
Que todo aparelho conectado à internet coleta dados do usuário e pode ser usado para rastrear seus movimentos, isso já é sabido há anos. E, se a maioria das TVs atuais é smart, ou seja, “inteligente” para armazenar dados e acessar a web, nada mais natural do que chamá-las de “espiãs”.
Nada há de mal nisso, desde que você, usuário, concorde em ter seus dados copiados e usados por terceiros. Num trabalho inédito, pelo menos que eu saiba, a Proton.me, empresa de segurança digital sediada na Suíça, lançou o alerta mais recente sobre TVs conectadas. Sua conclusão é que está ficando cada vez mais difícil – na prática, quase impossível – para o usuário proteger-se desses rastreamentos.
Baseando-se na análise de diversos modelos de TVs vendidos mundo afora, os técnicos da Proton.me verificaram que os aparelhos coletam dados sobre tudo que é exibido na tela. E que esses dados são compartilhados não apenas com os próprios fabricantes, mas com empresas especializadas em análise de dados, que vendem seus serviços a anunciantes e agências de publicidade e marketing.
Quem acompanha este blog e o noticiário geral sobre segurança cibernética provavelmente não irá se surpreender com essa notícia. Já abordamos o problema aqui e aqui, por exemplo. Só que, antes, bastava ao usuário entrar nas configurações de sua TV e ativar as proteções que achasse necessárias. Segundo a Proton.com, cada vez mais as empresas criam dificuldades para isso. E pior: sem que o dono do aparelho seja avisado!
ACR: tente desativar, se for capaz
A pegadinha é que muitos controles de privacidade estão “escondidos” nas configurações das TVs – alguns já vêm desativados de fábrica. Segundo o site especializado Digital Trends, a Proton adverte que “comprar uma smart TV hoje implica aceitar um grau de rastreamento externo que nunca foi comunicado à maioria das pessoas”.
O controle básico de segurança das TVs chama-se ACR (Automatic Content Recognition). Além de rastrear os conteúdos que você acessa por aplicativos de streaming, esse recurso identifica tudo que é mostrado na tela: programas da TV aberta, games que chegam via consoles e qualquer conteúdo recebido via HDMI. O ACR cria uma “impressão digital” do que aparece na tela e compara com um banco de dados na nuvem, para a devida identificação.
Os dados registrados a partir daí são compartilhados com terceiros, que podem ser, por exemplo, analistas de dados visando montar perfis do usuário para fins comerciais. O ACR roda dentro do chipset da TV e geralmente é ativado by default, ou seja, na própria fábrica. Se o usuário não fizer nada, irá funcionar mesmo que ele nunca use as funções smart do aparelho.
Apenas lembrando: no início do ano, a Texas Instruments, fabricante de chips, entrou com ação na Justiça americana contra vários fabricantes de TVs alegando mau uso do recurso ACR. Este site traz mais detalhes a respeito.
A saída: desconectar a TV da internet. Quem consegue?
Para evitar essa espécie de vigilância disfarçada, diz a Proton, só mesmo deixando a TV desconectada da internet. A saída seria usar receptores externos ou servidores de mídia, mas convenhamos que é quase impossível escapar da conexão HDMI. Ou instalar bloqueadores de anúncios, mas estes raramente funcionam com conteúdos do YouTube, por exemplo.
A principal conclusão desse estudo da Proton é que, embora o usuário possa reconfigurar (ou até desabilitar) o recurso ACR, isso vem sendo tornado cada vez mais complicado pelos fabricantes. A empresa não cita marcas específicas, mas adverte que é comum encontrar dificuldades no acesso às configurações, o que faz muita gente desistir no meio do caminho.
Talvez seja mesmo o preço a pagar para se poder usar tantos recursos oferecidos nas TVs de hoje. Não é por acaso que as TVs já superam os computadores como principal meio de acesso à internet dentro das residências, como mostramos neste post. O rastreamento de dados dos usuários é, na prática, o que sustenta todo o ecossistema comandado pelas big techs. E elas farão de tudo para impedir que você fuja dessa armadilha.

Eu mantenho meus televisores desconectados tanto da rede interna da minha casa como da internet (nao ha cabo ethernet ligado à tv e o WiFi tambem fica desligado). Todo o acesso à rede é feito via boxes externos (uso o Chromecast With Google TV e o mais atual Google Streamer TV). Uso-os para assistir tanto a serviços de streaming, como aos conteudos armazenados nos HDDs do meu servidor de midia.
Nunca tinha pensado nisso, mas esses aparelhos da Google nao possuem a funcionalidade ACR (Automatic Content Recognition tracking). Então é uma opção que pode ser adotada por alguns poucos.
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Infelizmente, isso não resolve totalmente o problema, Rubens. Todos os dispositivos conectados à internet (todos) permitem algum tipo de coleta de dados. O que muda é o perfil do fabricante. Apple, Google, Amazon e Roku, por exemplo, cada uma tem objetivos diferentes ao captar dados do usuário. Assim como as marcas chinesas que proliferam no mercado. Em breve voltaremos ao assunto. Abs