Espionagem de quem, cara pálida?

19 de outubro de 2020

 

Em entrevista ao repórter Julio Wiziack, da Folha de São Paulo, o presidente da Huawei no Brasil alerta que, se o país decidir bani-la do mercado de 5G, os brasileiros acabarão pagando mais caro pelo serviço. “O banimento contra a Huawei só vai trazer impactos negativos e nenhum ponto positivo”, diz Sun Baocheng.

A entrevista saiu nesta segunda-feira, mesmo dia em que o conselheiro de Segurança do governo Trump, Robert O’Brien, esteve na Fiesp dando continuidade a sua campanha para que o governo brasileiro siga o exemplo do americano e tire a Huawei do mercado. Seu argumento é o mesmo que comentamos aqui tempos atrás: a empresa poderia “decifrar” dados sigilosos do país e das companhias brasileiras.

Ambas as entrevistas se abrem a diversas implicações, incluindo as da guerra comercial estabelecida pelo governo Trump contra a China e na qual, acredito, o Brasil não deve se envolver. Mas, ficando apenas no campo tecnológico, a Huawei é hoje a maior empresa do planeta em telecomunicações. Seus equipamentos estão presentes em quase todas as operadoras brasileiras desde o início do 2G, dominando 40% das conexões, segundo Baocheng. 

A tecnologia 5G, que significa um salto decisivo para qualquer país, é uma evolução natural da atual 4G. Operadoras e provedoras que utilizam equipamentos da Huawei poderão, assim que forem autorizadas pela Anatel, fazer o upgrade para 5G sem necessidade de trocar sua infraestrutura atual. Na entrevista ao colega Wiziack, o executivo chinês lembra que o custo será muito mais alto se elas forem forçadas a substituir seus aparelhos pelos de outras marcas; a sueca Ericsson e a americana Qualcomm seriam as principais candidatas. Um custo que, evidentemente, será repassado aos consumidores.

Além disso, há a questão logística. Trocar equipamentos de uma operadora de telecom não é como trocar um computador. Especialistas calculam que haveria um atraso de aproximadamente dois anos na implantação das redes 5G – Baocheng é mais pessimista, fala em 4 a 5 anos. Pelo que já ouvi de executivos do setor, essa mudança seria insana em todos os sentidos, sem trazer nenhum benefício aos usuários (as soluções da Huawei também são mais baratas que a concorrência).

Resta então a questão da espionagem de dados apontada pelo governo americano. Pelo jeito todos esqueceram de Edward Snowden, o funcionário da agência de segurança dos EUA que denunciou como o órgão espionava cidadãos do país e também líderes políticos estrangeiros. Isso tudo em 2013, bem antes do 4G. Se os chineses têm fama de roubar dados de outros países, russos e americanos não ficam atrás. Aliás, é o que vêm fazendo sem parar desde os tempos da Guerra Fria. 

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