
O caro leitor provavelmente não sabe, mas já existem mais de 17 milhões de domicílios no Brasil utilizando o sistema TVRO (television receive-only), sigla técnica para TV aberta via satélite. Isso representa cerca de 25% de todas as famílias do país. Foi um crescimento consistente desde 2022, quando se fez a migração de frequências para a banda Ku (aquela das antenas prato) para viabilizar as transmissões da TV 3.0.
E o leitor não sabe disso porque TVRO é usada principalmente pelas classes C, D e E, com kits baratos de recepção, em regiões onde o sinal de TV aberta não chega com qualidade ou onde as pessoas não têm dinheiro para assinaturas de TV paga nem de streaming. Versão moderna das antigas parabólicas, a TVRO está atraindo investimentos de grandes marcas, como Globo, Claro, Sky, Vivensis, Record, SBT, Elsys, Intelbras e outras, que estão se equipando para oferecer essa alternativa de sinal digital.
Interatividade via satélite
A Claro, por exemplo, lançou a modalidade chamada “TVRO 2.5”, que permite adicionar recursos de interatividade e conectividade aos receptores de satélite. Durante demonstração da SET Expo, em agosto, a empresa revelou que sua solução se conecta à internet, recebe o sinal das emissoras, processa aplicativos de streaming e é capaz de sintonizar até 80 canais.
Seguindo as regras do DTV+, dá ainda ao telespectador a opção de serviços interativos, como acompanhamento do clima, participação em votações e acesso a serviços do governo – tudo via controle remoto. A resolução de imagem é 4K, com sistema operacional próprio (chamado Zap OS) a compressão padrão do DTV+ (H.265). Vejam mais detalhes aqui.

O problema é que incluir tantos recursos num receptor implica aumentar os custos. Os receptores atuais, alguns custando menos de 100 reais, terão de ser substituídos por outros na faixa dos 400 reais (o modelo acima, que une TVRO e recepção de streaming, mas sem interatividade, está na faixa de 500 reais). E não dá para esperar que o governo federal financie essa conta como fez na transição da HDTV e no início da própria TVRO. No programa Siga Antenado, criado pelas operadoras de celular em parceria com o Ministério das Comunicações, foram instalados mais de 10 milhões de kits.
Quem vai pagar?
Mas é exatamente esse o plano das emissoras e operadoras, enquanto vendem para o mercado publicitário os benefícios da TV via satélite. Neste momento, fabricantes, operadoras e emissoras travam uma discussão de bastidores sobre o melhor modelo a ser adotado. Talvez o sucesso inicial da TVRO seja um bom ponto de partida.
Um dos seus benefícios é a possibilidade de regionalizar os conteúdos, tanto programas quanto anúncios. Como na TV 3.0, emissoras e seus parceiros podem criar mapas publicitários dinâmicos para atingir determinadas praças, uma tecnologia conhecida como DAI (Dynamic Ad Insertion), o que sem dúvida tem alto valor como investimento de mídia.
De qualquer modo, é curioso notar que, nas estatísticas, o crescimento da TVRO vem acontecendo em paralelo à queda da TV paga via satélite (DTH). Claramente houve um processo de substituição gradativa dos receptores, puxada pelo alto custo das assinaturas. Na TV aberta, que é obrigatoriamente gratuita, os custos terão de ser cobertos com publicidade. Falta agora convencer os anunciantes.
