Brincando com a história

15 de junho de 2020

Há quem diga que o lançamento precoce da tecnologia 8K, no ano passado, foi um erro – afinal, a indústria ainda tenta convencer os consumidores a adotarem o 4K! Só saberemos daqui a alguns anos. Como bolas de cristal só funcionam na imaginação, empresas de todos os setores gastam milhões em pesquisas para desenvolver produtos de sucesso, e muitas vezes erram.

Estamos em meio a um revival do chamado revisionismo histórico, puxado de um lado pelos negacionistas da ciência e, de outro, pelos líderes dos movimentos anti-racismo, especialmente nos EUA. Símbolo dessa atitude supostamente revolucionária é a ideia de destruir estátuas e monumentos que homenageiam figuras da história associadas ao racismo. Neste artigo, analiso essa postura que me parece equivocada. 

Um dos problemas é querer analisar fatos do passado com dados de hoje, como se as pessoas responsáveis por aquelas decisões tivessem a mentalidade e vivessem num ambiente similares aos atuais. Nada mais falso. No caso da tecnologia, o site americano Digital Trends arriscou-se semanas atrás a apontar “os maiores erros da indústria eletrônica até hoje”. Produziu uma peça de “revisionismo tecnológico” que pode até soar justificada, para quem está na ativa hoje.

No entanto, da mesma forma que ocorreu com as estátuas, é preciso lembrar que essas decisões foram tomadas com os dados disponíveis nas respectivas épocas. Fazem parte da própria evolução da ciência que, como sabemos, é uma sucessão de erros e acertos, sendo os primeiros muito mais comuns. Confiram:

Beta x VHS – Em 1975, a Sony dispunha de uma revolucionária mídia para reprodução de som e imagem, a fita magnética Betamax, que podia ser gravada e regravada inúmeras vezes. Era o sonho de todo fã de cinema: poder montar sua filmoteca particular (no caso, videoteca). No Japão, surgiu uma variante do Betamax, o VHS, da JVC, que negociou seu lançamento comercial nos EUA com a poderosa RCA. Por não querer liberar sua patente a outros fabricantes, a Sony acabou vencida apesar de ter uma tecnologia considerada superior na época. O erro foi reconhecido pelo próprio Akio Morita, fundador da Sony.

TV de retroprojeção – Nos tempos pré-LCD (final do século passado), os TVs de tubo dominavam o mundo. Mas sua fabricação só era viável até o limite de 38 polegadas – e ainda assim a um custo semi-proibitivo. A solução encontrada foi adaptar projetores dentro dos gabinetes de TVs, invertendo a projeção, o que permitiu construir TVs de até 70″ a custos acessíveis. Só que a imagem se degradava pelo desalinhamento dos feixes de luz internos – em ângulo de visão lateral, era uma experiência terrível. O conceito foi repaginado com os “TVs-projetores”, com desempenho muito melhor (e preço bem mais alto), caso do Laser Display xTV, da italiana SIM2.

HD-DVD x Blu-ray – Aqui mesmo neste blog, fizemos vários posts sobre a “guerra dos formatos”, que colocou em lados opostos a Toshiba e (de novo) a Sony. Ambos os formatos propunham gravação/reprodução de som e imagem em alta definição, um belo salto em relação ao DVD então dominante. Toda a imprensa mundial publicou enorme quantidade de testes comparativos, para chegar à conclusão de que o HD-DVD era só ligeiramente superior. Desta vez, a Sony foi mais ágil e buscou apoio de gigantes como Panasonic e Samsung, ganhando a batalha. Até hoje há defensores do HD-DVD falando sozinhos. 

TV 3D – O lançamento do filme Avatar (2009), de James Cameron, foi um acontecimento mundial. Parecia estar nascendo a “nova era do cinema”. Salas lotadas e recordes de bilheteria faziam supor que, sim, todos teríamos que passar a usar aqueles óculos. Mas seriam óculos ativos ou passivos? E se a lente do óculos sujasse? Ou a haste quebrasse? Dentro de casa, seria preciso por e tirar o óculos a cada mudança de filme? E os programas de TV? Eram tantas as dúvidas que em pouco mais de quatro anos os taís óculos praticamente haviam desaparecido. Hoje, pode-se afirmar que foi um caso típico de colocar o marketing à frente do produto. Não podia mesmo dar certo. (para quem apagou da memória, a imagem no alto do posto é de uma imagem 3D vista sem “aqueles” óculos)

 

 

TVs curvas – É fácil hoje apontar o dedo para as empresas que lançaram esse tipo de TV, a partir de 2014, mas na época o apelo do design foi muito explorado. A ideia era que aproximando as laterais da tela se ampliaria o campo de visão mesmo que o usuário assistisse de um ângulo lateral. Perfeito na teoria. As TVs curvas davam show nas grandes feiras internacionais, mas principalmente quando desligadas. Pouquíssimos usuários se convenceram, exceção feita aos gamers que, no entanto, não são em número suficiente para sustentar a indústria.

Câmera nos TVs – Essa, sim, pode ser considerada hoje uma péssima ideia, pelo simples fato de que ninguém quer ser filmado sem autorização. Os primeiros TVs equipados com microcâmeras serviam, por exemplo, para se fazer chamada por Skype, naqueles longínquos tempos pré-WhatsApp e pré-Zoom. Logo se descobriu que as mesmas camerazinhas podiam ser usadas por hackers para espionar a vida íntima das pessoas. Em alguns países, houve até processos judiciais contra fabricantes. Que logo desistiram da ideia. Diz o Digital Trends que recentemente surgiram novos modelos de TV smart em que a câmera é desativada automaticamente quando não em uso. Será que isso garante alguma coisa?

 

TVs 21:9 – Outro achado do design que parecia fadado ao sucesso, só que não. A ideia nasceu com a Philips, baseada na constatação de que grandes hits do cinema eram exibidos em proporção mais larga que a tradicional 16:9. Poderíamos todos ver em casa obras-primas como Blade Runner e The Matrix da forma como seus diretores imaginaram, sem as famosas tarjas pretas. Pura ilusão: a maioria dos filmes não é gravada em 21:9; os produtores sabem que cada vez mais pessoas os assistem em casa, e não no cinema. Com a expansão das séries no streaming, então, mais ainda. 

Controle por gestos – Outra inovação saudada no início, mas que logo se revelou complicada na prática. Lembram do Kinect, da Microsoft? Toda a criançada queria… até a moda passar. O que não demorou muito. A tecnologia de sensor de movimentos continua firme e forte, mas para aplicações profissionais (este site explica bem por que). Mas o Kinect, assim como seu concorrente PS Move, da Sony, não existem mais como produtos ao consumidor. Já o controle de TVs por gestos gorou pelo mesmo motivo do item anterior: só é viável com uma câmera acoplada à tela.

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