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Polícia, bandido e o tecido social

6 de fevereiro de 2012

No momento em que escrevo, é impossível saber aonde vai dar esse movimento dos policiais baianos. Percebe-se que são muito bem organizados, ao contrário do governo, que como sempre age por impulso ou pressão, pensando mais nos possíveis ganhos (ou perdas) eleitorais desse tipo de episódio. Via Twitter, recebi hoje a mensagem: “Atenção oposição: ñ queira tirar proveito da greve da BA. Qdo tecido social tá esgarçado, esticar a corda é ameaça à ordem pública.”

O remetente é um radialista baiano que defende o governo local. É uma reação típica dos tempos atuais no Brasil, país que parece politicamente dividido entre duas seitas (PT e PSDB), cada qual com seus penduricalhos de ocasião. Ninguém tem direito a uma terceira via? Ou se é contra ou a favor? De um ou de outro? É essa a regra não escrita, mas seguida à risca pelos militantes cujas vozes hoje são amplificadas nas redes sociais. Como uma espécie de hooligans virtuais, eles disparam sempre contra o outro lado, ignorando os próprios defeitos e – ao contrário – tentando desqualificar toda e qualquer opinião contrária.

A analogia com torcidas de futebol não veio por acaso. A isso, na prática, foi reduzida a política brasileira com o desgaste incontrolável de seus líderes, a começar de presidentes, governadores e parlamentares. Para quem já militou na política com “P” maiúsculo, especialmente em tempos de ditadura, fica aquele gostinho de fruta estragada, a impressão de pintura mal feita, deixando aparecer as rachaduras da parede.

É como se todos tivéssemos sofrido uma certa ilusão de óptica: pessoas que se vestiam de uma cor própria hoje surgem transmutadas no arcoíris das conveniências. Já que não foi possível ganhar a batalha desejada, juntemo-nos aos vencedores para saborear pelo menos parte do banquete – é o que devem pensar. Ou quem sabe tenha sido mesmo uma miragem: aqueles que lutavam contra a repressão pensavam apenas na “sua” liberdade; a liberdade de não só usufruir do cardápio farto, mas de decidir quando, como e o quê será servido, deixando os restos para a plebe, que esta se contenta com migalhas.

Sim, conseguiram. Mas talvez tenham se esquecido que, nestes tempos hiperconectados, também os gostos da plebe podem estar mudando. A greve de Salvador poderia estar acontecendo em qualquer outra capital brasileira, e teria o mesmo simbolismo. Os policiais baianos, que se saiba, não vivem em condições piores do que os paulistas, gaúchos ou cearenses. Ainda outro dia, a PM de São Paulo era duramente criticada por suas ações na Cracolândia e na comunidade de Pinheirinho, onde não houve registro de mortes. O que dizer, então, da Bahia? Seria a negação definitiva da máxima celebrizada por Lucio Flavio, o criminoso dos anos 70 que, ao ser detido, declarou: “Polícia é polícia, bandido é bandido”?

Receio que, a partir de agora, todos teremos que olhar para os lados com mais cuidado: o bandido pode estar aí, bem perto, e você votando nele.

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