Quando o governo atrapalha (mesmo)

9 de dezembro de 2019

 

 

O presidente Trump está sendo acusado de interferir pessoalmente num dos maiores contratos firmados até hoje pelo Pentágono. A acusação foi apresentada à Justiça americana pela Amazon, cujo dono (Jeff Bezos) é desafeto de Trump há vários anos. A Amazon perdeu a concorrência para construir o sistema conhecido pela sigla JEDI (Joint Enterprise Defense Infrastructure), que pode ser definido como um gigantesco upgrade na estrutura de segurança cibernética do Pentágono, órgão responsável por toda a segurança do país.

Diz o jornal que, em julho, Trump já havia declarado publicamente que não queria que a Amazon ganhasse o contrato, estimado em US$ 10 bilhões por dez anos. E prometeu interceder junto à direção do Pentágono, procedimento que, num país democrático, costuma levar a punições por parte da Justiça e do Congresso. O Departamento de Defesa chegou a divulgar nota dizendo que não havia nada contra a Amazon, que por ser dona do maior sistema de computação em nuvem do planeta (Amazon Web Services) e já fornecer diversos serviços a órgãos do governo, era tida como favorita.

No fim, o contrato acabou sendo dado à Microsoft, e a Amazon imediatamente foi à Justiça para tentar reverter a decisão. Se Trump tivesse ficado quieto, talvez nem houvesse polêmica. O episódio é ilustrativo sobre a prática de certos governantes que, ou têm interesses econômicos por trás desse tipo de contrato, ou utilizam seus poderes simplesmente para prejudicar inimigos políticos. Para quem quiser ver a notícia, este é o link.

Vivemos isso no Brasil na era petista, quando grupos econômicos foram escolhidos a dedo para celebrar contratos com o governo, o que resultou, entre outros, no escândalo do Petrolão. É o que dá misturar política pública com interesse privado, coisas que jamais deveriam ser misturadas (mas são). No caso Trump x Amazon, nem é o interesse comercial do governo, mas o interesse pessoal do governante, o que só piora as coisas.

Impossível não fazer a conexão com a cena brasileira atual: quando o presidente Bolsonaro faz ameaças contra órgãos de imprensa, e as estende a seus anunciantes, estamos bem perto de Trump. Que é candidato ao impeachment por atitudes como essa.

Lá como cá, somente as denúncias na mídia e a vigilância diuturna da sociedade civil é capaz de impedir essas práticas e colocar o governante em seu devido lugar.

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