O projeto brasileiro de TV 3.0, chamado DTV+, pode se transformar em “modelo para o mundo”, sentenciou em dezembro o site americano TV Tech, leitura obrigatória para profissionais de televisão em vários países. Nem mesmo os EUA, que começaram a implantação do seu ATSC 3.0 (Next-Gen TV) em 2017, ousaram combinar recursos da TV e da internet de forma tão ampla quanto o Brasil se propõe a fazer.
Até o momento, somente a Coreia do Sul é que realiza algo semelhante. A diferença é que sua população é de pouco mais de 50 milhões, numa área de aproximadamente 100.000km², contra 8,5 milhões de km² do Brasil. Os EUA, com território quase tão grande quanto o nosso, decidiram ser mais “conservadores” com o novo padrão, principalmente porque, lá, o governo não se envolve nesse tipo de decisão: tudo está sendo feito pela iniciativa privada.
No Brasil, como sabemos, quase nada é feito sem a participação do Estado. E a TV 3.0, assim como os padrões anteriores, felizmente sempre foi tratada como “questão de segurança nacional”. Digo felizmente porque os empresários brasileiros, em sua maioria, não dispõem de capital nem de espírito empreendedor para um salto tecnológico desse porte.
TV 3.0 nos EUA só atinge 20% da população
O resultado é que a Next-Gen TV dos EUA ainda não decolou como se esperava. Embora o sinal esteja disponível em cerca de 75% das residências, a audiência permanece na faixa do 20%. Isso tem a ver com o custo dos aparelhos e o fato de que a adesão não é obrigatória: poucas emissoras quiseram investir nos novos equipamentos. E o mercado publicitário reflete essa situação, com baixíssima adoção dos formatos de inserção segmentados.
Já na Coreia a evolução vem sendo rápida: mais de 80% do país hoje é coberto com sinal 4K via ATSC 3.0; a oferta de conteúdos e serviços é abrangente e, com isso, os anunciantes estão investindo cada vez mais. Não custa lembrar que, a exemplo do Brasil, na Coreia a presença do Estado é forte na economia.
Neste momento, está em pleno andamento a operação do governo brasileiro para financiar as emissoras na compra de transmissores 3.0, câmeras, decoders e demais equipamentos, num valor estimado entre 9 e 11 bilhões de reais. Como já mostramos aqui, caberá aos principais bancos públicos bancar esse fomento, junto com organismos internacionais em negociações conduzidas (de novo) pelo governo.
Diferenças entre DTV+ e ATSC 3.0
Segundo o TV Tech, se o projeto brasileiro for bem sucedido servirá de exemplo para toda a América Latina e outras regiões do planeta que ainda não se decidiram. Os principais pontos que diferenciam o DTV+ do ATSC 3.0 adotado nos EUA e Coreia são:
*Interface padronizada – A “cara” da TV 3.0 brasileira foi pensada para integrar todos os tipos de conteúdo, vindos da TV aberta (pelo ar) ou da internet (cabo). Uma UX padronizada facilita a criação de conteúdos, inclusive anúncios, tornando-se mais atraente para usuários, produtores e anunciantes.
*Arquitetura de apps – Como já explicamos aqui, o que conhecemos hoje como “canais de TV” serão acessados como aplicativos, de certa forma emulando a interface dos smartphones e dos apps de streaming.
*Middleware brasileiro – Numa evolução do extinto Ginga, que pouca gente usou, o novo formato de interatividade será um só em todos os receptores, com foco em serviços públicos, comércio e publicidade segmentada.
*Acesso amplo e facilitado – Como no caso da HDTV, o compromisso do governo brasileiro é dar todo suporte à implantação do novo padrão. Numa primeira fase, há inclusive previsão para distribuição (gratuita ou subsidiada) de receptores para uso com as TVs atuais em algumas regiões.
Obs.: no ATSC 3.0, não há interface padrão nem obrigatoriedade das emissoras e plataformas seguirem um software de interatividade; cada uma pode decidir como fazer. Quanto aos receptores, pelo menos até agora, não se falou em incentivos ao consumidor.
Aposta num grande mercado consumidor
Na prática, nosso DTV+ pode ser definido como um “ecossistema digital”, avalizado pelo Estado brasileiro, enquanto ATSC 3.0 foi pensado como “apenas” um padrão avançado de transmissão. Ambos transportam sinais de vídeo 4K HDR e de áudio imersivo; EUA e Coreia adotaram o padrão de compressão HEVC (H.265), enquanto o Brasil optou pelo VVC (H.266), considerado mais eficiente.
Americanos e coreanos não tiveram maiores preocupações com aspectos como interface de usuário, publicidade segmentada, modelos de negócio e métricas de alcance e audiência. Também não priorizaram a chamada “inclusão digital”, até porque nesses países a TV fechada (cable) tem muito mais peso que no Brasil. A prioridade foi garantir a qualidade das transmissões, ainda que poucas pessoas acessem.
O Brasil quis ser mais ambicioso. DTV+ é visto como um processo inclusivo, para atrair um gigantesco mercado consumidor. A partir da Copa do Mundo, veremos se foi uma boa aposta.
