventos marcantes como o comício das Diretas Já (16 de abril de 1984, Praça da Sé, São Paulo), saí orgulhoso da Avenida Paulista neste domingo 13 de março de 2016. Passaram-se 32 anos até que a sociedade brasileira, enfim, se reencontrasse com um sentimento de revolta que é fundamental para a democracia de qualquer nação.

O que aconteceu nessas três décadas se assemelha a uma espécie curiosa de letargia. Voltamos, sim, a ter eleições diretas para presidente da República, mas elegeu-se em 1989 um dos maiores mentirosos da história. Na sequência, conseguiu-se conter o monstro da inflação (1994), o que foi saudado por quase todo mundo; e, no entanto, a estabilidade momentânea da moeda gerou certa euforia, que foi captada por um líder sindical midiático para, associado a fortíssimos setores da elite política tradicional, chegar ao comando do país (2002).

O resultado está sintetizado na crise dos últimos meses: governo e partidos políticos totalmente desacreditados, com as pessoas indo às ruas sem saber exatamente o que querem, mas manifestando vivamente aquilo que não querem. Pela primeira vez em 500 anos, os brasileiros conseguem fazer a ligação entre a corrupção e os dramas de sua rotina diária. Ficou dolorosamente claro que o dinheiro que some nos meandros de partidos, órgãos estatais e grandes empresas é o mesmo que falta em escolas, hospitais e na vergonhosa estrutura de serviços públicos.

Se houve ilusão na época em que um real equivalia a um dólar, artificialismo símbolo dos anos FHC, e quando do infeliz “espetáculo do crescimento” (Lula, 2006-2010), o amadurecimento da sociedade brasileira não deixa mais espaço a falsos milagres. O que se viu nas ruas no já célebre 17/03 foi não apenas um “basta” à corrupção, mãe de todos os descalabros perpetrados em nome do povo, mas um sonoro “xô” para práticas políticas que, desgraçadamente, nos acompanham há décadas, séculos.

Lula, Dilma e seus asseclas estão desmoralizados e talvez nem sobrevivam para disputar as eleições de 2018, mas isso não é suficiente para a maioria dos que participaram das manifestações de hoje. Quem ocupar o malcheiroso espaço deixado por eles terá de se comportar de modo muito diferente. Conchavos, que certamente continuarão existindo, estarão agora sob o olhar clínico e implacável da comunicação online. Mensagens instantâneas, compartilhamentos, selfies e até memes na prática neutralizam a ação dos políticos tradicionais. E a mídia, também ela acossada pelas novas tecnologias, já percebeu que só sobreviverá se souber se adaptar a esse mundo de pernas menos curtas.

Não, a internet não está imune à demagogia e à empulhação. Mas escancara essas práticas à enésima potência, desnudando supostos carismas e segundas intenções. Posso estar sofrendo de otimismo excessivo, e espero não ter de corrigir este comentário em futuros posts. Mas o grito das ruas agora reverbera em frequências digitais. E esse é um ótimo motivo para ter esperança.

Big data da corrupção brasileira

“Podemos seguir, de vazamento em vazamento, como se tivéssemos nas mãos um controle remoto de TV ou uma tecla do computador. E dormir, em seguida, como fazemos todas as noites. A visão é, ao mesmo tempo, um privilégio ou uma armadilha. Depende da nossa escolha.”

O parágrafo encerra mais um brilhante artigo de Fernando Gabeira sobre a situação do país. Claro que não pedi autorização a ele, mas mesmo assim reproduzo a íntegra abaixo. Vale como reflexão. Gabeira, jornalista de profissão e eterno militante político, sempre dá o que pensar – embora eu particularmente não concorde com muitas de suas posições, nem goste de seu programa de TV. No caso, a reflexão é: o que estamos fazendo nós, diante das denúncias que não param?

Há um big data dos trambiques, que precisa ser decifrado pelos brasileiros. Como pano de fundo, amizades de décadas já foram desfeitas pelo clima de rancor e preconceito que parece ter tomado conta da sociedade. Ofensas se tornaram rotina nas redes sociais, como as placas de “aluga-se” ou “vende-se” em casas e edifícios. A crise é econômica (ainda que amplificada pela mídia) e também moral (no sentido de que acusar e mentir, repetidamente, virou o esporte mais praticado no país). Já temos tanta violência, e pessoas decentes se apequenam a ponto de propor mais violência ainda!!!

Fico me perguntando o que será menos defensável, do ponto de vista ético: participar de um delito, depois se arrepender e denunciá-lo? Ou não participar, mas compactuar e tentar encobri-lo? Quem quer ser o primeiro a responder?

Agora, com a palavra, Fernando Gabeira:

“O primo do ex-deputado pernambucano Pedro Correia foi visitá-lo na prisão em Curitiba. O relato da visita, numa entrevista ao programa “Geraldo Freire”, é interessante. Clóvis Correia, o primo, é também juiz de direito. Ele sempre aconselhou Pedro a fazer delação premiada. Os advogados não queriam. O primo constatou, com alegria, que Pedro, finalmente, decidiu fazer uma delação premiada, contando tudo o que sabe, desde o período Sarney.
“Segundo o visitante da cadeia de Curitiba, os policiais e procuradores trabalham sem parar porque há uma fila de delatores, inclusive alguns que virão de outros escândalos, como o publicitário Marcos Valério. Ainda não houve tempo para ouvir as histórias de Pedro. O primo Clóvis afirma que, apesar das barbaridades do PT, seria interessante ele contar tudo para se traçar um panorama da corrupção desde a retomada da democracia.
“Um dia, Pedro falará e ficaremos sabendo, aos pouquinhos ou de uma vez só, tudo o que ele fez e conseguiu ver ao longo dos anos em que esteve perto do poder. A entrevista do primo de Pedro me faz voltar à suposição original de que já temos muitas informações sobre os escândalos no Brasil. Não só falta tempo para processá-las, cruzando atenciosamente os dados, como para completá-las, pois o fluxo não cessa com a fila de delatores e o desdobramento de suas confissões.
Nunca se soube tanto. Até as chances de alguém ter feito a fortuna que Eduardo Cunha declarou foram calculadas: uma em 257 septilhões. É possível demonstrar matematicamente que Eduardo Cunha é mentiroso. Jamais me daria a esse trabalho.
“Para quem ouviu falar no Big Data, este oceano de informações que o mundo digital proporciona, fica sempre o temor de que a atração do jogo de dados acabe ofuscando os objetivos. Pode-se trabalhar indefinidamente, com números, conexões, novas hipóteses. Mas as grandes empresas são pragmáticas. Toda vez que ligo o computador aparecem na timeline anúncios de produtos que pesquisei como comprador.
“É inegável que trabalhar com uma grande quantidade de números e relações entre eles pode sempre levar a novas descobertas. Mas é preciso não se perder na floresta. Os dados da Lava-Jato nos chegam aos pedaços. O PT usa isso para afirmar que são vazamentos seletivos. Mas, em termos de partidos, eles já alcançaram quase todos os grandes, inclusive o PSDB. Não se passa um dia sem que algo seja acrescido. As informações se bifurcam, se entrelaçam, iluminam com sua pequena centelha outros cantos escuros da sala.
“Temo que tenham se tornado uma distração. Tenho vontade de perguntar aos procuradores: se as chances da fortuna de Cunha forem apenas uma em 300 septilhões, vocês o prenderiam? É preciso um número redondo para fechar a conta? Para que servem os dados se não levam às consequências? No caso mais amplo do Petrolão é fantástico supor uma quadrilha organizada apenas por José Dirceu.
Acossado pelo processo do Mensalão, preso durante algum tempo na Papuda, é preciso imaginar um vilão de história em quadrinhos para supor que José Dirceu coordenou sozinho o assalto à Petrobras. Onde estão os outros? Onde está Lula, onde está Dilma, onde está o restante da cúpula do PT?
“Um dos grandes problemas do acúmulo de dados é a maneira de associá-los, de buscar as conexões corretas para responder aos enigmas. O computador não resolve sozinho. Se Janot precisa demonstrar que as chances de Cunha não ser bandido são uma em 257 septilhões, quanto septilhões precisaremos para enquadrar Dilma e Lula?
“Sérgio Moro, que não é suspeito de partidarismo como Janot, já disse que não há nada contra Lula, embora os vazamentos, aqui e ali, indicam que há quase tudo contra ele, desde a escolha dos dirigentes da Petrobras à própria montagem do esquema de rapina. O último vazamento foi a delação de Cerveró. Uma cópia, segundo as notícias, teria sido encontrada na gaveta de Delcídio Amaral.
“Não só as delações premiadas como o avanço na tecnologia nos enchem de dados novos. Em tese, posso concluir através deles que, em 22 % dos contratos os corruptos celebraram tomando o vinho Angelica Zapata ou que suas mensagens eletrônicas cresciam 46 % no horário noturno. E daí? Se não tentamos responder às perguntas certas vamos mergulhar nos dados com a mesma alegria com que o velho time do América tramava seus ataques diante do gol. Lindas e complexas jogadas. Ninguém chutava para marcar.
“Isso vale para todos nós. Muitos divulgaram que Cerveró denunciou Wagner por ter financiado sua campanha construindo um prédio da Petrobras em Salvador. Ninguém foi lá saber que empreiteira construiu o prédio, se é correta a indicação de Cerveró. Um novo vazamento ofuscou o primeiro. Agora é um negócio entre Wagner, OAS e fundo de pensão dos funcionários da Caixa.
“Podemos seguir, de vazamento em vazamento, como se tivéssemos nas mãos um controle remoto de TV ou uma tecla do computador. E dormir, em seguida, como fazemos todas as noites. A visão é, ao mesmo tempo, um privilégio ou uma armadilha. Depende da nossa escolha.”

Lei de incentivo à pilantragem

Toda crise, por mais dura que seja, traz algum efeito positivo. Podemos colocar nessa categoria à volta do debate sobre a Lei de Incentivo à Cultura, mais conhecida como Lei Rouanet, em “homenagem” ao ministro da Cultura que a aprovou, em 1991 (governo Color). Poucas leis no Brasil foram tão deturpadas em seus objetivos, servindo a uma variada leva de enganadores autoidentificados como “produtores culturais”.

Dois exemplos divulgados recentemente: o Fluminense (isso mesmo, o clube de futebol) conseguiu usar os benefícios da Lei Rouanet para produzir um documentário sobre a história do clube (detalhes sádicos aqui). E a empresária Ana Luiza Trajano obteve R$ 512 mil em incentivos para publicar…. um livro de receitas (a moça é herdeira da rede Magazine Luiza).

A lista de aberrações é enorme (algumas foram listadas neste site). Esta semana o Tribunal de Contas da União decidiu proibir o uso dessa lei para financiar eventos com fins lucrativos, pois é exatamente isso que vem acontecendo. Parece tão óbvio, mas o Ministério da Cultura continua autorizando o uso de um trambique chamado “Fundo Nacional de Cultura” para empresas, entidades e artistas que não precisam. Segundo o ministério, foram mais de R$ 5 bilhões de renúncia fiscal nos últimos quatro anos! Vale lembrar que esse fundo foi criado para apoiar artistas e produtores que não têm como financiar seu trabalho. Como tantos outros fundos públicos, perdeu-se pelo caminho…

O exemplo referido pelo TCU não poderia ser mais emblemático: o Rock in Rio, um dos eventos mais badalados do planeta, captou nada menos do que R$ 6 milhões em patrocínios, sendo que um terço desse valor pode ser deduzido do imposto de renda dos patrocinadores.

Direita e esquerda, volver!

A esta altura do campeonato mundial, parece haver pouca dúvida de que, no campo das ideias, o planeta está perdido, não? Que me lembre, a última – digamos assim – grande causa que inventaram foi a do meio ambiente. Isso lá pelos anos 60, mas aí veio o pessoal do marketing e empacotou tudo para consumo rápido. OK, o ser humano nunca foi mesmo de olhar em torno e notar o estrago que vem fazendo há séculos. Só que passaram-se 50 anos e o máximo que se constata é que existe mais comida orgânica (já li que faz mal, ou não faz tão bem quanto se dizia).

Agora, quando se fala em ideias, difícil pensar em dois conceitos mais desacreditados do que “direita” e “esquerda”? Saí do cinema pensando nisso após assistir a Trumbo, o filme sobre a vida de um dos maiores roteiristas do cinema americano. Além de ótimos roteiros (alguns geniais: Spartacus, Johnny Vai à Guerra, Papillon, O Homem de Kiev), Dalton Trumbo entrou para a história como principal perseguido pelo macarthismo, campanha que assolou Hollywood no final da década de 1940.

Joseph McCarthy, senador que liderou o movimento e acabou lhe dando o nome, acusava os comunistas de querer “destruir a América”. Trumbo, que pertenceu ao Partido Comunista americano, criticava abertamente o sistema capitalista, embora se beneficiasse dele cobrando caro por seus roteiros. O filme é ótimo e, dizem, o livro é melhor ainda. Brian Cranston, aquele do Breaking Bad, está magistral no papel-título, e seus coadjuvantes idem, especialmente Helen Mirren no papel da jornalista Hedda Hopper, que enxerga esquerdistas até debaixo da cama.

Naqueles tempos, sabia-se muito bem: “comunista” era de esquerda, e “capitalista”, obrigatoriamente, de direita. Hoje, será? Fidel Castro, o ditador que está há mais tempo no poder, será mesmo “de esquerda”? Lula, após tantas mutretas, também? Mas a esquerda não surgiu, com Marx, justamente para libertar os pobres e oprimidos? E Putin, o ex-agente da KGB que manda envenenar desafetos: direita ou esquerda? Obama, que reatou relações com Cuba e com o Irã e retirou as tropas do Iraque e do Afeganistão: de que lado está? E o Mandela, que liderou a reconstrução (capitalista) do país mais rico da África? A lista é enorme.

Quando ouço ou leio alguém se dizer “de direita”, e vociferar contra o PT, só não caio na gargalhada porque temo que esse pessoal volte a ter os poderes que teve no passado. Mas, diante de quem se define como “esquerdista, por uma questão de convicção”, só consigo pensar em trambique.

Quem topa defender bandidos?

“A democracia é um péssimo sistema político. Mas todos os outros são piores”, dizia Winston Churchill, líder político britânico durante a 2a. Guerra e um dos maiores frasistas de todos os tempos. Lembrei da frase ao ler, durante as férias, o artigo reproduzido abaixo, de autoria do cineasta José Padilha, autor de Tropa de Elite, Narcos e outros sucessos polêmicos. Saiu publicado na Folha de São Paulo em novembro e, como tantos outros, estava guardado aqui no meu computador.

Em mais uma semana repleta de denúncias de corrupção, é difícil fugir do tema. Já se passaram dez anos que o país vive essa tormenta, e pela primeira vez as pesquisas apontam que a maioria da população se preocupa. Parece que, finalmente, está percebendo a relação existente entre os desvios de dinheiro (que todo mundo sempre achou tão “normais, fazer o quê?”) e os problemas econômicos. Afinal, não é fácil perder o emprego, ou ter que cortar comida da mesa dos filhos, enquanto se assiste pela TV às barbaridades que esses políticos vêm cometendo.

Tenho amigos de diversas crenças políticas, e alguns se dizem “decepcionados” com o PT, que supostamente teria surgido para combater essas práticas (a propósito, leiam este outro artigo, do escritor Luiz Ruffato); outros amigos simplesmente fogem do assunto; e há aqueles, acreditem, que ainda se dispõem a defender os bandidos do PT, sob a alegação de que os bandidos dos outros partidos são piores. Lamento por todos!

E aí é que, a meu ver, entra José Padilha para lembrar que democracia não significa apenas voto. Não importa em quem você vota, ou votou. Democracia precisa ir muito além, tem que ser praticada no dia a dia. Sua importância deve ser ressaltada e repetida milhares de vezes, quantas forem necessárias, principalmente para jovens e crianças que nunca viveram sob uma ditadura, para que as pessoas a incorporem. Em tempo: esses infelizes que vão às ruas pedir a volta dos militares também não caberiam na definição de bandidos? Enfim, com a palavra o Padilha:

“A maioria das pessoas acredita que a democracia é a melhor forma de se escolher um governante. A maioria está errada, posto que alguns facínoras, como Hitler, foram eleitos democraticamente. A democracia não se justifica como um processo de escolha, mas sim como uma forma pacífica de se promover alternâncias no poder.

“Como observou o filósofo Karl Popper, onde não há democracia os maus governantes ficam no trono até serem afastados de forma violenta, a um enorme custo social. Assim, a democracia é fundamental.

“Além disso, a democracia incorpora a metodologia da ciência à atividade política. Nos países com partidos de ideologias claras, a população pode avaliar os resultados práticos das políticas públicas e votar ou não pela permanência desta ou daquela ideologia no poder. A repetição desse processo tende a selecionar a forma de governo mais adequada para determinada sociedade.

“Em suma, a democracia confere vantagens competitivas significativas para quem sabe aplicá-la, e não é à toa que as sociedades mais desenvolvidas têm aparatos legais destinados a preservar seu bom funcionamento. Monopólios, oligopólios e leis inadequadas para o financiamento de campanhas desvirtuam o processo democrático. Concentração de mídia e riqueza promove distorções nas campanhas eleitorais.

“A corrupção é especialmente danosa. Nos países em que grupos políticos hegemônicos a praticam de forma sistêmica, cria-se um círculo vicioso. O sucesso eleitoral garante o vilipêndio dos recursos públicos e o vilipêndio dos recursos públicos garante o sucesso eleitoral.

“Nesses países ocorrem dois fenômenos. Em primeiro lugar, há pouca alternância de poder. Em segundo, as alternâncias acontecem depois de crises econômicas agudas, quando o estrago da corrupção chega a tal ponto que nem as vantagens conferidas por ela garantem mais as próximas eleições.

“O custo social e institucional desse processo é elevado. Político que rouba para financiar campanha comete crime ainda mais grave do que o político que embolsa “pixuleco”. Fraude à democracia não é atenuante, é agravante.

“Existem ainda formas indiretas de fraudar a democracia. Um governante que frauda a Lei de Responsabilidade Fiscal de um país, seja pela emissão descontrolada de moeda ou por artifícios contábeis, para ganhar eleições imputa o custo de sua campanha a toda a população.

“Além de viciar o processo eleitoral e de gerar crises econômicas agudas, a impede que a democracia promova a correta avaliação das políticas públicas.

“Por exemplo: ao votar no PT, os brasileiros escolheram manter a estatização da exploração do petróleo. Hoje, apesar de monopolista, a Petrobras tem uma dívida de R$ 500 bilhões e suas ações se desvalorizaram incrivelmente. Isso significa que o petróleo não pode ser estatizado? Não necessariamente, posto que o PT promoveu um tal nível de corrupção na Petrobras que é difícil separar os efeitos da estatização dos efeitos negativos da corrupção.

“Quando uma democracia se torna extremamente corrupta, como aconteceu no Brasil, o melhor que os agentes sociais podem fazer é colocar suas divergências ideológicas temporariamente de lado e unir forças para punir exemplarmente quem corrompeu o país e o processo eleitoral.

“Defender políticos sabidamente corruptos por questões ideológicas, –ou para não dar o braço a torcer– é trabalhar contra a democracia. Aqueles que não têm a grandeza de espírito para colocar a lisura do jogo democrático à frente das preferências ideológicas lutam pela escravidão pensando estar lutando pela liberdade.”

Olimpíada 2016 e o efeito 7×1

O amigo e colega Luiz Ruffato, premiado escritor, não foi nada irônico ao escrever no site do El País que a maior herança que a Copa de 2014 nos deixou foi, talvez, o zika vírus. Foram os turistas estrangeiros que o trouxeram naquele ano, segundo o então ministro da Saúde. Pode ter sido exagero. Há outros legados.

Quem consulta os dados oficiais pode ficar animado, como neste exemplo. Mas, como no caso do estádios da Copa, as contas não estão fechando. A Prefeitura entrou em disputa judicial com uma das construtoras contratadas, que atrasou obras e demitiu funcionários. Os valores envolvidos ainda terão que ser apurados pelos órgãos de fiscalização, mas provavelmente só depois do evento, como geralmente acontece. Este levantamento dá uma boa ideia do alarme.

Há também problemas trabalhistas, que só vêm se agravando com a crise econômica, como mostra esta reportagem da BBC Brasil. Infelizmente, nada disso é novidade. Porém, se a Copa ainda ocorreu num momento de ilusória euforia, alimentada por certos governantes e uma parte da mídia, a Rio-2016 terá que acontecer num ambiente completamente diverso. Talvez não tenhamos um novo 7×1, mas, com tanta notícia ruim, quem se arrisca a dar palpite?

Brasileiro, profissão: Esperança

O título acima é de uma peça teatral de sucesso nos anos 60/70, escrita por Paulo Pontes, então casado com a grande Bibi Ferreira. Em plena ditadura militar, ele criou uma série de metáforas para descrever o povo brasileiro e sua eterna crença de que, se Deus quiser, tudo se arranja. Vivíamos o auge do “país do futuro”, esse mesmo futuro que até hoje não chegou.

Lembrei da peça ao ler um ótimo artigo da jornalista Eliane Brum no site brasileiro do jornal El País. Sob o título Em defesa da desesperança, ela analisa o ano de 2015, e projeta 2016, com olhos de quem embarcou na canoa furada do lulismo e hoje se arrepende. Se o brasileiro sempre acreditou, é hora de lutar mesmo sem ter mais esperanças de que as coisas mudem, ensina a autora. Se acreditou em seus políticos, tanto que os colocou no poder como aí estão, seria agora tempo de deixar que as coisas se resolvam, talvez naturalmente. Afinal, Lula e o PT eram a “última esperança”.

Quis escrever este primeiro post do ano tratando do assunto (esperança) na pretensão de me reanimar para o ano novo, já que o velho foi desanimador. E também porque, nunca tendo votado em Lula (no PT, somente uma vez), não guardo desilusões. Não vejo, portanto, motivos para aposentar a expectativa, e o desejo, de que nosso país forje um destino diferente. Ao contrário, com todos os pesares, os últimos anos revelaram algo que foi um sonho da minha geração: a força da Justiça, ainda que aos trancos.

Até 10 ou 15 anos atrás, ninguém imaginaria que um político ou empresário importante pudesse ser preso (e permanecer na cadeia). É, ainda faltam muitos, mas não custa lembrar que pessoas assim já atuavam descaradamente há décadas, séculos, e raramente foram incomodadas. E que, se antes a palavra final era dos generais, hoje temos que nos curvar a juízes. É um salto e tanto (a propósito, leiam esta carta da Associação dos Juízes Federais, divulgada no fim de semana).

Para encarar este ano, e os próximos, tomo emprestado um pensamento de Millôr Fernandes: fora do ser humano, não há salvação. Brasileiros, com ou sem esperança, mãos à obra!

Como é viver num país rico

dinamarca (35)Ainda algumas reminiscências sobre minha curta visita à Dinamarca. Foram apenas dois dias, o suficiente apenas para algo como “primeiras impressões”. Gostaria de voltar lá com mais tempo, para conferir se é isso mesmo. Vale a pena mencionar que, com apenas 5,6 milhões de habitantes, a Dinamarca é um dos países mais ricos do mundo, com renda per capita de quase US$ 57 mil – para comparação: os EUA têm US$ 53 mil, a Coreia do Sul US$ 24 mil e o Brasil, US$ 11 mil.

Os dinamarqueses estão entre os líderes nos principais rankings mundiais de desenvolvimento, como os de igualdade de renda (1° lugar), não violência (2°), não corrupção (1°). Segundo a revista americana Forbes, é o melhor país do mundo para se fazer negócios, o que é notável considerando seu tamanho. E até recentemente era considerado o “país mais feliz”, posto que perdeu para a Finlândia. Trata-se de uma monarquia capitalista, com fortes traços social-democratas, que cobra altos impostos mas garante os melhores indicadores de educação, saúde e assistência social do planeta.

Mais do que os números, porém, falam alto o comportamento do povo dinamarquês e uma verdadeira obsessão por não deixar cair seu padrão de vida. Ao contrário do que possa parecer, não há milionários na Dinamarca. Os poucos que se conhece fazem questão de uma discrição difícil de entender para um brasileiro ou um americano, por exemplo. Na capital Copenhagen, com seus 1,3 milhão de habitantes, não se vêem lojas de grife nem carrões. “Somos um grande país, mas não um grande mercado”, me disse um funcionário da empresa Bang & Olufsen, que visitei na semana passada. Simbolicamente, os produtos dessa marca estão entre os mais caros do mundo; portanto, vendem muito pouco no próprio país.

Deputados, empresários e até a primeira-ministra dirigem seus próprios carros e almoçam/jantam em restaurantes comuns, acessíveis a qualquer cidadão. Existem leis severas para garantir não apenas as liberdades individuais, mas também igualdade de renda, inibindo democraticamente qualquer tipo de ostentação. E também é rigoroso o controle da imigração: os dinamarqueses não querem ver seu território invadido, como acontece em vários outros países da Europa ocidental. Não querem colocar em risco tudo que esse pequeno país nórdico conquistou em seus quase 20 séculos de existência.

Só o ódio desconstrói

Desconstruir: esse parece ser o verbo do momento na política brasileira. Após anos de um dualismo atroz, em que só se podia ser contra ou a favor, sem meios termos, surgiu aquilo que os cientistas políticos chamam de “terceira via”. E poucos, ao que parece, estavam preparados para lidar com o fenômeno. Assim como os protestos de junho de 2013 apanharam quase todo mundo no contrapé de suas falsas certezas, o surgimento de uma candidatura, digamos, fora do esquemão modorrento das últimas duas décadas move os dois lados hegemônicos na mesma direção: desconstruir a personagem que simboliza essa ruptura.

Era para ser Eduardo Campos, mas quis o destino que esse protagonismo coubesse a Marina Silva, figura desde sempre polêmica. O link entre Marina e as manifestações populares do ano passado é inescapável: nas ruas, as pessoas gritavam por uma “nova política”, algo que não se limitasse a repisar os hábitos danosos que, inertes, nos acostumamos a ver. Os partidos políticos e seus caciques, todos, viram-se à margem de um movimento que até hoje não nomeou líderes. Estes, se houve, simplesmente captaram no ar uma mudança de humor que agora desemboca na mais imprevisível campanha eleitoral das últimas décadas.

Marina está longe de ser desconhecida. Projetou-se desde a morte de Chico Mendes como herdeira de uma nova forma de enfrentar a questão ambiental. Acomodou-se no PT, o partido que então acenava com os horizontes mais promissores para levar essa luta adiante. Talvez ingenuamente, acreditou que Lula e seus asseclas falavam a sério quando prometiam platitudes como justiça social, fim da miséria, direitos humanos etc. Acabou escanteada no partido e, defendendo as cores do PV, obteve mais de 20 milhões de votos para presidente em 2010.

Sabendo de sua força, o PT fez o que pôde para evitar que ela se candidatasse novamente. E o plano talvez ficasse bem ajustado, não fosse aquele acidente de avião… A ordem agora, portanto, é apagar tudo de meritório que Marina possa ter feito no passado e vilanizá-la até onde possível.

Por esse script, não existe mais a ambientalista que combatia o desmatamento e defendia políticas de incentivo às energias limpas; talvez uma ativista aguerrida, mas confusa em seus métodos e sem jogo de cintura para negociar. Saiu de cena também a companheira batalhadora, de origem humilde e que subiu na vida por esforço próprio, alfabetizada já quase em idade adulta; em seu lugar, tentam colocar uma oportunista que traiu Lula e usou o partido como trampolim para suas ambições pessoais. Se Marina acena com a possibilidade de dar autonomia ao Banco Central, como fez Lula com Henrique Meireles, isso significa “entregar o país aos banqueiros”.

Assim, quase cirurgicamente, Marina Silva vai sendo desconstruída, num roteiro traçado pela pior espécie de marketing político, aquele em que não se vendem qualidades de um candidato (até porque, no momento, estas são quase inexistentes), apenas defeitos de seu adversário. Qualquer estudante de comunicação sabe que, do ponto de vista conceitual, trata-se de estratégia tão débil quanto arriscada. O fato de Marina ter entre seus assessores uma figura como a premiada educadora Neca Setubal, que até recentemente prestava assessoria ao PT, de repente é levado ao distinto público como ameaça. Afinal, dona Neca é herdeira do Banco Itaú!!! Difícil imaginar teoria mais desconectada da realidade. Custa crer que se queira enganar o público com esse tipo de desaforo.

Evidentemente, a palavra final caberá aos eleitores. Mas é sintomático que, 25 anos após a primeira eleição direta para presidente, o país ainda tenha que conviver com os mesmos métodos eleitorais. Se isso é tudo que os “dois lados” têm a oferecer (embora menos grosseiro e odioso, o PSDB não fica muito atrás nesta campanha), então será o caso de reafirmar-se a necessidade da tal terceira via. No mínimo, para que se mudem os odores políticos no ar. Os atuais são cada vez mais insuportáveis.

Iludidos pela bola

Entre tantas frases e personagens geniais, Nelson Rodrigues criou o Imponderável de Almeida, jogador fictício que, segundo Nelson, entrava em campo nos momentos mais inesperados para decidir os jogos. Há outra frase, esta atribuída a Paulo Francis: “O otimista não passa de um mal informado”. Puxo aqui pela memória os dois grandes jornalistas para tentar entender o que aconteceu com a seleção brasileira na Copa.

Depois de ler e ouvir várias interpretações e explicações, chego à conclusão de que o “craque” inventado por Nelson entrou no Mineirão na semana passada para fazer soar um alarme. Como bem lembra o economista Eduardo Gianetti, o país todo cometeu um “autoengano”, deixando-se iludir pelo marketing político/esportivo e pelo falso patriotismo – nossos atletas foram, de longe, os que melhor souberam cantar o hino antes das partidas. Esqueceu-se o mais importante: não temos jogadores, muito menos time.

Como aquele devoto fervoroso que vai à igreja todo domingo e na segunda-feira sonega impostos ou tenta passar a perna num cliente, os brasileiros acharam que era possível ganhar, literalmente, no grito (o grito do hino que a torcida encampou, a capella, em todos os jogos) ou na malandragem. O “sou brasileiro, com muito orgulho” soou como contrafação do velho “Prá frente Brasil”, que por sua vez era filho dileto do jurássico “Deus é brasileiro”.

A torcida, dentro e fora dos estádios, entrou no clima das campanhas publicitárias que se repetem em toda Copa, abençoadas com generosas verbas públicas e, claro, combinadas alegremente com a cobertura ufanista da mídia – sim, essa mesma que no dia seguinte aos 7×1 já estava crucificando jogadores e comissão técnica.

Enfim, o triste espetáculo foi encenado, como virou rotina a cada quatro anos, e, fora da cena, poucos se lembraram de reparar que o futebol brasileiro nesta Copa não foi muito diferente do que temos visto há anos. A seleção de Felipão em 2014 pouco fica devendo à de Dunga (2010) e à de Parreira (2006). E, se formos mais atrás no tempo, encontraremos seus clones com Telê em 1986 e Lazaroni (1990). Mesmo as campeãs de 1994 e 2002 estiveram longe de empolgar.

Está mais do que provado que, em vários campos fora do futebol, o Brasil mudou – para melhor ou pior, dependendo do ângulo de análise. No futebol, como na música (só para citar um exemplo), poucos duvidarão que pioramos miseravelmente. Basta ligar a TV num domingo qualquer e comparar um jogo mediano da Premier League inglesa ou da Bundesliga alemã com outro do Campeonato Brasileiro para, mesmo sem ser especialista, enxergar o abismo que nos separa dos europeus. Sim, lá eles também têm seus problemas, mas estão aprendendo a resolvê-los: recentemente, o presidente do Bayern de Munique foi condenado a três anos de prisão por trambiques nas finanças do clube (e está preso mesmo!).

Quando os brasileiros pararem de encarar o futebol como algo semelhante a um tapete, que encobre nossos variados tipos de lixo (humano, inclusive), talvez encontremos a saída. Recorro agora a dois outros grandes jornalistas e cronistas, estes da nova geração, que me encantaram com textos sensíveis sobre a vergonha que o futebol acaba de nos fazer passar. Cada um a seu estilo, Eliane Brum e Antonio Prata me representaram em suas agudas observações.

Mais do que levantar a poeira e dar a volta por cima, como propõe a presidente Dilma, talvez esteja na hora de aprender a “torcer sem distorcer”. Responsáveis pelas derrotas vergonhosas somos todos os que cultuamos a fé e o otimismo desmedidos, como se fossem exclusividades brasileiras, e esquecem que o craque Imponderável de Almeida está sempre pronto a entrar em campo. Especialmente quando a arrogância se sobrepõe ao talento e ao esforço verdadeiros.

Futebol, educação e ciência

No dia seguinte à histórica derrota brasileira contra a Alemanha, a Folha de São Paulo, refletindo sobre mais um trauma que se abateu sobre a “pátria de chuteiras”, publicou interessante artigo do físico André Luis Parreira, diretor da empresa americana Hiperlab, que fabrica equipamentos científicos. Graduado e mestre em escolas brasileiras, Parreira levanta uma questão que passa longe das conversas sobre a perda de mais uma Copa do Mundo. A verdadeira “goleada” da Alemanha, diz ele, vem sendo aplicada há décadas, em itens como ensino, cuidados com a ecologia, investimentos em energias renováveis e gestão racional dos recursos públicos – sem falar em seus artistas, escritores, filósofos e, principalmente, todo o esforço de reconstrução do país após perder duas guerras mundiais em menos de vinte anos. E sem esquecer que, além disso tudo, os alemães também são fanáticos por futebol e adoram uma cerveja. Tomo a licença de reproduzir o artigo abaixo, como contribuição àqueles que se queixam por nossa seleção não ter se preparado adequadamente para ganhar a Copa.

A GOLEADA PARA A ALEMANHA

Sua respeitada ciência, sua história de reconstrução, a economia robusta, os automóveis e, mais recentemente, a energia renovável fazem a Alemanha estar sempre presente em nossas rodas de conversa. Lá, um povo apaixonado por futebol e cerveja consegue grandes placares também fora do campo.

Por aqui, em 26 de junho e em ritmo de Copa do Mundo, foi sancionado pela Presidência da República o Plano Nacional de Educação (PNE). A meta mais comentada, embora não a mais relevante, tem sido a de se destinar 10% do PIB (Produto Interno Bruto) à educação em dez anos. Hoje, são investidos 6,4%.

Felizmente, há outras metas previstas no PNE, pois somente esse aumento do investimento, ainda que significativo, não será suficiente para alcançarmos placares de patamar alemão ou de qualquer outro país que seja destaque educacional. Podemos concluir isso com a projeção de alguns números recentes do relatório “Education at a Glance”, da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Proporcionalmente, destinar 10% do PIB à educação faria o investimento médio por estudante saltar de aproximadamente US$ 2.900/ano para cerca de US$ 4.500, o que ainda fica muito aquém dos US$ 10 mil/ano investidos pela Alemanha.

O salário inicial médio de um professor de educação básica no Brasil passaria dos atuais US$ 5.000/ano para US$ 7.500 contra US$ 30 mil/ano na Alemanha. Como exigir cada vez mais anos de estudo e qualificação dos professores quando se oferece tão pouco?

Mas o investimento ainda terá que dar conta de outra triste realidade: a precária estrutura para o desenvolvimento de uma educação de qualidade para a ciência. Já tive a oportunidade de visitar escolas na Alemanha e constatei que o laboratório de ciências, aliado a projeto pedagógico, é parte do dia a dia desde o ensino fundamental.

Por aqui, segundo o portal QEdu.org.br, somente 2% das escolas públicas municipais possuem laboratório de ciências. Se esticarmos a amostra para escolas públicas, o que engloba as estaduais e as federais, o número cresce para 8%. E a pesquisa fala somente em possuir, nada sobre sua utilização efetiva.

No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2012, com participação de 65 países, o placar em ciências ficou assim: Brasil com 405 pontos (59º lugar!) x Alemanha com 524 pontos (12º lugar!).

No quesito inovação tecnológica, os alemães solicitaram 20 vezes mais registros de patentes do que nós. E, se colocarmos no placar o número de prêmios Nobel desde 1901, teremos Alemanha 103 x 0 Brasil!

Ou seja, precisamos de muito mais que o investimento do PNE para melhorarmos nosso desempenho. Vamos ter que aprender com os alemães e trabalhar por muitos anos para reduzir as diferenças. Na educação, já estamos na prorrogação.

A Copa que os gringos adoraram

Quem não entrou na onda do “não vai ter copa” nem torceu para que tudo desse errado deve ter se extasiado com o que se viu até agora. E olhem que ainda faltam as duas semifinais e a final. Será que teremos mais bolas na trave no último minuto da prorrogação? Algum erro fatal de suas senhorias, os árbitros? Alguém invadindo o campo pelado? Mais mordidas? Golaços salvadores? Mesmo que nada disso aconteça, a Copa 2014 já entrou para a história. Há décadas não víamos jogos tão bons, torcidas tão alegres e coloridas. E, claro, quem assistiu pela TV foi agraciado com imagens que será difícil encontrar de novo.

Assim como os que torceram contra estavam extrapolando ao misturar futebol com política (velha tentação…), os que agora repetem palavras de ordem criadas pelo marketing oficial estão, na mais caridosa hipótese, vivendo uma ilusão à tôa. Por maior que seja, um evento como a Copa do Mundo não tem o poder de desestruturar um país, ainda que muitos gostassem que assim fosse. Nem pode servir para encobrir mazelas crônicas – e a queda do viaduto em BH nem é a mais grave delas. Como sempre, os brasileiros exageraram e exageram; talvez seja parte do “brazilian feeling”, expressão criada pelo jornalista holandês Simon Kuper, que veio cobrir o evento para o jornal inglês Financial Times.

Sob o título “Por que o Brasil já ganhou a Copa”, Kuper escreveu na semana passada uma bela crônica do evento, que tomo a liberdade de reproduzir abaixo. O repórter esteve em várias cidades e encantou-se com a forma como os brasileiros lidam com suas inúmeras dificuldades – ignorando-as e fazendo piada delas. Para ele, essa receita deveria ser transportada para todos os países que irão organizar copas no futuro. Daí o mote para o título, que alguns apressados logo trataram de replicar nas redes sociais como se o FT, um dos jornais estrangeiros que mais têm criticado nosso governo, tivesse se rendido ao charme e ao veneno da mulher brasileira, como dizia uma velha canção dos tempos da ditadura militar.

Não devem ter lido o artigo. Kuper simplesmente acha que futebol deve ser uma festa, mesmo com problemas de desorganização, e que o fato de ter havido tantos gols e tantos bons jogos nesta Copa retrata a globalização do esporte, que virou, acima de tudo, um espetáculo televisivo. Bingo! Sem patriotadas nem falso moralismo. Em sua homenagem, segue abaixo o texto, com votos de boa sorte para a Holanda na semifinal.

Por que o Brasil já ganhou a Copa?

Meu time, a Holanda, acabava de conseguir uma improvável vitória, e eu estava flutuando numa piscina em Brasilia. Pássaros tropicais cantavam nas árvores em volta, e meus amigos cantavam na água à minha volta. Foi então que tive meu momento eureka: das sete copas seguidas a que estive presente desde 1990, esta é a melhor. Como disse o treinador da Nigeria logo depois de ser eliminado: “Até agora foi tudo maravilhoso”.

         A tarefa agora é descobrir por que, e assim podermos guardar a receita do “sentimento brasileiro” e reusá-lo na Rússia em 2018 e no Qatar em 2022. O primeiro elemento é o futebol ofensivo. A maioria dos jogos nas Copas é chata. Assistindo a coisas horrorosas como Japão x Paraguai em Pretoria, em 2010, sempre pensei: “Por que alguém está assistindo a isso?” Mas ainda faltam dez jogos no Brasil, e já houve mais gols do que nas copas de 2006 e 2010.

         Minha teoria é que desde o início dos anos 1990 a transmissão ao vivo dos jogos pela televisão foi obrigando o mundo do futebol a criar conteúdos mais interessantes. Gradualmente, o jogo foi ficando mais ofensivo.

         A segunda razão é o Brasil. Em parte devido ao sol quente, especialmente depois do inverno que passamos na África do Sul em 2010; em parte por causa das praias. Quando você passa sua primeira tarde livre em 20 dias caminhando pela orla de Copacabana, fica achando que uma praia de primeira classe como essa deveria ser obrigatória em todas as copas futuras, assim como estádios de primeira classe. Isso é algo em que os alemães não pensaram em 2006.

         Um terceiro elemento que toda Copa deveria ter são os brasileiros. Se você mora em Paris, é desconcertante vir a um país em que quase todo mundo é simpático. Tive um choque cultural diferente no Japão em 2002: todo mundo era educado. No Brasil, até os policiais militares te dão um tapinha nas costas quando você passa (quer dizer, se você é um estrangeiro branco de classe média).

         De fato, os brasileiros estão me dando um curso grátis de um mês sobre como dominar a raiva. Se você tem temperamento ruim, como eu, ser um jornalista cobrindo uma Copa do Mundo pode fazê-lo explodir. Você raramente dorme. Vive sobrecarregado de trabalho. Está sempre passando por aeroportos e estádios, e sendo atropelado por milhares de outras pessoas, também estafadas, num centro de imprensa com excesso de iluminação.

         Alguns perdem a noção. Brigas nos centros de imprensa se tornam mais frequentes. Mas, ao se misturar com os brasileiros, você aprende a lidar alegremente com essas dificuldades. O taxi que você chamou para te levar rapidinho ao aeroporto não veio? Você está parado no congestionamento? Relaxa.

         Ver os jogadores em campo completa o curso de controle da raiva. Ali estão jovens rapazes que perdem o jogo mais importante de suas vidas, levam botinadas e até mordidas, e no entanto a maioria consegue se conter ao final e apertar as mãos dos adversários. Se fosse eu, devolveria a mordida… Aos poucos, estou descobrindo a solução para a maioria dos problemas humanos: fones de ouvido.

         Outro motivo de prazer: esta é uma Copa sem medo. As primeiras que cobri foram envolvidas pelo medo obsessivo dos hooligans. Lembro que quando tentei entrar na Italia, junto com dois amigos ingleses, para a Copa de 1990, os fiscais da alfândega não queriam nos deixar passar, alegando que podíamos ser hooligans. As Copas depois do 11 de setembro também foram assombradas pelo medo do terrorismo. E a de 2010 teve o clima de medo em relação à criminalidade sul-africana.

         O último conselho de minha mulher antes de meu vôo para o Brasil foi: “Não seja assassinado”. A taxa de assassinatos no Brasil é alta, embora eu ache que a coisa mais arriscada que se pode fazer aqui é dirigir. Mas tudo parece seguro nas áreas para turistas, normalmente cheias de policiais. À noite, Rio e São Paulo estão repletas de gente nas ruas; em Johanesburgo, tudo ficava fechado. Não sei se isso acontece porque Rio e São Paulo são cidades mais seguras, mas de qualquer modo é legal.

         Geralmente, os melhores momentos de uma Copa do Mundo acontecem quando você consegue dar uma escapadinha da Copa do Mundo. No início do torneio, fiz aquela que provavelmente terá sido minha única visita à Amazonia. Passei 30 horas lá, a maioria delas assistindo futebol em bares. De manhã, consegui dar um passeio a pé por Manaus. Virei numa rua industrial horrorosa e de repente, num beco sem saída, vi o grande rio. Um homem de calção estava de pé na água, lavando o cabelo com shampu. Galinhas passeavam sobre o lixo. Fiquei ali com eles uns cinco minutos e depois fui ver Inglaterra x Italia.

         Toda Copa é fascinante. O torneio dramatiza o papel da sorte na história, nos ensina a psicologia da mordida, oferece lampejos da genialidade humana, permite que investiguemos a alma coletiva uruguaia, e por alguns momentos cria uma conversa global. A única coisa que lamento é que o técnico uruguaio, Oscar Tabarez, estava errado quando disse que a imprensa britânica controla o mundo. Quem dera fosse verdade.

(c) Financial Times. Para ler o texto original, clique aqui.

As empresas que mandam no Brasil

Em ano de eleição, é sempre bom ficar de olho nos candidatos e em quem financia suas campanhas. Não é fácil acompanhar, mas a internet oferece ferramentas valiosíssimas – e há também a Lei de Acesso à Informação, que permite a qualquer cidadão verificar atos e documentos do governo em seus vários níveis. Recentemente, a revista americana Forbes fez um levantamento das 20 empresas mais poderosas do Brasil, identificadas como “donas do país”, o que vem quase a dar no mesmo. O ranking se baseia no faturamento e no poder dos grupos que controlam cada uma. Nem todas são brasileiras, mas alguns nomes, aposto que os leitores não conhecem. Vale a pena resumir aqui:

1.Telefônica – Controlada por grupos financeiros da Espanha;

2.Previ – Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil;

3.Telemar – Proprietária da Oi e controlada por um grupo de empresas em que se destacam BNDES, Previ, Funcef (Fundo dos Funcionários da Caixa Econômica Federal) e Petros (Fundo dos Funcionários da Petrobrás);

4.BBD Participações – Pertencente ao banqueiro Lázaro de Mello Brandão e ligada ao Bradesco;

5.Stichting Gerdau Johannpeter – Pertence à família gaúcha Gerdau;

6.Wilkes Participações – Tem parte do capital francês, mas é controlada pelo empresário Abilio Diniz;

7.Blessed Holdings – Das famílias Bertin e Batista, sua propriedade mais conhecida é a Friboi;

8.Banco Santander – Controle espanhol;

9.Jereissati Participações – Do empresário Carlos Jereissati, irmão mas desafeto do ex-senador Tasso Jereissati, é dona de parte da Oi/Telemar e da rede de shoppings Iguatemi.

10.Ultra – Grupo industrial com forte presença na área petroquímica, controlado pelas famílias Igel, Cunha e Castro Andrade;

11.Andrade Gutierrez – Uma das maiores construtoras do país, também tem participação da Telemar;

12.Rio Purus Participações – Da família Steinbruch, atua nos setores têxtil (grupo Vicunha) e siderúrgico (Vale);

13.Belga Empreendimentos – Maior do país no setor de açúcar e álcool, pertence à família Ometto;

14.Itaúpar – Holding que controla os bancos Itaú e Unibanco, pertence às famílias Setubal, Villela e Moreira Salles;

15.Casino Guichard Perrachon – De origem francesa, é dona da rede Pão de Açúcar;

16.Peninsula Participações – Outra propriedade da família Diniz, detém o grupo BRF, fortíssimo no setor de alimentos;

17.Lieppe Patrimonial – Holding da família Odebrecht (construção, petroquímica etc.);

18.Companhia Brasileira de Energia – Espécie de joint-venture entre o BNDES e o grupo americano AES;

19.Itaúsa Investimentos – Braço financeiro da Itaúpar;

20.Stichting InBev – Maior cervejaria do mundo, controlada pelos empresário Jorge Paulo Lemann, Carlos Sicupira e Marcel Telles.

Certamente, esses grupos estão entre os maiores financiadores de campanhas políticas do país. Para quem quiser explorar mais esse assunto, vale a pena conhecer o site Proprietários do Brasil. Contém ótimas lições sobre os caminhos cruzados entre poder político e poder econômico.

A Copa e os falsos patriotas

A cada quatro anos o fenômeno se repete: a mídia dedica quase todo o seu espaço ao futebol e o país literalmente para quando a seleção entra em campo. Desta vez, porém, com a Copa sendo realizada no Brasil, acontece o inimaginável: o futebol está servindo de álibi para protestos, depredações, greves seriais, violência. Foi miseravelmente engolfado pela política – a pior espécie dela, aliás, política rasteira, oportunista, que não hesita em fazer da calúnia e do preconceito poderosas armas eleitoreiras.

Eis aí uma guerra em que não há vencedores. Ainda que a seleção venha a brilhar nos gramados, a derrota já está contabilizada pela História. Aproveitadores de várias espécies conseguiram transformar uma grande oportunidade oferecida ao país num festival de mazelas inédito em eventos desse porte. A festa que se prometia está irremediavelmente manchada por um sinistro mix de ufanismo, arrogância, incompetência e descaso. Procuram-se agora os culpados, e – como é costume no país dos espertos – cada um tenta empurrar a conta para o outro lado, já que tornou-se impossível simplesmente escondê-la sob os tapetes.

Que vivemos num país de memória curta e seletiva, não é novidade. Mas alguns detalhes não devem ter sido deletados, suponho. Em 2007, quando o Brasil se candidatou a sediar a Copa (o mesmo aconteceria no ano seguinte em relação à Olimpíada), houve música e júbilo patrocinados por um governo que nadava em altos níveis de popularidade. Apesar das denúncias do mensalão, Lula havia sido reeleito em 2006 com uma vitória avassaladora, e a oposição mal conseguia juntar seus cacos.

Lá do alto, o governo Lula acenou com quase 200 projetos que, de carona na Copa, levariam o país a um outro patamar global. Contra a vontade da própria Fifa, exigiu que fossem 12 (e não 8, como de hábito) as cidades-sede. Os poucos que ousaram desconfiar, alegando que o país tinha outras prioridades e não seria capaz de organizar o evento, foram rechaçados raivosamente como “eternos pessimistas” ou mesmo antipatriotas. Com o passar dos anos, alguns desses foram cooptados. As bilionárias verbas de patrocinadores e a miragem dos estádios megalomaníacos, próprios de uma sociedade ébria com seus êxitos momentâneos, serviram como um imenso e irresistível cala-boca.

Os mais atentos, porém, logo perceberam o gosto amargo da ostentação. O dono da casa havia ordenado pinturas externas em cores chamativas para atrair seus convidados, esquecendo (ou deixando pra lá…) o fato de que paredes, telhado, portas, janelas, encanamento se encontravam em estado de semipodridão. Pior: o lixo se acumulava por baixo da mobília, e mais ainda nos porões, espremendo a dignidade e a paciência dos moradores. Logo, os vizinhos – e as visitas, claro – passaram a notar algo de errado na construção. Tentaram marcar a festa em outro local, mas já não havia tempo para isso. E nem sequer a conta da pintura havia sido paga ainda…

E assim chegamos a 2014, com o país do futebol dividido entre os pró-Copa e a turma do não-vai-ter-Copa. Chega a ser engraçado (ou tragicômico) constatar que pessoas antes avessas ao futebol, tido como alienante e perigoso instrumento de manipulação política, da qual a Copa de 1970 é o símbolo mais citado, hoje posem nas redes sociais com suas camisas amarelas e saudações do tipo “vamos lá, Brasil”. Agora que as visitas estão chegando, seria hora, repetem esses novos-torcedores, de esquecer os malfeitos e destacar o que o país tem de melhor. Afinal, somos os donos da festa!

Alguém chegou a escrever, levianamente, que todos os países organizadores de Copas fizeram isso. Na Alemanha, por exemplo, ninguém falava do nazismo em 2006, quando o Mundial lá se realizou. É a velha arte de embaralhar as cartas para melar o jogo – no caso, não o jogo futebolístico, mas a discussão, essencialmente política, sobre patriotismo e o país que queremos construir. Citar os alemães, no caso, é duplamente leviano: o país tinha (e tem) dinheiro e capacidade para organizar quantas copas quiser; e não esconde seu passado, ao contrário: obras e monumentos referentes ao nazismo e ao comunismo estão lá por toda parte, aos olhos dos visitantes.

Todas as pessoas com nível mínimo de informação sabiam que o Brasil não teria como organizar uma Copa “padrão Fifa” – até porque já dera vexame ao promover os Jogos Panamericanos em 2007, principal referência em falta de planejamento e incúria financeira. Alguns até quiseram se iludir, e outros, de rabo preso, evitaram tocar no assunto. Ocorre que a oportunidade foi perdida. Sabe-se lá quantos investidores iriam trazer seus dólares e euros, se o governo quisesse fazer mais do que marketing. Infelizmente, não era o caso. Jamais saberemos.

Consumado o estrago, que toda a imprensa mundial já detectou, tentar esconder os problemas do Brasil é, além de inútil, depredar a própria essência do ser brasileiro. É uma atitude equivalente à dos que atropelam pedestres na calçada, jogam lixo na rua ou vandalizam prédios e veículos. Um desrespeito ao sofrimento dos milhões que se apertam todos os dias em ônibus e metrôs, aos que gemem nas filas de hospitais. É fingir que o país onde vivemos não existe. Como na canção de Cazuza, esta é a hora do Brasil mostrar a cara, sem maquiagem, para que os próprios brasileiros se reconheçam. Ninguém precisa torcer contra a seleção. Os que o fizerem serão apenas imbecis, nada mais. Gols de Neymar e cia. não irão apagar os males já cometidos.

Tentando explicar a barbárie

Homem armado entra numa escola e metralha crianças dentro da sala de aula. Assaltante em fuga é apanhado, espancado e acorrentado a um poste. Pessoas se reúnem na madrugada para apreciar (e aplaudir) motoristas que disputam um racha, até que um deles perde o controle da direção e atropela a plateia na calçada. Estudantes de Medicina organizam trote em que os calouros são forçados a se arrastar, nus, sobre poças de lama, enquanto alguns veteranos urinam sobre suas cabeças. Mulher é linchada por quase duas horas por cerca de 100 pessoas, que a confundiram com outra cujo retrato falado havia sido divulgado em um site.

São cenas brasileiras, tiradas do noticiário das últimas semanas. Sempre que acontecem, surgem as mais diversas teorias para explicar as possíveis motivações. Há tempos deixou de ser adotado o surrado paradigma de que miséria e pobreza é que são responsáveis pelas tragédias urbanas. E a ladainha da ausência do Estado, de tão antiga e repetida, aparece conforme as conveniências político-eleitorais de quem fala ou escreve. Uma das teses da hora é culpar a mídia: segundo uma pesquisadora da USP, na maioria das vezes a violência acontece após a imprensa explorar exageradamente um caso desses.

Nas entrelinhas, está dito que bastaria a mídia não dar tanta importância a tiroteios, linchamentos e trotes violentos para que caísse a frequência de tais barbaridades. É um argumento oportuno para quem enxerga inimigos em todo jornal, revista, site ou emissora que não lhe seja favorável. Políticos corruptos, por exemplo, têm aí um belo ponto a defender: é a mídia, em sua insaciável busca de sensacionalismo, que faz crescerem os índices de violência.

Faz lembrar as teses de um passado nem tão distante, quando se atribuía aos filmes – depois aos desenhos e aos videogames – a culpa pela violência entre os jovens. Roy Rogers, Stallone e até o Picapau foram irremediavelmente condenados. Surgiram teses, tratados e livros sem fim para dizer aos pais que seus filhos iriam se transformar em raivosos bandidos se continuassem expostos à sanha maligna de seus super-heróis. Pois é, escapamos por pouco.

Que presidentes, governadores, prefeitos e parlamentares, ou mesmo juízes, combatam o “excesso de liberdade” da mídia, é até compreensível. Afinal, eles e seus financiadores só têm a perder quando as notícias circulam sem travas. A tragédia se configura quando filósofos, sociólogos, educadores e até jornalistas adotam o mesmo discurso, o que tristemente vem se tornando cada vez mais comum.

Sim, é triste, mas não surpreendente. Revela que há mais laços do que parece entre esses “intelectuais” (lamento, as aspas aqui são mais do que necessárias) e a elite política que tomou conta do país. A barbárie verdadeira está neles.

Como salvar o capitalismo dos capitalistas

recessionA discussão começou há cerca de cem anos, quando os bolcheviques tomaram o poder na Rússia, mataram o czar e sua família e implantaram o regime comunista, supostamente inspirado nas teorias de Karl Marx. Bem, até aí não estou contando nenhuma novidade. Mas agora, 25 anos após a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, a revista inglesa The Economist – para muitos, um baluarte do capitalismo – faz uma interessante revisão desse perene conflito entre os que se dizem “de direita” e “de esquerda”; ou, se preferirem, entre comunismo e capitalismo.

Reproduzo abaixo trechos do artigo, que mostra como os interesses capitalistas também interferem nos países ditos comunistas. Antes, uma breve observação sobre esse dualismo que soa tão arcaico. Nem direitistas nem esquerdistas parecem sentir-se confortáveis em se autonomear como tais; ambos os grupos tomam as respectivas classificações como ofensas. No entanto, usam e abusam dos dois adjetivos quando querem criticar os do outro lado. Assim, “direita” e “esquerda” acabam se tornando pejorativos, quando deveriam ser, suponho, meras classificações. Que, por sinal, nos dias que correm são cada vez mais difíceis de distinguir.

Bem, noto que o tema dá margem a outro artigo, que prometo tentar escrever mais à frente. Por ora, fiquemos com os ingleses, e sua imbatível verve, para explorar os vários aspectos da histórica rivalidade. Bom proveito.

“Enquanto caía o regime de Viktor Yanukovych na Ucrânia, manifestações contra ele podiam ser vistas em frente a One Hyde Park, condomínio de luxo na região oeste de Londres. O alvo dos protestos era Rinat Akhmetov, o homem mais rico da Ucrânia e defensor do antigo regime.

“O conturbado estado ucraniano há tempos é dominado por oligarcas. Mas as relações entre políticos e empresários se espalham pelos países emergentes, como Índia, Turquia, China e Brasil. No dia 5 de março, o presidente chinês Xi Jinping prometeu agir “sem piedade” contra a corrupção. No ano passado, 182 mil funcionários públicos foram punidos, um aumento de 40 mil sobre 2011.

“Como nos Estados Unidos no início do século 20, uma nova classe média está se fortalecendo, em escala global. As pessoas querem políticos que não pensem apenas em seus bolsos, e empresários que disputem os mercados sem favorecimento. Trata-se de uma revolução, para salvar o capitalismo dos capitalistas.

Rent-seeking” é como os economistas chamam um tipo especial de negócio: aquele que só é possível através de bons contatos políticos. Pode variar da pura e simples corrupção à falta de competição, a falhas na legislação e à transferência de patrimônio público para empresas a preço subestimados.

“Pessoas com bons relacionamentos já fizeram fortunas dessa maneira, desde quando os órgãos encarregados da regulação ganharam poderes para emitir licenças e autorizar contratos lucrativos para seus amigos. Nos EUA, esse sistema atingiu seu ápice no final do século 19, levando a um longo esforço contra os barões do empresariado. Leis antitruste atingiram até o monopólio do petróleo, então nas mãos de John D. Rockefeller.

“Nos países emergentes, o último quarto de século foi excelente para os aproveitadores (rent-seekers). O aumento dos preços dos imóveis enriqueceu os incorporadores, que precisam de aprovação para seus projetos. A expansão das commodities inflou o valor das minas e dos campos de petróleo, que invariavelmente passam por algum tipo de controle do Estado. Algumas privatizações descambaram em monopólios. Na China, por exemplo, um terço dos bilionários são membros do Partido.

“O capitalismo baseado na exploração da renda não é apenas injusto, mas também ruim para o crescimento de um país no longo prazo. Recursos são desviados;  estradas precárias frequentemente são obra do compadrio. A concorrência é reprimida. Novas empresas enfrentam barreiras maiores, diante de concorrentes melhor conectados junto aos governos. Esse tipo de capitalismo, quando ligado às finanças da política, é determinante no florescimento da corrupção.

“A revista The Economist montou uma base de indicadores para aferir a extensão do capitalismo de compadrio entre as nações ao longo do tempo. Podem-se identificar setores que são particularmente dependentes dos governos – como mineração, petróleo, gás, bancos e cassinos – e também rastrear, pelos indicadores, a riqueza dos bilionários em relação ao tamanho da economia de cada país. A ideia não é determinar que certos países são mais corruptos do que outros, mas apontar que a escala das fortunas tem a ver com setores mais suscetíveis ao tráfico de influência.

“Os países ricos também sofrem do problema, mas no mundo emergente o poder dos mais ricos é duas vezes mais alto. Ucrânia e Rússia são os dois piores casos – muitas privatizações beneficiaram empresários ligados aos poderosos. E o crescimento da Ásia também permitiu o surgimento de magnatas em setores com forte influência do compadrio político.

“Nota-se que esses relacionamentos suspeitos estão sendo mais vigiados atualmente. Governos que realmente se preocupam com a riqueza de seus países sabem que precisam fazer os mercados funcionarem melhor e fortalecer instituições que os regulem. Brasil, Hong Kong e Índia aumentaram os controles antitruste. O presidente do México, Enrique Peña Nieto, tenta quebrar os carteis da mídia e das telecomunicações. E a China também está atacando seus feudos.

“Uma segunda razão para conter as relações incestuosas entre políticos e empresários é que os incentivos podem estar mudando. A porcentagem de negócios geridos por bilionários do rent-seeking nos países emergentes, que era de 76% em 2008, caiu para 58% hoje. Em parte, essa é uma evolução natural. Conforme se enriquecem, as economias ficam menos dependentes de comodities e infraestrutura.  

“Também é motivo para otimismo o fato de que os incentivos aos políticos estão mudando. O crescimento diminuiu, o que exige reformas no sentido de abrir a economia. Países cujos governos tentam enfrentar esses interesses, caso do México, acabam ganhando a simpatia dos investidores.

“Claro, há muito mais a ser feito. Os governos precisam ser mais assíduos ao regular monopólios, promover a concorrência, punir funcionários corruptos e garantir a transparência dos negócios perante o público. O boom que gerou uma nova espécie de magnata criou também seu nêmesis: uma nova classe média urbana, com melhor nível de educação, que paga impostos e exige mudanças. Isso é algo que os políticos e os autocratas não podem correr o risco de ignorar.”

Clique aqui para ler a íntegra do artigo, no original em inglês.

O preço da Justiça

sobral[1]Simplesmente imperdível o documentário de Paula Fiúza sobre seu avô, o grande Sobral Pinto, exibido semana passada na Globo News. Com o brilhante título de “O homem que não tinha preço”, o filme de apenas 44 minutos faz um retrato primoroso desse que é considerado, quase que por unanimidade, o maior jurista brasileiro. Numa época em que advogados – e também juízes, procuradores etc. – parecem se preocupar mais com as câmeras do que com a busca da Justiça, talvez seja difícil para quem não o conheceu entender a importância de Sobral.

Nem tanto pelo que dizia, embora fosse grande orador, mas por suas atitudes. Numa reconstituição minuciosa, o filme mostra como justiça e ética, dois valores tão maltratados no Brasil, eram para Sobral quase como água e ar. Ele simplesmente não se conformava com atos de injustiça, não importando partissem de quem. Também não queria saber quem eram as vítimas, seu passado, suas crenças políticas ou religiosas. Católico e anticomunista ferrenho, seu caso mais famoso veio a ser a defesa de Luiz Carlos Prestes, o maior líder comunista do país, contra a perseguição movida pela ditadura de Getulio Vargas. Foi Sobral quem salvou a vida de Anita Leocádia, filha de Prestes com Olga Benario, episódio que no documentário é contado em detalhes pela própria Anita.

Bem, não vou revelar mais porque quero que todos assistam. Aqui, o link: é obrigatório. Gostaria apenas de lembrar a passagem em que Sobral, ao lhe perguntarem que mensagem deixaria aos jovens, referiu-se aos militares. Para ele, que começou a carreira em 1913, a sociedade brasileira começou a se desestruturar a partir da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando passou a dar muitos poderes às forças armadas. Estas, diz ele, estiveram envolvidas em todas as crises políticas que o país viveu desde então: 1925, 1930, 1932, 1937, 1945, 1954/55, 1961 e, claro, de 1964 a 1985, quando deixaram o poder.

É uma sacada genial. A ânsia do domínio pela força contaminou o país, como é fácil constatar ainda hoje, mesmo sem os militares no comando do governo. Pessoas chegam ao poder para se perpetuar nele e poder usurpá-lo, vestindo ou não uma farda. É, sim, uma herança maldita. Seria interessante ver como o velho democrata reagiria diante desses atentados contra a ética e a justiça, suas amigas inseparáveis.