A semana que passou foi agitada na sede da Netflix. Além da divulgação de seu balanço trimestral, com resultados polêmicos (confiram), a empresa anunciou a demissão de 1.000 funcionários, o que representa 6% de sua força de trabalho atual em todo o mundo. Mais ainda: entre os demitidos estão os integrantes da equipe responsável pelos conteúdos que os assinantes recebem toda semana, inclusive a todo-poderosa Bela Bajaria, que tinha o cargo de CCO (Chief Content Officer).

Muita mudança de uma vez só para uma empresa que até outro dia era líder absoluta em seu segmento. Não chega a ser uma surpresa, levando em conta o desempenho da Netflix nos últimos cinco anos, como aliás temos reportado aqui através dos gráficos da JustWatch, consultoria alemã especialista no mercado de streaming (confiram aqui e aqui, por exemplo).

Mas, pesquisando nos principais sites da indústria de entretenimento (como Variety, Hollywood Reporter e Business Insider), encontrei mais detalhes sobre essa, digamos, “crise”. Na verdade, a Netflix está tentando mudar seu modelo de negócio, baseado em conquistar cada vez mais assinantes, que parece esgotado diante de tantas concorrentes. Não foi tão difícil chegar aos 300 milhões (hoje, são 325), mas é praticamente inviável, se não impossível, ir muito além disso.

Em seu balanço do período julho-setembro, dois dados chamaram a atenção dos analistas: o número de cancelamentos de assinaturas (o chamado churn) subiu 16,6%; e caíram 20% os downloads do app Netflix na América do Norte. Isso significa menos gente querendo o serviço.

Uma das explicações mais citadas é a queda na qualidade dos conteúdos. Faz tempo, por exemplo, que a Netflix não emplaca um hit mundial como Stranger Things ou Casa de Papel. Para o lugar de Bajaria, foi contratado Peter Rice, ex-executivo da Disney, o que é entendido pelo mercado como uma virada na estratégia de produzir grande quantidade de títulos para focar em poucas produções de prestígio.

Em seu balanço, a Netflix anunciou que o crescimento no último trimestre foi inferior ao esperado, assim como a receita vinda da publicidade. Mas agências de análise citam outro dado preocupante: o número de horas assistidas, calculado na média mundial sobre cada assinante, caiu de 66 em 2023 para 49 no primeiro semestre de 2026. Talvez não seja coincidência a empresa ter decidido que, a partir de 2027, só divulgará seus dados de audiência uma vez por ano, não a cada trimestre.

Se os números fossem bons, não haveria por que tomar essa decisão.

 

Orlando Barrozo é jornalista especializado em tecnologia desde 1982. Foi editor de publicações como VIDEO NEWS e AUDIO NEWS, além de colunista do JORNAL DA TARDE (SP). Fundou as revistas VER VIDEO, SPOT, AUDITÓRIO&CIA, BUSINESS TECH e AUDIO PLUS. Atualmente, dirige o site HT & CASA DIGITAL. Gosta também de dar seus palpites em assuntos como política, economia, esportes e artes em geral.

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