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A mão que não toca mais

6 de março de 2021

Menos de um mês atrás, estávamos aqui lamentando a perda de Chick Corea (1941-2021), um dos maiores tecladistas (piano, órgão Hammond, sintetizadores etc.) da história. Mas o mundo dos teclados tem mais a lamentar. Contemporâneo de Corea, com quem chegou a se apresentar algumas vezes, está praticamente encerrada a carreira de Keith Jarrett, outro gênio das teclas. Não, ele continua vivo e lúcido, mas, a julgar por suas mais recentes declarações, nunca mais irá tocar.

Em 2018, Jarrett sofreu dois derrames que paralisaram parcialmente seu lado esquerdo. Afastado das atividades, dedicou-se a uma maratona de fisioterapias diversas que, embora tenham quase exaurido suas forças, não foram suficientes para que retomasse os movimentos da mão. Jarrett e seus médicos logo chegaram à conclusão de que era o fim, como ele mesmo revelou em outubro passado, em rara entrevista ao New York Times: “Já não me sinto mais como um pianista”.

De fato, os danos parecem ter sido graves. “Meu lado esquerdo continua paralisado”, acrescentou. “Consigo andar pela casa de bengala, mas isso após mais de um ano (de recuperação)”. O primeiro derrame, em fevereiro, não foi tão forte, e ele logo recebeu alta do hospital. Mas o segundo, em maio, forçou uma internação de dois anos – só foi liberado em maio do ano passado.

De volta para casa, Jarrett foi tentar brincar com o piano. “Comecei a fingir que era um Bach de uma mão só”, comentou, com amarga ironia. Quando arriscou algumas das peças que mais tocara na vida, como antigas canções do bebop, descobriu estarrecido que não se lembrava das melodias. Ou seja, não foi apenas a mão que se danificou. “Não sei qual será o meu futuro, mas ouvir qualquer música de piano tocada com as duas mãos me deixa frustrado, porque sei que não vou mais conseguir fazer isso. Na verdade, minha melhor expectativa agora é poder segurar uma xícara com a mão esquerda”.

Numa breve retrospectiva, o que se pode dizer de Keith Jarrett é que foi (sim, não será nunca mais) o maior solista de sua geração, numa carreira iniciada nos anos 1960. Nascido na Pensilvânia em 1945, seu prodígio se revelou logo aos 3 anos de idade, quando uma tia o colocou ao piano e sugeriu um improviso. Depois de tocar no grupo do grande baterista Art Blakey, gravou seu primeiro disco em 1967 (Life Between The Exit Signs), formando um trio com dois nomes já então consagrados: o contrabaixista Charlie Haden (1937-2014) e o baterista Paul Motian (1931-2011).

Três anos depois, Jarrett formou na banda montada por Miles Davis para uma série de concertos de jazz elétrico (fusion), que resultou no álbum duplo Live at the Filmore East (1970); curiosamente, Jarrett tocou órgão nesses shows, ficando o piano a cargo justamente de Corea. Miles o chamou de novo para o órgão em Live-Evil (1971), mas a experiência não agradou muito o jovem, que naquele mesmo ano retomou seu trio.

O grande salto na carreira de Jarrett foi assinar com a gravadora alemã ECM, onde produziu sua obra-prima The Köln Concert (1975), primeiro álbum duplo de jazz num concerto-solo totalmente baseado em improvisos. Virou disco de cabeceira de toda uma geração, atingindo a incrível marca de 3 milhões de cópias, algo impensável até para as grandes estrelas do jazz.

Gravado numa única noite na cidade de Colônia (Alemanha), o concerto tem quatro segmentos em que Jarrett leva ao auge a arte do improviso ao piano. Ele inventa harmonias e mudanças de andamento na hora, em meio aos grunhidos que se tornariam sua marca registrada. Anos mais tarde, Jarrett contou que estava fisicamente exausto e irritado com o piano ruim que lhe deram naquela noite, resultando até em ferimentos nas mãos.

Na época, nenhum dos milhares de fãs que compraram o disco sequer podia imaginar quanto dói produzir uma obra-prima.

A última apresentação de Keith Jarrett aconteceu em 2017, no Carnegie Hall (Nova York), quando ele surpreendeu a todos fazendo um discurso de teor político (eram os primeiros meses do governo Trump) e chorando ao final. Era para ter virado álbum com outro concerto no Carnegie que, devido à doença, teve de ser cancelado. Assim, o último disco desse gigante do jazz – que em 50 anos de carreira foi também um excepcional solista erudito – acaba sendo Budapest Concert, gravado em 2016 e lançado apenas em outubro último.

Neste, o músico – que diz ter antepassados húngaros – presta homenagem ao grande compositor local Béla Bartok (1881-1945), improvisando sobre algumas de suas peças. Não pode passar em branco o fato de que Bartok morreu em setembro de 1945, apenas quatro meses após o nascimento de um tal Keith Jarrett.

Discografia selecionada:

1967 – Live Between The Exit Signs, Rhino (trio com Charlie Haden e Paul Motian)
1971 – Facing You, estreia na ECM
1975 – The Köln Concert, ECM
1983 – Standards Vols. 1 & 2, ECM (trio com Gary Peacock e Jack DeJohnette)
1989 – Bach: Goldberg Variations, ECM
1991 – Bye Bye Blackbird, ECM (com Gary Peacock e Jack DeJohnette)
1995 – At The Blue Note, ECM (com Gary Peacock e Jack DeJohnette)
2007 – My Foolish Heart: Live at Montreux (com Gary Peacock e Jack DeJohnette)
2014 – Last Dance, ECM (com Charlie Haden)
2019 – Bach: The Well-Tempered Clavier, ECM (gravado em 1988)

Um comentario para “A mão que não toca mais”

  1. Dinaldo Campos disse:

    Orlando, temos que pensar na eternidade da música, ou seja, sempre Chick Corea vai tocar nos corações que faz da música o alimento para a vida das emoções!

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