
A grande notícia deste início de setembro foi a denúncia de que o crescimento descontrolado da Inteligência Artificial pode levar à morte de pessoas nos próximos dez anos (vejam). Toda a mídia vem dando destaque para essa previsão, feita por ex-funcionários da OpenAI (dona do ChatGPT) e da Anthropic (criadora do Claude). Esperava-se que as duas empresas refutassem, mas nos últimos dias elas – e também algumas concorrentes – defenderam que, de fato, é preciso dar um break nessa evolução maligna da tecnologia.
Quero aguardar os próximos capítulos dessa história para comentar melhor. Será mesmo que, desta vez, as big techs irão se unir para defender os interesses dos usuários? Difícil acreditar…
Outra notícia sobre o assunto, mas que passou despercebida da mídia em geral, é que a IA – ou melhor, os absurdos gastos das empresas com IA – está provocando a alta da inflação nos EUA, o país que mais investe nessa tecnologia. A questão foi levantada pelo site da rede CBS, citando economistas respeitados. Além da questão do custo dos chips, que já abordamos aqui, o problema é que o consumidor americano começa a sentir os efeitos nos preços dos supermercados (aqui, a notícia original).
“Antigamente, se dizia que o preço do leite influenciava nosso custo de vida; hoje, os smartphones são o “novo leite”, brincou o professor Eric Johnson, da Columbia Business School. Segundo ele, para muitos consumidores os produtos eletrônicos são quase tão importantes quanto a comida do dia a dia, e isso tem a ver com a incrível expansão da IA.
Inflação bem acima da meta
Os números confirmam. O CPI (Consumer Price Index), índice de acompanhamento que mede as variações de preços de uma cesta de produtos e serve de referência para empresas e investidores, subiu em julho para 3,4% ao ano, dentro das previsões. O aumento foi de 0,2% sobre junho. Só que os preços dos eletrônicos e dos softwares subiram 1,4% em um mês, como vem acontecendo há algum tempo (vejam o gráfico abaixo). Lá, também funciona o sistema de metas de inflação, como aqui. A meta atual do FED, o Banco Central americano, é de 2% ao ano!

“Os consumidores hoje competem com as empresas”, analisa o economista Stephen Juneau, do BofA Securities, banco de investimentos do Bank of America. O que ele quer dizer é que tanto as pessoas quanto as empresas estão demandando mais produtos tecnológicos, porque querem (ou precisam) atualizar seus equipamentos com os recursos da IA. Cada americano paga hoje, em média, de 20 a 30 dólares em assinaturas de softwares.
Por sua vez, os fabricantes pagam mais pelos componentes e esse custo adicional é repassado aos consumidores. Ainda segundo Juneau, a IA faz subir os custos da energia com a construção de mais e mais data centers que, como mostramos neste post, são “devoradores de eletricidade”. A última estatística mostra que, nos últimos doze meses, os preços da energia subiram 4,2%.
Pior do que tudo é que grande parte desses especialistas não enxerga solução a curto prazo. Nunca os americanos tiveram inflação tão alta, o que também tem a ver com o aumento das tarifas de importação e a escalada da guerra no Irã. Mas vai ficando claro que a expansão desenfreada da IA tem papel cada vez mais decisivo na alta dos preços.
