Há dias comentamos aqui sobre os efeitos maléficos das mídias sociais e dos jogos online, dos quais as bets são hoje a maior expressão (confiram). Seu impacto é fortíssimo na sociedade, com o dramático endividamento das famílias, mas há um outro aspecto às vezes deixado em segundo plano: os interesses financeiros por trás dessa atividade (mal) regulada pelas autoridades.

Mesmo tendo vencido as eleições, o governo Lula terá sérias dificuldades para converter em lei a medida provisória editada em setembro, que proibiu as bets no país. Desde então, o IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável) identificou mais de 60 mil endereços suspeitos oferecendo algum tipo de aposta online. Prova de que a MP 1394, que pelas pesquisas conta com apoio de aproximadamente 70% da população, já é solenemente desrespeitada.

Mas o pior é a ação dos vários lobbies apoiando as empresas de apostas. Além de parlamentares com mandato que já defendem as bets há tempos, vemos os clubes de futebol, cujas dívidas só aumentam, na expectativa de mais uma ajuda do governo (como mostra esta reportagem). E há o fortíssimo lobby das emissoras de TV, cuja programação até setembro vivia inundada de anúncios de apostas.

No caso dos clubes, embora haja empresas de vários setores patrocinando, nenhum segmento até hoje chegou perto do total investido pelas bets: R$ 1,14 bilhão é o valor somado de todos os contratos de patrocínio de empresas de apostas no futebol (confiram os detalhes).

 

Emissoras querem a volta da festa

Mas o que nos interessa aqui é analisar a posição das empresas de mídia, que estão alegando até inconstitucionalidade para derrubar a medida provisória. Segundo o UOL, somente no último mês de agosto as bets gastaram cerca de R$ 153 milhões em anúncios de televisão, uma verdadeira festa para as emissoras. A Abert, entidade que as representa, acionou imediatamente STF, onde  já tramitam três processos relacionados às bets.

Há que se reconhecer que, em parte, elas têm razão. Foi o governo que regulamentou as apostas, em 2023, permitindo que as bets tomassem conta do país, o que, evidentemente, fez subir a arrecadação de impostos. A publicidade exagerada, que chegou ao auge na Copa do Mundo, foi apenas uma consequência daquela decisão. De olho nas eleições, o presidente Lula voltou atrás em setembro último alegando, com razão, que os abusos eram uma ameaça às famílias.

Mas há um outro lobby conjugado ao das emissoras. Parte das agências de publicidade critica a MP por tirar delas algo como R$ 1,82 bilhão, que foi o total investido pelas bets em propaganda somente no primeiro semestre do ano, segundo o site Meio & Mensagem. Mas a decisão do governo foi estimulada também por outro setor forte, as redes varejistas. Há tempos esse setor vinha se queixando de um fenômeno inédito no país: consumidores deixando de comprar até comida para aplicar em apostas!

Com a MP de setembro, a Abras (Associação Brasileira de Supermercados) revelou que o varejo alimentar teve crescimento de 6% nas vendas (vejam aqui). Mais: como parte do dinheiro dos apostadores está sendo devolvida, também o varejo de eletroeletrônicos prevê agora uma retomada nas vendas.

Bem, cabe agora ao Congresso analisar a MP 1394, num prazo máximo de 120 dias, descontando o período de recesso entre dezembro e janeiro. Acho difícil o governo resistir a tantos lobbies, que remetem ao que vimos no país quando das proibições de propaganda de cigarros e de bebidas. Tomara que consiga.

Se, contudo, os congressistas quiserem mesmo liberar as apostas, que pelo menos tenham o bom senso de proibir a propaganda, que na prática funciona como verdadeiro incentivo à desgraça.

 

Orlando Barrozo é jornalista especializado em tecnologia desde 1982. Foi editor de publicações como VIDEO NEWS e AUDIO NEWS, além de colunista do JORNAL DA TARDE (SP). Fundou as revistas VER VIDEO, SPOT, AUDITÓRIO&CIA, BUSINESS TECH e AUDIO PLUS. Atualmente, dirige o site HT & CASA DIGITAL. Gosta também de dar seus palpites em assuntos como política, economia, esportes e artes em geral.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *