
No último sábado, minutos antes do jogo Brasil x Marrocos, os telespectadores da TV A Crítica, de Manaus, foram surpreendidos por esse aviso na tela. A emissora havia firmado acordo com o Cazé TV para substituir seu sinal tradicional de TV aberta pelas imagens do YouTube. Bastava captar um link do QR Code exibido na tela para acessar, gratuitamente, o canal criado pelo influenciador Casimiro Miguel.
Com isso, quase que por um passe de mágica, A Crítica expandiu seu alcance, abrindo espaço para seus comentaristas falarem do jogo (mais detalhes aqui). Algo similar aconteceu com o Disney+, dono da ESPN, que desta vez ficou fora das transmissões da Copa. Ou quase: na última hora, a empresa se acertou com a LiveMode, dona do Cazé TV, para também reproduzir o sinal do YouTube em sua plataforma.
Até algum tempo atrás, eu achava que o Cazé TV era mais um fenômeno de marketing, moda passageira como tantas que surgem e desaparecem em pouco tempo. Não sabia que, por trás da figura de Casimiro, havia sido montada uma estrutura profissional, sustentada por fundos de investimento que apostam no futuro. Mas o simples fato de ser o único canal onde se pode assistir a todos os jogos da Copa mostra a ousadia que vem sendo marca registrada do projeto comandado pela LiveMode.
Os recordes do Cazé na atual Copa do Mundo não são, portanto, fruto de uma espécie de “guerrilha digital”, mas de um planejamento de longo prazo. Vale a pena tentar entender. Na virada do século, tivemos o surgimento do YouTube, que parecia apenas uma brincadeira de adolescentes (como conto no meu livro “Os Visionários”) e acabou se transformando na maior mídia digital do mundo.
Por trás do canal, há uma
empresa que negocia direitos
de transmissão com todas
as emissoras abertas.
Claro que são situações totalmente diferentes, mas analisando o contexto atual, com a fragmentação das mídias e a consequente perda de peso da TV aberta, já é possível enxergar como o fenômeno Cazé TV se encaixa no mercado. A LiveMode foi fundada em 2017 por Edgar Diniz e Sergio Lopes, executivos que antes haviam criado o Esporte Interativo, depois absorvido pelo grupo Warner e transformado em TNT Sports.
A empresa se especializou na compra e distribuição de direitos sobre eventos esportivos, via acordos com clubes e federações no Brasil e no Exterior e negociações com emissoras e plataformas de streaming. Em 2022, os dois se uniram a Casimiro para criar o Cazé TV, com apoio de dois importantes fundos de investimento: o brasileiro XP Private Equity e o americano General Atlantic.
Esse último é hoje um dos maiores do mundo em growth equity, categoria que envolve investimentos em empresas com potencial de crescer. Oficialmente, possui ativos de US$ 83 bilhões abrangendo mais de 500 empresas mundo afora. Não há números oficiais, mas as estimativas do mercado são de que em 2024 os fundos aportaram algo próximo de R$ 440 milhões no projeto, equivalentes a 20% da LiveMode.
Ampliando a estrutura técnica do canal e acionando seus contatos nos meios esportivos, Casimiro e os dois executivos começaram a fazer barulho no mercado. A receita foi uma linguagem descontraída, com aparência semiprofissional, bem distante do “quadrado” que se vê nas redes abertas e nos canais de streaming esportivo. A ideia era atrair o público jovem, que se cansou dessas fórmulas e se identifica com influenciadores em geral.
Criando vínculos fortes com essa faixa de audiência, Cazé passou a conquistar também verbas publicitárias com base em dados de engajamento, não apenas através do canal mas de suas mídias sociais, notadamente Instagram e Tik Tok. O primeiro grande teste veio com as Olimpíadas de Paris (2024), quando o canal chegou a bater a audiência das TVs, mostrando que esse era o caminho.
Depois da Copa, Premier League e La Liga
Este ano, o choque foi ainda maior quando Cazé anunciou que transmitiria, com exclusividade, todos os jogos da Copa. Na verdade, a LiveMode havia obtido em 2022 a licença da FIFA para comercializar os direitos de transmissão da Copa no Brasil. Em suas negociações com Globo, SBT e demais interessados, a empresa fechou um acordo inédito no país, aproveitando-se também do fato de que a Globo não tinha mais interesse em transmitir todas as partidas como fizera em 2018.
Mas um canal de comunicação não pode viver só de eventos episódicos, como Olimpíadas e Copa do Mundo. Por isso, Diniz e Lopes foram atrás de atrações que pudessem manter a audiência cativa durante o ano inteiro. E, com o dinheiro dos fundos, passaram a disputar os direitos de eventos como o Campeonato Brasileiro, além das principais competições europeias. Depois de conquistar a alemã Bundesliga, este ano passam a transmitir também a Premier League (Inglaterra) e a La Liga (Espanha).
Já é caso de se perguntar: até onde irão Live Mode e Cazé TV? Até quando as atrações continuarão sendo gratuitas? Terão poder para seguir encarando gigantes como Disney, Amazon e Warner/Paramount, além do próprio YouTube, na disputa por direitos de grandes eventos?
Fato é que esses grupos devem estar preocupados, assim como a Globo, que nesta Copa até tentou imitar o formato Cazé. Até o final da Copa saberemos os resultados dessa briga.
