Tecnologia e as profissões de (e do) futuro

27 de setembro de 2019

Não é novidade. Já saíram milhares de livros, artigos e teses sobre os impactos na tecnologia no mundo do trabalho. Especialistas têm na ponta da língua listas sobre quais profissões irão desaparecer, o que causa calafrios por aí. Me faz lembrar de um primo distante que era um feliz proprietário de uma videolocadora, isso no início do século, quando nos encontramos e eu lhe disse que aquele era um negócio em vias de extinção. O coitado ainda insistiu por algum tempo, mas foi convencido, digamos, pelos fatos.

Li recentemente sobre robôs capazes de examinar uma pessoa doente e fornecer o diagnóstico e até a prescrição dos medicamentos. Defensores dos carros autônomos já decretaram o fim iminente da profissão de motorista. E já existem aplicativos que imitam a voz do usuário e até seu jeito de escrever (jornalistas e escritores, se cuidem!) 

Alguém já disse que, no Brasil, até o passado é imprevisível – quê dizer do futuro? Navegando pelo LinkedIN, principal rede virtual de relacionamentos profissionais da atualidade, me chamaram atenção alguns cargos com que as pessoas se apresentam e o uso indiscriminado de siglas em inglês para identificá-los. Estas podem ser práticas de falar e escrever, mas geralmente mais complicam do que explicam.

Vejam estes exemplos: CEO (Chief Executive Officer), CTO (Chief Technical Officer), CFO (Chief Financial Officer), CIO (Chief Information Officer), CGO (Chief Global Officer), CCO (Chief Communications Officer), CMO (Chief Marketing Officer). Com exceção da primeira, já incorporada até a microempresas, as demais siglas passam uma aura de pedantismo. E que tal CPO (Chief People Officer), versão moderna do velho “diretor do departamento pessoal”? 

Já vi também CSO (Chief Strategy Officer), que poderia perfeitamente passar como “diretor de Estratégia”; CGO (Chief Growth Officer), eufemismo para a pessoa que cuida de trazer dinheiro para fazer a empresa crescer (não seria o “diretor comercial”, ou isso já não vale tanto?); e DPO (Data Protection Officer), que antigamente era o singelo “diretor de informática”. Nada contra quem utiliza essas siglas porque é obrigado, mas levando em conta que já existem tantas delas dançando diante de nossos olhos, bem que o pessoal poderia maneirar, não?

Officers, managers e até “heads” são nomeados aos montes dentro das corporações, e confesso minha dificuldade em entender como o uso desses nomes melhora o desempenho de seus portadores. Mas fiquei embasbacado com suas adaptações para o português, que – admitamos – é um idioma bem mais complicado. 

Você contrataria alguém que se apresentasse como “Prospectivista de Negócios”? E um “futurista global”? Ou, quem sabe, um DEV (Diretor de Engenharia de Valor)? Saberia dizer suas funções na prática do dia a dia corporativo? Parece que a criatividade aumenta quando se chega ao já citado departamento pessoal: encontrei coisas como “Gerente de Talent” e “Diretora de Gente”, que concluí ser uma adaptação do CPO do começo do texto.

Essa pesquisa, que na verdade não exigiu mais do que 15 minutos, acabou me causando risos ao encontrar esta sigla: CTM (Capitalism Trouble Maker)? Não havia maiores detalhes discriminando o que faz exatamente um CTM. Mas, tomado ao pé da letra, seria alguém especializado em “criar problemas para o capitalismo”!!!

Como assim? Deve então ser algum espião russo dos tempos da Guerra Fria, saído das cinzas como aqueles infelizes soldados japoneses que se perderam na mata durante a 2a Guerra e, quando saíram, o conflito havia terminado; achavam que o Japão tinha vencido! Nosso prezado CTM vai ter certa dificuldade para arranjar emprego. Nosso capitalismo já tem problemas demais. 

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